
Uma série sobre o caminho da agonia do capitalismo
Selecção, tradução e notas por Júlio Marques Mota. Revisão de Flávio Nunes.
A OCDE junta-se na corrida aos que defendem a expansão fiscal – por enquanto, pelo menos
Bill Mitchell, A OCDE OECD joins the rush to fiscal expansion – for now at least
Billy Blog, 6 de Junho de 2016
(CONCLUSÃO)
…
E a solução?
A OCDE afirma agora que:
A política orçamental deve ser implantada mais extensivamente e pode beneficiar do ambiente criado pela política monetária… A investigação promovida pela OCDE aponta para o tipo de projectos e de actividades que têm altos multiplicadores, incluindo tanto nas grandes infra-estruturas (tais como no digital, na energia e nos transportes) e nas infra-estruturas mais leves (incluindo inovação e educação pré-escolar). As escolhas certas irão catalisar o investimento das empresas, que, como o Outlook de há um ano atrás, argumentava, em última análise, é a chave para fazer saltar a economia da armadilha de baixo-crescimento para uma trajectória de elevado crescimento…
A necessidade é urgente. Quanto mais a economia global permanece na armadilha de baixo-crescimento, mais difícil será poder quebrar os efeitos de arrasto negativos, reavivar as forças de mercado e lançar as economias para uma trajectória de elevado crescimento. Como está a situação actual, um choque negativo pode lançar o mundo de regresso a uma outra recessão profunda. Até agora, as consequências da inacção política prejudicaram as perspectivas para os jovens de hoje com 15 por cento deles na OCDE a não terem nem educação, nem formação, nem emprego ( em inglês seria a sigla NEET[1]) : reduziram-se drasticamente os rendimentos das pessoas reformadas cujos rendimentos são provenientes dos fundos de pensão relativamente àqueles que se reformaram antes de 2000; deixam-nos sobre uma trajectória de carbono que nos deixará vulneráveis às perturbações climáticas.
Tudo isto parece estar a anos luz, muito longe portanto, da sua posição anterior.
Durante anos as necessidades tinham sido bem urgentes mas a OCDE estava cega perante elas – em vez disso, conduzindo a carga (ou tentou numa verdadeira disputa com o FMI)- e a impor as estruturas da política neoliberal que criaram prolongaram e aprofundaram a crise.
Agora a necessidade é urgente! Bem, isto é melhor que não mudarem de ponto de vista, creio.
Comentário do Guardian sobre estas questões:
Há, claro está, uma palavra para descrever a acção do Estado para aumentar a procura, quando a actividade do sector privado é fraca, e essa palavra é o Keynesianismo. Não é uma palavra que tenha sido muito utilizada nas três últimas décadas em que o neoliberalismo reinou triunfante.
Mas os tempos mudam e desde há cinco anos que as suas previsões provaram persistentemente um super-optimismo e que a OCDE se está a ficar cada vez mais inquieta.
Não acho realmente que a OCDE esteja inquieta. Eles estão apenas a mostrarem-se ridículos e os erros de previsão que tem estado a fazer ao longo dos últimos anos fizeram com que esta seja encarada como uma organização incompetente.
E o pensamento do campo neoliberal vai-se aprofundando. É necessário muito tempo para que toda uma organização seja capaz de mudar de direcção. A OCDE foi anteriormente keynesiana (na origem). Depois, esta deslocou-se na década de 1970 e passou a usar uma vestimenta neo-liberal assim como absorveu os altos quadros de direita que dirigiam programas de economia que concentravam já a fraude monetarista.
Estes “especialistas” assumiram depois as posições de altos funcionários da Organização e levaram toda uma carreira a introduzir e aplicar estas políticas enganadoras no domínio de políticas públicas.
Como terá dito Aristóteles “uma andorinha não faz um verão…”
The Guardian concluiu que:
Palavras, palavras, no entanto, saem barato. Tal como a nova posição do FMI sobre as falhas do neoliberalismo não é partilhada pelos funcionários que dão assessoria política para os países em dificuldades económicas, então não há, obviamente, nenhuma pressa para que os membros da OCDE defendam em conjunto um programa de investimento público comum.
Mas é claro que estas organizações (o FMI e a OCDE) estão-se a tornar cada vez mais esquizóides nos seus trabalhos, nos seus comportamentos. Por um lado, sabemos que houve fugas de informação em que altos funcionários do FMI conspiram de modo a criar um ‘evento’ na Grécia para que o governo se curasse, enquanto que, por outro lado, um ou dois outros altos quadros publicam material que conclui que o neoliberalismo tem sido um desastre.
Similarmente para a OCDE
Conclusão
O grande problema é que quando a unidade interna começa a quebrar dentro de grupos que anteriormente mantiveram uma forte coesão, é um sinal de que a disciplina do grupo de pensamento neoliberal está sob ameaça.
Como é que os grupos respondem a isso, esta é agora a questão.
Suspeita-se que os factos empíricos são de tal forma contrários às posições ideológicas defendidas agora por altos quadros das duas Organizações, OCDE e FMI, que se irá quebrar a continuidade das suas posições, [ as posições agora apresentadas]. Estas organizações são um pouco diferentes relativamente aos prejudiciais grupos de pressão que alimentam os mercados financeiros de Wall Street ou de tipos capitalistas como os irmãos Koch, por exemplo, para injectarem narrativas que servem apenas os seus próprios interesses pessoais.
É mais fácil para estas organizações continuarem a mentir. Para a OCDE e para o FMI é, pois, mais violento continuarem a parecer estúpidos.
Suficiente por hoje!
Bill Mitchell, A OCDE OECD joins the rush to fiscal expansion – for now at least . Texto disponível em:
http://bilbo.economicoutlook.net/blog/?p=33759
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[1] Segundo Wikipédia; NEET é uma classificação do governo, usada primeiramente no Reino Unido. Logo depois passou a ser utilizada em outros países, inclusive o Japão. A sigla é: “Not currently engaged in Employment, Education or Training”, algo como “Atualmente sem Emprego, Educação (não é estudante) e Formação profissional (estágio)”.
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