17. Caderno de notas de um etnólogo grego – Elipses II

Falareconomia1

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

Revisão de Flávio Nunes

 

(conclusão)

 

Os sem-abrigo, ou antes certas pessoas solidárias e expressivas, desenham por vezes os seus “abrigos” e as suas “casas”, assim precisamente designados ao longo das paredes da cidade. Pelos tempos que correm, é talvez uma maneira de expressão mais precisa que os (outros) slogans políticos. As eleições passaram, SYRIZA governa (?), e a esperança ainda não veio!

Original File Name: 2015032517.jpg
Cadáver social. Atenas, Março de 2015

 

Original File Name: 2015032518.jpg
Casa simbólica. Atenas, Março de 2015

Observo, enfim, de quanto o nosso tempo de crise se torna então mais caro na pornografia do que na memória histórica, todos os dois magnificamente ilustrados para a necessidade das revistas. € 6,90 para a Grande Guerra e € 12,90 para uma certa pornografia (em sentido lato, digamos).
Na rua Phidias, em memória do famoso escultor escolhido por Péricles para fazer as estátuas do Parthénon, entre as quais a chamada Criselefantino de Atenas Parthénos, dedicada em -438, a construção mortificada do antigo Conservatório de música de Atenas, já não recorda muita coisa do seu passado. Construída entre 1836 e 1837, tinha abrigado nos seus (primeiros) tempos, a morada do Embaixador da Áustria Anton Graf von Prokesch-Osten (1795-1876), amigo do príncipe de Metternich, que foi enviado em missão ao Oriente desde 1824, designadamente, para observar os diversos conflitos procedentes da Guerra de independência grega.
É assim que em recompensa dos seus serviços lhe foi conferido o título de Ritter von Osten (Cavaleiro do Oriente) em 1830. Hans Christian Andersen, (1805-1875) o grande romancista, dramaturgo, contador de histórias e poeta dinamarquês, famoso pelas suas novelas e os seus “Contos de fadas”, amigo igualmente de Anton Graf von Prokesch-Osten, tinha sido acolhido nesta casa que tinha tanto admirado mas estávamos em 1841.

Original File Name: 2015032523.jpg
A morada de ‘Anton von Prokesch-Osten, rua Phidias. Atenas, Março de 2015

 

Original File Name: 2015032522.jpg
O histórico hotel de luxo “Alexandre le Grand”. Atenas, Março de 2015

Do mesmo modo, o luxuoso hotel histórico “Alexandre o Grande”, inaugurado em 1889 de arquitetura característica do classicismo ateniense (século XIX), Praça Omónia, requisitado pelo exército alemão em 1941 e pelo exército britânico em seguida, está abandonado desde há muito tempo, embora classificado monumento histórico. Obra de Ernst Ziller (1837-1923), este arquiteto, investigador e arqueólogo saxónico, naturalizado grego, com mais de 500 construções privadas e públicas construídas entre 1870 e 1914, Ziller, deixou uma marca duradoura sobre a arquitetura historicista do final do século XIX na Grécia.
Desde o último andar do hospital Agios Sávvas, especializado em oncologia, a vista é espantosa sobre os oito edifícios muito modernos de 1936, quando foram inaugurados com o objetivo de alojar famílias de refugiados Gregos da Ásia menor. Contudo, carrega ainda com os estigmas da batalha de Atenas entre Dezembro de 1944 e Janeiro de 1945 (que opõem os combatentes comunistas às forças monárquicas e ao exército britânico), estes edifícios no entanto classificados, sofrem o quase abandono e abrigam em parte, famílias de imigrantes do nosso tempo de depois.

 

Original File Name: 2015032524.jpg
Os imóveis inaugurados em 1936. Atenas, uma perspetiva tirada a partir do hospital l Agios Sávvas, Março de 2015

“ Tudo é então em vão e a Esquerda no poder não passa de uma pobre opereta”, insiste o meu amigo Anéstis. Hospitalizado em Agios Sávvas porque operado urgentemente na semana passada, chega já a fazer um primeiro balanço da sua vida, politicamente comprometido digamos, à esquerda. Quando se curar, porque é necessário que o meu amigo se cure contrariamente (segundo ele) ao estado irrecuperável da esquerda europeia, iremos por fim fazer uma passeata em veleiro com o meu amigo Vardís, agora que o meu projeto profissional e existencial “Greece Terra Incognita” está lançado.
O diário ateniense reencontra assim o essencial dos seus ritmos esfolados e o dia da festa nacional do 25 de Março foi celebrado penosamente debaixo de chuva. O nosso governo tinha querido fazer uma festa popular, para além do desfile tradicional, em contraste com as barreiras filtrantes e de segurança, de acordo com a prática “de acesso restrito e sobre convite por razões de segurança”, inaugurada pelos governos precedentes.
Por uma vez, foi a chuva que estragou a festa e não a Troika. Então progride-se no reino dos vulneráveis.

 

Original File Name: 2015032526.jpg
Festa Nacional de 25 de Março em Atenas no dia 25 Março de 2015.

 

17. Caderno de notas de um etnólogo grego – Elipses I

Leave a Reply