REFLEXÕES EM TORNO DO MASSACRE DE PARIS, EM TORNO DO CINISMO DA POLÍTICA OCIDENTAL – PORQUE É QUE A ASCENSÃO DO FASCISMO CONTINUA A SER O PROBLEMA – por JOHN PILGER – I

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

john pilger

Porque é que a ascensão do fascismo continua a ser o problema

John Pilger, Why the rise of fascism is again the problem

johnpilger.com, 26 de Fevereiro de 2015

John Pilger é um jornalista de nacionalidade australiana, nascido em Sydney a 9 de Outubro de 1939, de onde partiu em 1962 para viver no Reino Unido. Hoje vive em Londres e trabalha como correspondente para inúmeros jornais, como The Guardian ou o New Statesman.

Recebeu por duas vezes o prémio de melhor jornalista do ano no Reino Unido (Britain’ s Journalist of the Year Award). Os seus documentários, difundidos no mundo inteiro, receberam múltiplas recompensas ao Reino Unido e noutros países.

John Pilger é membro, a exemplo de Vandana Shiva e Noam Chomsky, do IOPS (Internacional Organização for a Participatory Society), uma organização internacional e não governamental criada (mas ainda em fase de criação) sobre o objectivo de apoiar o activismo a favor de um mundo melhor, preconizando valores ou princípios como a autogestão, a equidade e a justiça, a solidariedade, a anarquia e a ecologia.

 

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Recentemente, o 70º aniversário da libertação de Auschwitz foi um reavivar da consciência sobre o que foi esse grande horror, o fascismo, cuja iconografia nazi está bem ancorada na nossa consciência. O fascismo tem sido preservado como fazendo parte da história, como imagens trémulas destas camisas negras a marcharem com passo de ganso, de um aspecto criminoso terrível e evidente. No entanto, nestas mesmas sociedades liberais, cujas elites guerreiras nos intimidam para nunca mais o esquecer, o perigo crescente de uma variedade moderna de fascismo passou sob silêncio; porque se trata do seu fascismo.

“Iniciar uma guerra de agressão…”, diziam os juízes do tribunal de Nuremberga em 1946, “é não somente um crime internacional, mas é o crime internacional supremo, que difere dos outros crimes de guerra porque que contém todos os outros crimes”.

Se os nazis não tivessem invadido a Europa, Auschwitz e o holocausto não teriam existido. Se os EUA e os seus satélites não tivessem iniciado a sua guerra de agressão contra o Iraque em 2003, perto de um milhão de pessoas estariam ainda hoje com vida; e o Estado islâmico, ou EIL, não nos teria submetido à sua brutalidade. São estes factos que estão na origem do fascismo moderno, alimentado pelas bombas, pelos banhos de sangue e pelas mentiras que são o teatro surrealista a que se chama informações.

A exemplo do fascismo dos anos 1930 e 1940, imensas mentiras são difundidas com a precisão de um metrónomo: graças a meios de comunicação social omnipresentes, repetitivos e à sua virulenta censura por omissão. A catástrofe líbia é um exemplo.

Em 2011, a NATO lançou 9700 “ ataques aéreos ” contra a Líbia, dos quais mais de um terço visava alvos civis. Ogivas  contendo urânio empobrecido foram utilizadas; as cidades de Misrata e de Syrte foram submetidas a tapetes de bombas. A Cruz Vermelha identificou valas comuns, e a UNICEF relatou que “a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de 10 anos”.

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A Líbia. Antes e depois.

A sodomização pública do presidente Líbio Mouammar Kadhafi com a ajuda de uma baioneta «rebelde» foi celebrada pela secretária de Estado dos Hilary Clinton, nestes termos: “Viemos, vimos, morreu”. O seu assassinato, como a destruição do seu país, foi justificado por enorme uma mentira já familiar: planeava “um genocídio” contra o seu próprio povo. “Sabíamos… que se tivéssemos esperado um dia mais”, diz o presidente Obama, “Benghazi, uma cidade da dimensão de Charlotte, teria sofrido um massacre que teria ressoado em toda a região e teria sujado a consciência de todo o mundo”.

Era uma balela fabricada pelas milícias islamitas que estavam em vias de serem derrotadas pelo governo líbio. Diziam à Reuters que haveria “um verdadeiro banho de sangue, um massacre como se viu no Ruanda”. Relatado a 14 de Março de 2011, esta mentira fornece a primeira faísca para o inferno da NATO, descrito por David Cameron como “uma intervenção humanitária”.

Equipados e treinados em segredo pelo SAS britânico, um grande número de “rebeldes” transformar-se-ão no EIIL, de que o último vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas em Syrte, a cidade destruída por conta dos islamitas pelos bombardeamentos da NATO.

Para Obama, Cameron e o então presidente francês Sarkozy, o verdadeiro crime de Kadhafi era a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de deixar de vender as mais importantes reservas de petróleo da África em dólares EUA. Os petrodólares são um pilar do poder imperial EUA. Kadhafi planeava corajosamente pôr em circulação uma moeda africana tendo como referência o ouro, estabelecer um banco Africano e também estava a promover uma união económica entre países pobres que têm recursos preciosos. Que isso viesse realizar-se ou não, a própria ideia em si-mesma era intolerável para os EUA enquanto estes se preparavam “para entrar” na África e comprar governos africanos para “parcerias” militares.

Na sequência do ataque da NATO sob a cobertura de uma resolução do Conselho de Segurança, Obama, escreveu Garikai Chengu, “confiscou 30 mil milhões de $ do Banco central líbio, que Kadhafi destinava ao estabelecimento de um Banco central africano e de um dinar africano de cobertura ouro”.

“A guerra humanitária” contra a Líbia inspirava-se num modelo caro aos corações dos neoliberais ocidentais, particularmente nos meios de comunicação social. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair enviaram a NATO bombardear a Sérvia, porque os Sérvios, de acordo com as suas afirmações mentirosas estavam a cometer “um genocídio” contra a etnia albanesa na província separatista do Kosovo. David Scheffer, embaixador extraordinário itinerante para os crimes de guerra [sic], declarou que pelo menos “225.000 homens de etnia albanesa de idade entre os 14 e os 59 anos” teriam sido mortos. Clinton assim como Blair evocaram o holocausto e “o espírito da Segunda guerra mundial”. Os aliados heróicos do Ocidente foram o exército de libertação do Kosovo (UCK), cuja pedigree criminoso foi posto de lado. O ministro dos Negócios estrangeiros britânico, Robin Cook, diz-lhes que podiam falar com ele quando quisessem e deu-lhes o seu número de telemóvel.

Uma vez terminado o bombardeamento da NATO, e a parte essencial das infra-estruturas sérvias destruídas bem como as suas escolas, hospitais, mosteiros, e a estação de televisão nacional, equipas internacionais de legistas desembarcaram no Kosovo para exumar provas “do holocausto”. O FBI não chegou a encontrar uma só vala comum. A equipa de legistas espanhola fez a mesma coisa, o seu líder enervado denuncia “uma pirueta semântica das máquinas de propaganda de guerra”. Um ano após, um tribunal das Nações Unidas sobre a Jugoslávia anunciou o cálculo final das mortes no Kosovo: 2788. Este número inclui os combatentes dos dois campos e os Sérvios e os Rom assassinados pelo UCK. Não havia nenhum genocídio. “O holocausto” era uma mentira. O ataque da OTAN tinha sido uma fraude.

Por detrás da mentira escondia-se um objectivo sério. A Jugoslávia era uma federação multiétnica independente e única que tinha servido de ponte económica e política durante a guerra fria. A maior parte dos seus serviços e a sua indústria eram propriedade pública. Não era aceitável para a Comunidade europeia em expansão, particularmente para a Alemanha de novo unificada, que se tinha lançado para o Leste à conquista do seu “mercado natural” nas províncias jugoslavas da Croácia e da Eslovénia. Na época em que os Europeus se encontraram-se em Maastricht em 1991 para discutirem os seus planos para a desastrosa zona euro, um acordo secreto tinha sido concluído: a Alemanha reconheceria a Croácia. A Jugoslávia estava condenada.

Em Washington, os EUA tinham trabalhado para que à economia jugoslava em dificuldade fosse recusado empréstimos pelo Banco Mundial. A NATO, então uma relíquia quase defunta da guerra fria, foi reinventada como executante imperial. Aquando de uma conferência sobre “a paz” no Kosovo em 1999 em Rambouillet, na França, os Sérvios foram submetidos às tácticas traiçoeiras desta polícia imperial. O acordo Rambouillet compreendia um anexo B secreto, que a delegação EUA tinha acrescentado no último dia. Esta exigia a ocupação militar de toda a Jugoslávia — um país com lembranças amargas da ocupação nazi — e a criação de “ uma economia de livre mercado” e a privatização de todas as entidades públicas. Nenhum Estado soberano teria podido assinar um texto destes. A seguir foi-lhe aplicada uma punição; as bombas da NATO abateram-se sobre um país sem defesa. Foi o prelúdio das catástrofes no Afeganistão, no Iraque, na Síria, Líbia e na Ucrânia.

Desde 1945, mais de um terço dos países-membros das Nações Unidas — 69 — sofreram um destas (ou de todas) calamidades infligidas pelo fascismo americano moderno: foram invadidos, os seus governos derrubados, os seus movimentos sociais destruídos, as suas eleições subvertidas, as suas populações bombardeadas e as suas economias despojadas de toda e qualquer protecção, as suas sociedades submetidas a um cerco devastador chamado “sanções”. O historiador britânico Mark Curtis considera o número de mortes em milhões. E em cada caso, difundiu-se uma enorme mentira.

“Esta noite, pela primeira vez desde o 11 de Setembro, a nossa missão de combate no Afeganistão é terminada”. Foram as primeiras palavras de abertura da mensagem de Obama sobre o estado da União em 2015. Na realidade, 10.000 soldados e 20.000 subcontratantes militares privados (mercenários) permanecem ligados ao Afeganistão por um período de tempo de duração indefinida. “Mais a longa guerra da história da América chega à uma conclusão responsável”, disse Obama. Na realidade, foram mortos mais civis no Afeganistão em 2014 que aquando de qualquer outro ano desde que a O.N.U começou a documentar esta questão. A maioria das mortes — civis e soldados — verificou-se sob a presidência de Obama.

A tragédia afegã rivaliza com os crimes épicos cometidos na Indochina. No seu elogiado e muito citado livro, The Grand Chessboard: American Primacy and Its Geostrategic Imperatives, Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas americanas no Afeganistão actualmente, escreve que se a América controlar a Eurasia e dominar o mundo, não pode manter nenhuma democracia do povo, porque “a continuação do poder não é o objectivo prosseguido pelas paixões populares (…) A democracia é hostil para com a mobilização imperial”. Tem razão. Como WikiLeaks e Snowden revelaram, um Estado policial e de vigilância está em vias de usurpar a democracia. Em 1976, Brzezinski, então conselheiro para a Segurança Nacional na Administração Carter, ilustrou esta máxima destruindo a primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história vital?

Nos anos 1960, uma revolução popular varreu o Afeganistão, o país mais pobre do mundo, chegando a conseguir, finalmente, inverter os vestígios do regime aristocrático em 1978. O Partido democrático do povo do Afeganistão (PDPA) pôs em prática um governo e declarou um programa de reformas que compreendia a abolição do feudalismo, a liberdade para todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e a justiça social para as minorias étnicas. Mais de 13.000 prisioneiros políticos foram libertados e os ficheiros de polícia queimados publicamente.

O novo governo introduziu uma cobertura de saúde para a população mais pobre, a escravidão foi abolida, um profundo programa de alfabetização massivo foi lançado. Para as mulheres, os ganhos foram sem precedentes. No final dos anos 1980, metade dos estudantes universitários eram mulheres, bem como cerca de metade dos médicos, um terço dos funcionários e a maioria dos professores. “Cada rapariga”, recorda-se Saira Noorani, uma cirurgiã, “podia aceder ao liceu e à universidade. Podíamos ir onde muito bem nos apetecia e levar o que queríamos. Íamos ao café, na sexta-feira íamos ao cinema ver os últimos filmes indianos e ouvíamos a música da moda. As coisas começaram a ir mal quando os moudjahidines começaram a ganhar politicamente terreno. Matavam os professores e queimavam as escolas. Aterrorizavam-nos. É triste e irónico pensar que eram as pessoas que o Ocidente apoiava”.

O governo do PDPA era apoiado pela União soviética, ainda que, como o admitiu mais tarde o antigo secretário de Estado Cyrus Vance, “não havia nenhuma prova da cumplicidade soviética [na revolução]”. Assustado pelo alargamento à escala mundial e dos movimentos de libertação, Brzezinski considerou que se a experiência afegã sob o PDPA tivesse êxito, a sua independência e o seu progresso seriam “um exemplo prometedor e ameaçador para os Estados Unidos”.

A 3 de Julho de 1979, a Casa Branca autorizava em segredo a concessão de 500 milhões de dólares em armamento e logística para apoiar os grupos tribais “fundamentalistas” chamados moudjahidines. O objectivo era o de derrubar o primeiro governo reformista e laico de Afeganistão. Em Agosto de 1979, a embaixada americana em Kabul relata que “os interesses gerais dos EUA… seriam beneficiados pelo desaparecimento do [governo PDPA], apesar de todos os reversos para as futuras reformas sociais e económicas que isso significaria no Afeganistão.” O itálico é do autor.

Os moudjahidines eram os antepassados de Al Qaïda e do Estado islâmico. Entre eles estava Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares pagos à vista por parte da CIA. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio e a projecção de ácido sobre os rostos das mulheres que recusavam usar o véu islâmico. Convidado a vir a Londres, foi saudado pela Primeiro-ministra Thatcher como “um combatente da liberdade”.

Tais fanáticos teriam permanecido no seu mundo tribal se Brzezinski não tivesse desencadeado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia central, e minar assim a libertação política laica, e “desestabilizar ” a União soviética, criando, como escreve na sua autobiografia, “ alguns muçulmanos agitados”. O seu grande plano coincidia com as ambições do ditador paquistanês, General Zia ul-Haq, de dominação da região. Em 1986, a agência de informação do Paquistão, o ISI, e a CIA, começam a recrutar pessoas por todo o mundo a fim de se juntarem à Djihad afegã. O multimilionário saudita Oussama Ben Laden foi um entre eles. Os operadores que se juntaram finalmente aos Taliban e Al-Qaeda, eram recrutados numa universidade islâmica de Brooklyn, em Nova Iorque, e efectuavam um treino paramilitar na Virgínia num campo da CIA. Isto foi baptizado “Operação Ciclone”. O seu sucesso foi celebrado em 1996 quando o último presidente afegão do PDPA, Mohammed Najibullah — que tinha vindo à Assembleia Geral da O.N.U para pedir ajuda — foi pendurado num candeeiro de rua pelos Talibans.

“O retorno do bastão”, a consequência directa da Operação Ciclone e dos seus “muçulmanos agitados” foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone transformou-se “numa guerra contra o terrorismo”, em que muitos homens, mulheres e crianças iriam perder a vida por todo o mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, ao Iémen, à Somália e a Síria. A mensagem da NATO era e continua a ser sempre: “ou estão connosco ou estão contra nós ”. [Dito de uma outra forma, ou estão connosco, e explorá-los-emos, ou estão contra nós, e destrui-los-emos.]

(continua)

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Artigo inicialmente publicado a 26 de Fevereiro de 2015, em inglês, sobre o sítio oficial de John Pilger, neste endereço:

http://johnpilger.com/articles/why-the-rise-of-fascism-is-again-the-issue

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