Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota
Porque é que a ascensão do fascismo continua a ser o problema
John Pilger, Why the rise of fascism is again the problem
johnpilger.com, 26 de Fevereiro de 2015
(CONCLUSÃO)
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Nenhum líder ocidental se exprimiu sobre o renascimento do fascismo no centro da Europa — com excepção de Vladimir Putin, cuja população perdeu 22 milhões de pessoas devido à invasão nazi pela fronteira ucraniana. Aquando da recente conferência sobre a segurança de Munique, a secretária de Estado associada de Obama para os Negócios europeus e euro-asiáticos, Victoria Nuland, lançou-se numa crítica abusiva contra os líderes europeus que se opunham ao armamento do regime de Kiev pelos EUA. Qualificou o ministro alemão da Defesa “de ministro do derrotismo”. Nuland, é casada com Robert D. Kagan, um eminente neoconservador e co- fundador do Projeto para um novo século americano, de extrema direita, e foi conselheira em política estrangeira de Dick Cheney. Foi ela quem supervisionou o golpe de Estado em Kiev.
O golpe de Estado de Nuland não se desenrolou como previsto. A NATO não chegou a apropriar-se da base naval russa histórica e legítima da Crimeia. A população maioritariamente russa da Crimeia — ilegalmente anexada à Ucrânia por Nikita Krushchev em 1954 — votou largamente por uma união à Rússia, como o tinham feito nos anos 1990. O referendo foi voluntário, popular e internacionalmente supervisionado. Não houve nenhuma invasão.
Ao mesmo momento, o regime de Kiev voltou-se contra as populações de etnia russa de Leste com a ferocidade de uma depuração étnica. Utilizando milícias neonazis à maneira de Waffen-SS, bombardearam e sitiaram cidades e aldeias. Utilizaram a fome de massa como arma, cortaram a electricidade, congelaram as contas bancárias, bloqueando a segurança social e as pensões de reforma. Mais de um milhão de refugiados foi para a Rússia. Nos meios de comunicação social ocidentais, eram os invisíveis a fugirem “da violência” causada “pela invasão russa”. O comandante da NATO, general Breedlove — cujo nome e a actuação se inspiram provavelmente no doutor Folamour de Stanley Kubrick — anunciou que 40.000 soldados russos “reuniam-se”. Na era das provas judiciais por imagem satélite, não fornece nenhuma.
Estas pessoas de etnia russa e bilingues de Ucrânia — um terço da população — esperam desde há muito tempo pela criação de uma federação que reflicta a diversidade étnica do país e que seja ao mesmo tempo autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não é constituída por “separatistas” mas sim por cidadãos que querem viver em segurança no seu país natal e que se opõem à tomada de poder por Kiev. A sua revolta e o estabelecimento “de Estados” autónomos são uma reacção ao ataque que Kiev lançou contra eles. De tudo isto quase nada se explicou ao grande público ocidental.
No dia 2 de Maio de 2014, em Odessa, 41 cidadãos de etnia russa foram queimados vivos na sede dos sindicatos sob o olhar dos polícias inactivos. Dmytro Yarosh, líder do Sector Direito, (Right Sector) saudou este massacre como “um novo dia de glória na nossa história nacional”. Nos meios de comunicação social dos EUA e britânicos, foi relato como uma “sombria tragédia” resultante “de confrontação” entre “os nacionalistas” (neonazis) e “os separatistas” (estas pessoas que recolhem assinaturas para um referendo sobre uma Ucrânia federal).
O New York Times enterrou esta história, tendo ignorado como propaganda russa os avisos sucessivos relativamente à política fascista e anti-semita dos novos clientes de Washington. Wall Street Journal disse mal das vítimas — “o incêndio mortal na Ucrânia foi provavelmente desencadeado pelo rebeldes, de acordo com o governo (Kiev)”. Obama felicitou a junta pela sua descrição, pela sua “silêncio”.
Se Putin for levado a cair na provocação e de ir ao seu socorro, o seu papel preestabelecido de “paria ” no Ocidente justificará a mentira segundo a qual a Rússia invadiria a Ucrânia. No dia 29 de Janeiro, o chefe de Estado-maior ucraniano, o General Viktor Muzhemko, quase que desacreditou, por inadvertência, os fundamentos das sanções dos EUA e da UE contra a Rússia declarando categoricamente aquando de uma conferência de imprensa: “O exército ucraniano não combate contra as unidades regulares do exército russo”. Havia “cidadãos individuais” que eram membros “de grupos armados ilegais”, mas não havia nenhuma invasão russa. Nada de novo. Vadym Prystaiko, o ministro associado dos Negócios Estrangeiros de Kiev, apelou “a uma guerra total” contra uma Rússia que dispõe de armas nucleares.
A 21 de Fevereiro, o senador americano James Inhofe, um Republicano do Oklahoma, introduziu um projecto de lei que autorizaria o fornecimento de armamento pelos EUA ao regime de Kiev. Na sua apresentação ao Senado, Inhofe utilizou fotografias que era suposto mostrar as tropas russas em vias de atravessar a fronteira ucraniana, de que se soube depois que eram falsas. Isto recorda as fotografias falsas difundidas por Ronald Reagan sobre as instalações soviéticas na Nicarágua, e as provas falsas de Colin Powell na O.N.U sobre as armas de destruição maciça do Iraque.
A intensidade da campanha de difamação contra a Rússia e a representação do seu presidente como o Grande homem mau não se assemelha a nada que eu tenha visto enquanto repórter. Robert Parry, um dos jornalistas de investigação mais distinguidos dos EUA, que revelou o escândalo da negociata Irão-contra, escreveu recentemente: “Nenhum governo europeu, desde a Alemanha de Adolf Hitler, julgou correcto enviar tropas de choque nazis efectuar uma guerra contra uma população do seu próprio país, mas o regime de Kiev fê-lo e com conhecimento de causa. E no entanto através do espectro politico – mediático ocidental, houve um esforço consequente para camuflar esta realidade ao ponto de se ignorarem factos estabelecidos… Se vos perguntam como é que o mundo poderia iniciar uma 3.ª Guerra Mundial — da mesma maneira que aconteceu a Primeira Guerra Mundial há um século — o que cada um de nós tem a fazer é observar a loucura em redor de esta montagem sobre a Ucrânia que se mostra totalmente impermeável aos factos ou à razão”.
Em 1946 o procurador do tribunal de Nuremberga disse aos meios de comunicação social da Alemanha: “A utilização pelos conspiradores nazis da guerra psicológica é hoje bem conhecida. Antes de cada grande agressão, com algumas excepções apenas segundo a urgência, iniciavam uma campanha de imprensa a fim de desacreditar as suas vítimas e de preparar os Alemães psicologicamente para o ataque… No sistema de propaganda do Estado de Hitler a imprensa diária e a rádio eram as armas mais importantes”. No Guardian do 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Ash apelou certamente a uma guerra mundial, sob o título “Putin deve ser parado”. “E às vezes só as armas param as armas”. Admitia que a ameaça de uma guerra possa “alimentar uma paranóia russa de cerco”; mas que era aceitável. Cita seguidamente o equipamento militar necessário para este trabalho e adverte os seus leitores que “a América possui um melhor conjunto”.
Em 2003, Garton-Ash, um professor de Oxford, tinha repetido a propaganda que tinha levado ao massacre no Iraque e escreveu sobre Saddam Hussein: “tem, como [Colin] Powell o documentou, armazenado quantidades de armamento químico e biológicos terríveis e esconde onde é que ele está. Tenta sempre obter a produção de energia nuclear”. Saudou Tony Blair como “intervencionista liberal cristão gladstoniano”. Em 2006, escreveu: “Enfrentamos agora o próximo teste de envergadura depois do Iraque: o Irão.”
Estes excessos de linguagem — ou como Garton-Ash prefere chamar-lhes, estas “ambivalências liberais torturadas” — não são raros na elite liberal transatlântica que tem concluído um pacto à Fausto. O criminoso de guerra Tony Blair é o seu líder perdido. O Guardian, em que o artigo de Garton-Ash apareceu, publicou uma página cheia de publicidade para um bombardeiro furtivo dos EUA. Sobre uma imagem ameaçadora do monstro da Lockheed Martin figuravam as palavras: “O F-35. EXCELENTE para a Inglaterra”. Este “conjunto” EUA custará ao contribuinte britânico 1,3 mil milhões de £, o precedente modelo F tendo já massacrado através do globo. A fim de se manter no tom das suas publicidades, um editorial do Guardian apela a um aumento das despesas militares.
Uma vez mais, há aqui um objectivo sério. Os líderes do mundo não querem somente a Ucrânia como base de mísseis, querem também a sua economia. A nova ministra das Finanças de Kiev, Nataliwe Jaresko, é uma antiga alta-responsável do departamento de Estado EUA, encarregada “dos investimentos” americanos no estrangeiro. Deram-lhe a nacionalidade ucraniana de urgência. Querem a Ucrânia pelo seu gás em abundância: o filho do Vice-Presidente Joe Biden é membro do conselho de administração da mais importante empresa petrolífera de gás e do fracking da Ucrânia. Os fabricantes de OGM, empresas como a infame Monsanto, cobiçam o rico solo agrícola da Ucrânia.
Acima de tudo cobiçam o potente vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar os mais importantes recursos de gás natural da Terra. Enquanto que o Árctico se derrete, querem controlar o oceano Árctico rico em energias, e a longa fronteira Árctica russa. O seu homem em Moscovo era Boris Eltsine, um alcoólico, que vendia em saldo a economia do seu país ao Ocidente. O seu sucessor, Putin, restabeleceu a Rússia como nação soberana; é esse o seu crime.
A nossa responsabilidade para com os outros é clara. Devemos identificar e denunciar as mentiras irresponsáveis dos apologistas da guerra e nunca colaborar com eles. Devemos ajudar a esclarecer os grandes movimentos populares que trouxeram uma civilização frágil aos Estados imperiais modernos. Mais importante ainda, não devemos deixar conquistar as nossas pessoas, o nosso espírito, a nossa humanidade, a nossa dignidade. Se permanecermos silenciosos, é a vitória destes defensores da guerra que está assegurada, e a ameaça de um holocausto paira pois no ar.
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Artigo inicialmente publicado a 26 de Fevereiro de 2015, em inglês, sobre o sítio oficial de John Pilger, neste endereço:
http://johnpilger.com/articles/why-the-rise-of-fascism-is-again-the-issue
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Para ler a Parte II deste artigo de John Pilger, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

