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Recordando o Zeca – por António Gomes Marques

(1929 - 1987)

Num jantar com o Zeca Afonso, na «Tasca do Manel», no Bairro Alto, no último trimestre de 1980 –não me ajudando a memória a precisar o dia-, sendo na altura o Presidente da Direcção da APTA – Associação Portuguesa do Teatro de Amadores, informei-o de que a Associação estava a organizar um curso de encenadores para o teatro de amadores, após termos estabelecido um acordo com a Embaixada da agora ex-República Democrática Alemã (RDA), curso esse que seria ministrado pelo encenador do Berliner Ensemble Konrad Zschriedrich.

Disse também ao Zeca que o Konrad era um profundo conhecedor e seguidor das técnicas brechtianas e, assim, conhecendo o seu interesse, perguntei-lhe se estaria interessado em frequentar o curso, para o que bastava aceitar o meu convite, garantindo-lhe, deste modo, a estadia no mesmo local em que os outros inscritos ficariam e sem quaisquer custos para ele. Mostrou-se muito interessado, como eu esperava e desejava, e pediu-me para o informar com alguma antecedência do período em que o curso seria realizado.

Acordadas as datas e abertas as inscrições, encontrei-me de novo com o Zeca, no mesmo local, para lhe dizer que o curso iria decorrer entre 16 e 29 de Agosto de 1981, na Covilhã, podendo ele ir comigo, quando fosse levar o Konrad e a Anabela Mendes, que seria a intérprete durante todo o curso para quem não soubesse alemão ou inglês.

Senti a decepção do Zeca. «Não posso ir nessa data. Durante os meses de Verão tenho de fazer praia o mais possível por causa da garganta e, no mês de Agosto, vou estar no Algarve. Sabes, se não aproveitar a praia, fico com a garganta presa e vou ter de cancelar vários espectáculos.»

Se o Zeca ficou pesaroso, eu não o fiquei menos, não imaginando sequer que, seis anos depois, o Zeca nos deixaria para sempre, vítima de esclerose lateral amiotrófica, com 57 anos e meio.

O problema que o Zeca me apresentou como razão para não poder dispensar a praia e assim não estar disponível para frequentar o curso para que o havia convidado, não seria já um sinal da doença que o viria a vitimar?

Não sou médico e não me atrevo a fazer uma afirmação categórica, mas que disso estou convicto, até que alguém conhecedor me diga que estou errado, é a minha verdade.

Lembro também a última vez que falei com o meu amigo Zeca. Foi no Coliseu de Lisboa, já a sua doença era do meu conhecimento, onde nos encontrámos por ali termos ido assistir a um concerto de Léo Ferré, cuja data não consigo precisar. Há, no entanto, uma imagem que me ficou que foi o verificar a evidente dificuldade do Zeca movimentar um dos braços, imagem essa que sempre me ocorre quando oiço algum dos seus discos, na rádio ou no meu leitor de cd’s e que agora mesmo, ao invocá-lo, a minha memória torna bem presente.

Dirá o leitor que eu poderia invocar outros momentos de convívio com o Zeca –muitos eles foram, embora não tantos como eu gostaria-; no entanto, estes dois momentos, que eu penso ligados, acertada ou erradamente, não me largam e vivem comigo.

O poeta, o compositor e o cantor será o que constituirá o Zeca Afonso imortal e perdurará na memória de todos, assim como o cidadão simples e exemplar que sempre foi deverá e continuará a ser lembrado, mas o amigo que convivia com as pessoas, delas se tornando próximo e a quem sempre se apresentava como um igual, esse estará presente na memória de uns tantos, muitos, que com ele tiveram o privilégio de conviver e a quem faz, faz-me, muita falta. E, sejamos honestos, há pessoas que nos fazem mais falta do que outras, o Zeca era uma dessas pessoas e não tinha o «direito» de tão cedo nos deixar. Foi, e é, uma injustiça que a vida nos pregou.

Portela (de Sacavém), 2016-11-14

 

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