REFLEXÕES EM TORNO DO MASSACRE DE PARIS, EM TORNO DO CINISMO DA POLÍTICA OCIDENTAL – PORQUE É QUE A ASCENSÃO DO FASCISMO CONTINUA A SER O PROBLEMA – por JOHN PILGER – II

pfilger - I

Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

john pilger

Porque é que a ascensão do fascismo continua a ser o problema

John Pilger, Why the rise of fascism is again the problem

johnpilger.com, 26 de Fevereiro de 2015

(continuação)

O fio condutor do fascismo, passado e presente, é o assassinato em massa. A invasão americana no Vietname teve as suas “zonas de fogo à vontade”, “de cálculos dos corpos” e “dos prejuízos colaterais”. Na província de Quang Ngai, onde eu era repórter, vários milhares de civis (chamados gooks, Chinetoques, pelos soldados EUA) foram assassinados pelos EUA; no entanto só se fala do massacre em My Lai. No Laos e no Camboja, o mais importante bombardeamento aéreo da história deu nascimento a uma época de terror marcada hoje pelo espectáculo de crateras de bombas ligadas entre si que, vistas do céu, se assemelham a colares monstruosos. O bombardeamento deu ao Camboja o seu próprio Exército Islâmico, dirigido por Pol Pot.

Hoje, a maior das campanhas de terror provoca a execução de famílias inteiras, de convidados aquando da realização de casamentos, de velórios aquando de funerais. São as vítimas de Obama. De acordo com o New York Times, Obama faz a sua selecção a partir de “uma lista de pessoas a matar” que a CIA lhe apresenta cada terça-feira na sala de crise da Casa Branca. Decide então, sem a mais pequena justificação legal, quem vai viver e quem vai morrer. A sua arma de execução é o míssil Hellfire (fogo do inferno) que leva um engenho aéreo sem piloto, chamado drone; estes “grelham” as suas vítimas e dispersam os seus restos em redor. Cada “hit”, cada ataque, é registado sobre um ecrã de consola remoto com o software Bugsplat [literalmente esmagamento de cabeça dos pioneses ou de insectos].

john pilger - VII

“Aos que andam ao passo do ganso”, escreveu o historiador Norman Pollock, “substitui-se agora a aparentemente inofensiva militarização da cultura. E em vez do líder grandiloquente, temos o reformador falhado, que trabalha alegremente, planifica e executa assassinatos, ao mesmo tempo que se sorri”.

O que une o novo e o antigo fascismo é o culto da superioridade. “Acredito na excelência americana com toda a minha alma”, disse Obama, evocando as declarações de fetichismo nacional dos anos 1930. Como o sublinha o historiador Alfred W. McCoy, foi o fiel de Hitler, Carl Schmitt, que disse: “O soberano é o que decide da excepção”. Isto resume o americanismo, a ideologia que domina o mundo. Que ela esteja associada à uma ideologia depredadora é o resultado de uma lavagem ao cérebro igualmente subtil. Insidiosa, dissimulada, apresentada de maneira cómica como as Luzes em marcha, a sua pretensão impregna insidiosamente toda a cultura ocidental. Durante toda a minha infância e adolescência fui alimentado pelo cinema à glória dos EUA, uma distorção na maioria dos casos. Não duvidei que o Exército vermelho tivesse destruído a parte essencial da máquina de guerra nazi, o que lhe terá custado mais de 13 milhões de soldados. Em contrapartida, as perdas americanas, incluindo na guerra do Pacífico, situaram-se em 400.000 pessoas. Hollywood inverteu tudo isto.

A diferença hoje é que os espectadores no cinema são convidados a lamentar-se sobre “a tragédia” de psicopatas americanos que têm de matar pessoas em lugares remotos — da mesma maneira que o próprio presidente  o faz. A encarnação da violência de Hollywood, o actor e realizador Clint Eastwood, um símbolo da violência hollywoodesca foi nomeado para um Oscar este ano pelo seu filme “American Sniper”, que trata de um assassino patenté e zinzin. O New York Times descreve-o como “um filme patriótico, pró-família, que bateu todos os recordes de audimat logo a partir dos primeiros dias”.

john pilger - X

Devemos aqui lembrar que o cartaz de propaganda do filme “Stolz der nation ” no filme de Tarantino “Inglorious Bastards” é historicamente autêntico, ela corresponde a um verdadeiro filme de propaganda nazi de acordo com o livro “Film Posters of the Third Reich”.

Nenhum filme heróico trata do fascismo americano. Durante a segunda guerra mundial, os EUA (e a Inglaterra) entraram em guerra contra os Gregos que se tinham batido heroicamente contra o nazismo e se opunham à ascensão do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou uma junta militar fascista a tomar o poder em Atenas — como o tinha feito no Brasil e na maior parte da América Latina. Os Alemães e os europeus que tinham colaborado com a agressão nazi e os crimes contra a humanidade foram acolhidos em toda a segurança nos EUA; muitos deles serão protegidos e os seus talentos recompensados. Werner von Braun foi ao mesmo tempo o pai da bomba de terror nazi V-2 e o director do programa espacial dos EUA.

Nos anos 1990, enquanto as antigas repúblicas soviéticas, o Leste da Europa e os Balcãs se tornavam postos militares avançados da NATO, os herdeiros de um movimento nazi ucraniano encontraram aqui uma ocasião a não perder. Responsáveis pela morte de milhares de judeus, polacos e russos aquando da invasão nazi da União soviética, o fascismo ucraniano foi reabilitado e a sua “nova vaga” saudada pelos executantes como “nacionalista”.

O apogeu foi atingido em 2014 quando a administração Obama organizou um golpe de Estado ao custo de 5 mil milhões de dólares contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis, o Secteur Droit e Svoboda. Entre os seus líderes, Oleh Tyahnybok, que tinha apelado a uma purga “da máfia judeo-moscovita” e “outros lixos”, entre os quais os gays, as feministas e os partidários da esquerda.

Estes fascistas fazem agora parte do governo Kiev procedente do golpe de Estado. O Vice-Presidente do Parlamento ucraniano, Andriy Paroubiy, um líder do partido no poder, é co-fundador  de Svoboda. No dia  14 de Fevereiro, Parubiy anunciou que ia a Washington para obter “dos EUA armamento moderno de elevada precisão”. Se conseguir, vai ser considerado como um acto de guerra pela Rússia.

(continua)

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Artigo inicialmente publicado a 26 de Fevereiro de 2015, em inglês, sobre o sítio oficial de John Pilger, neste endereço:

http://johnpilger.com/articles/why-the-rise-of-fascism-is-again-the-issue

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Para ler a Parte I deste artigo de John Pilger, publicada ontem em A Viagem dos Argonautas vá a:

REFLEXÕES EM TORNO DO MASSACRE DE PARIS, EM TORNO DO CINISMO DA POLÍTICA OCIDENTAL – PORQUE É QUE A ASCENSÃO DO FASCISMO CONTINUA A SER O PROBLEMA – por JOHN PILGER – I

 

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