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A GALIZA COMO TAREFA – decepções – Ernesto V. Souza

hercules2Ultimamente, será a idade, não consigo enxergar muito longe no projeto político galego. Para além do balburdio e do griterio constante, da melê continuada, só detecto, entre a poeira, episódios de briga feroz e lazerante levantando escândalo por entre tanto mar de confusão.

Frustrante esta continuada intranscendência, esta frivolidade coletiva refugiada em altos comissariados e fortes líderes de pequenas, minúsculas tribos e confederações pontuais ou duradoiras.

Existem causas antropológicas, históricas, ou é apenas uma confluência de fatores sociais, económicos e políticos contemporâneos?

A política galega, fora dos grandes poderes do passado e dos partidos dos sistemas turnantes, nas suas diversas fases, produtos e focos apresentados como alternativas é um campo de batalha, uma melê medieval na que os diversos pequenos grupos e fações devastam os contrários e esbanjam as suas forças e energias. É uma trituradora, uma esmagadora realidade de ativistas, de quadros, de pessoal, de líderes, de militantes, de mãos, de projetos.

A sua consequência mais direta é a produção de militantes queimados enrocados no Não, de doudos satisfeitos apenas na crítica dispostos a tirar contra tudo e tudo, de não adscritos asilvestrados ou extraviados pelos mundos aí fora, de conspiradores perfeitos, de pequenas cortes e guardas pretorianas arredor de autoproclamados líderes perdidos numa luta pandragoniana pelo poder, e de uma quantidade de projetos, associações, espaços minúsculos e fortificados, incapacitados de princípio para colaborar com outros.

A ausência de instituições comuns, respeitadas pelo coletivo, alicerçadas sobre boa rocha e perpianho lavrado contrasta com as rechamantes e coloridas explosões dos dias de festa, nomeadamente o 17 de maio e 25 de julho em que as muitas partes conformam um mosaico multiforme. Mas a pouco que se focalize na manifestação são evidentes os espaços entre os grupos.

Mas sem instituições nadas da sociedade civil – as outorgadas ou submissas ao poder não contam – sem reuniões de grupos diversos e projetos… que se pode fazer?

Poderia se escrever uma crônica medieval da Galiza, ou tomar a histórica artúrica com todas as suas precedentes célticas como modelo. Serviria deste jeito a alegoria ao escarnho literário, mas não se adianta nada, porque quem escreve pertence provavelmente à banda dos que se foram às ilhas de longe, às altas montanhas, aos desertos, às selvas africanas, aos países exóticos do Oriente ou simplesmente se refugiaram entre os seus livros e fantasias, com algum vinho, na procura de alguma tranquilidade.

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