BREXIT: UM EXEMPLO DA ENORME NUVEM DE FUMO A PAIRAR SOBRE A REALIDADE EUROPEIA – nova série – a introdução de JÚLIO MARQUES MOTA
joaompmachado
O editor do blog A Viagem dos Argonautas pediu-me para fazer uma introdução à série sobre o Brexit intitulada Brexit: um exemplo da enorme nuvem de fumo a pairar sobre a realidade europeia, mas pessoalmente acho que não faz nenhum sentido e pela simples razão de que o primeiro texto da série tem exactamente essa função, a de servir de leitura de base para todos os restantes textos. Falo pois do texto de Thomas Fazi, 1. Brexit: Uma enorme nuvem de fumo (mas a Grã-Bretanha deve ainda sair). De resto, nesta viagem ao mundo de Brexit, este texto de Fazi deve preceder todos os outros e quem entrar nesta barca já em viagem não deve pegar em nenhum texto da série sem previamente ler o texto de Fazi.
Em vez de satisfazer o pedido do editor expliquemo-nos quanto ao aparecimento desta série. Publicámos um caderno de textos sob o tema Sobre as mentiras emitidas pelas Instituições Internacionais, assumidas como verdades pelos governos nacionais e difundidas pelos seus media – uma pequena série de artigos.
Por outras palavras, tratou-se de uma série de artigos a falar de farsas criadas pelas grandes Instituições, seja o FMI, a OCDE, a Comissão Europeia, o BCE, etc. Depois da série preparada e começada já a sua edição, aparecem novos dados ligados ao tema, o texto do FMI publicado em Junho, o Outlook da OCDE, a conferência de Mario Draghi. Decidimos então publicar uma nova série de textos, agora intitulada No coração das trevas, as grandes Instituições Internacionais, à procura da luz ao fundo do túnel que é a crise? Impossível.
Entretanto estávamos já na vizinhança do Brexit. E aqui lembrei-me de que não dispunha de melhor exemplo concreto da organização de farsas do que o que representa exactamente o Brexit. É assim que entre duas séries sobre as mentiras na política das grandes instituições, publicamos uma série sobre uma das maiores farsas políticas que eu alguma vez seria capaz de imaginar. Mas é verdade, a realidade ultrapassa toda a ficção. E a farsa pode redundar obviamente no aprofundar da crise tanto quanto as verdadeiras razões do mal-estar europeu não foram alvo de verdadeiro debate nacional.
Num texto da nova série escrito por Aditya Chakrabortty e intitulado O que estamos a testemunhar é a morte do neoliberalismo, por dentro, diz-nos o autor que: “ Os economistas não falam com os romancistas, o que é uma pena, mas o que nós estamos a testemunhar no meio de tantos gráficos e de tanta linguagem técnica é o início da longa morte de uma ideologia.”
Pois bem, pela nossa parte, indagamos junto dos cartoonistas, uma vez que se trata de uma farsa, procurando uma ou outra imagem do que eles entendem por Brexit. Aqui vos deixo imagens e excertos de textos desta série que esperamos seja do vosso agrado.
O voto:
A minha opinião é também a de uma peça como a de John Mann, que disse na BBC Daily Politics: “há uma batalha entre o voto Leave versus o voto Remain e depois há o verdadeiro debate no país”. Iremos ver, suponho.
Na verdade, o Brexit é um voto acerca da supremacia do Parlamento. Tudo o resto é ruido.
Eliminada a poeira para os olhos que tem sido lançada o Brexit resume-se a uma escolha elementar: se desejamos restaurar a autonomia completa do nosso país ou se desejamos continuar a viver sob um regime supranacional, governado por um Conselho Europeu que não elegemos, seja em que sentido for que isto possa ser entendido, e que o povo britânico nunca pode destituir, mesmo quando ele persiste em assumir posições erradas.
O sentimento que se tem da UE
Agora Cameron adverte que o Brexit pode levar à guerra e ao genocídio: uma intervenção extraordinária do PM – mas o campo do Out acusa-o de desespero tanto quanto Downing Street projecta o MEDO.
(…)
A Europa corre o risco de voltar a entrar em conflito e no genocídio se a Grã- Bretanha aprovar a saída da UE, irá Cameron dizer hoje.
Num contexto de agravamento extraordinário da batalha do referendo, invocará Winston Churchill, a segunda guerra mundial e as sepulturas dos caídos em combate.
Numa extraordinária escalada da batalha que é o referendo, Cameron invocará Winston Churchill, a segunda guerra mundial e os túmulos dos soldados caídos em combate .
O que se vê para poder votar em consciência
Duas posições recentes sobre a economia do Brexit, uma do Tesouro e uma outra de um novo grupo se chama Economists for Brexit, chegam a conclusões diametralmente opostas. Adicione-se a isto um conjunto de argumentos e de contra-argumentos, muitos dos quais aparecem como sendo previsões aparentemente firmes, mas em que subtis diferenças tornam as comparações directas muito difíceis. Os eleitores são assim levados a ficarem confundidos e a interrogarem-se sobre em quem é que deverão acreditar. (…)
‘muita afirmação económica sem sentido tem sido dita até agora no debate sobre Brexit’, diz-nos Ian Begg. É verdade, mas a má notícia é que muito mais se irá continuar a dizer até 23 de junho.
Quem mais ganha com a UE?
Mas, em nome dos racionais auto-maximizadores, que se está a passar? A mesma coisa que está a acontecer em todo o lado. Os populistas de direita estão a tentar fazer com que o seu país seja grande novamente por, adivinharam, manterem os imigrantes fora do Reino Unido e negociando grandes, digo mesmo grandes, acordos. No caso da Grã-Bretanha, o Independence Party (UKIP) quer sair da zona de comércio livre constituída por 28 nações que é a UE, na esperança de chegar a um acordo sobre um novo pacto de livre comércio com a UE, agora a 27 nações, que não os obrigasse a seguir os diktats de Bruxelas sobre, digamos, qual deve ser a potência que devem ter os fortes aspiradores de pó, ou, mais evidente ainda, sobre quantos imigrantes têm de aceitar do resto da Europa.
Isto quase que soa como razoável. Até, isto é, até ao momento em que pensamos realmente sobre isso. O UKIP está a querer todos os benefícios da adesão à União Europeia sem ter que pagar nada daquilo que acha que são os custos. O que, naturalmente, toda gente desejaria se isso fosse possível. O problema aqui, porém, é que uma União Europeia que existisse à la carte hoje seria uma União Europeia que não existiria de modo nenhum, amanhã.
Cameron, o Brexit e o vazio
Passaram seis anos desde que rebentou a crise da zona euro e não há nenhum traço de união orçamental: não há euro-obrigações, não há nenhum Hamiltoniano fundo de resgate, não há nenhum pool de dívida nem nenhumas transferências orçamentais. A união bancária desmente o seu próprio nome. A Alemanha e os Estados credores têm estado dar tiros nos próprios pés.
Onde nós estamos de acordo é em considerar que a UE como está construída é não somente corrosiva mas até mesmo perigosa, e esta é a fase em que nós nos encontramos agora enquanto a autoridade governativa se desintegra pela Europa.
O projecto europeu sangra as forças vivas das instituições nacionais, mas não as substitui por nada que seja louvável ou legítimo ao nível europeu. Abate o carisma destas e destrói-o. E é assim que as democracias morrem. (…)
Nunca ninguém foi considerado como responsável pelos defeitos de concepção e de arrogância quanto ao euro, ou pela contracção monetária e orçamental que transformou a recessão em depressão, e levou a níveis de desemprego juvenil através de um amplo arco de países da Europa que ninguém teria pensado como possível ou tolerável numa sociedade civilizada moderna. As únicas pessoas que são sempre as culpadas são as suas vítimas.
Não houve nenhuma Comissão de verdade e de reconciliação para o maior crime económico dos tempos modernos. Não sabemos quem exactamente foi responsável seja do que for de tudo isto, porque o poder foi exercido por meio de um inter-relacionamento sombrio das elites em Berlim, Frankfurt, Bruxelas e Paris e ainda continua a ser assim. Tudo é negável. Tudo passa apenas pelas falhas da supervisão.
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Depois destes cartoons e destes excertos de textos, resta-nos perceber que qualquer que seja o resultado do referendo, a Europa de agora já está a perder. Perde se a Inglaterra sai, abrindo a porta imediatamente a outros referendos, podendo ter inclusive um enorme impacto sobre as eleições em Espanha. Se a Inglaterra não sai, a crise vai-se aprofundando pois que com as concessões feitas, o sentido de União Europeia já se desfez em estilhaços e esta torna-se pois cada vez mais ingovernável. Por esta razão, mesmo que não de forma imediata, outros referendos são de admitir e crises maiores hão-de pois vir. Por isso chamo a atenção para a bibliografia temática indicada no texto nº 14. Mais cedo ou mais tarde, se cada um de nós se lembrar, irá sentir a necessidade de retomar a questão da saída, irá sentir a necessidade de ler estes artigos. O futuro o dirá, então.