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O POVO ´É QUEM MAIS ORDENA-Retalhos da vida de José Afonso. o grande cantautor português – 1- por Carlos Loures

Numa série de textos que aqui publiquei há dias, contava como em 1961, o poeta Edmundo Bettencourt, histórico cantor do fado coimbrão, me chamara a atenção para a voz e para a forma única que Jose Afonso dava às suas interpretações, vaticinando-lhe uma brilhante carreira. Nesta nova série, usarei excertos do trabalho que fiz para o site «Vidas Lusófonas» criado e dirigido pelo meu saudoso amigo, o escritor e argonauta Fernando Correia da Silva

Que voz é esta?

 Manuel Simões, um dos sócios da editora Nova Realidade, na nota introdutória a Cantares (1ª edição, Tomar, 1967), interroga-se: De facto, ao ouvir-se José Afonso pela primeira vez, há uma pergunta que logo nos acode: – ‘Que voz é esta, tão nova e substantiva, que imediatamente se replica/” nos torna familiar?».

Havia os grandes cantores do fado de Coimbra – o próprio Bettencourt era um deles, mas a voz do Zeca não estava prisioneira do cânone coimbrão, não se enquadrava na esteira do mítico Hilário, esteira seguida por Menano e, mais recentemente, por António Bernardino e Luís Goes. Era uma voz que, como uma ave em liberdade, não estava amarrada à maneira tradicional. Era um cantor de fado de Coimbra, que dizem ser uma sequência das endeixas seiscentistas, mas era evidente que não iria ficar-se por esse género musical, com as suas regras e tradições.

Vou, nestes textos, tentar encontrar algumas explicações para que o Zeca, tendo começado por caminhar por uma via trilhada desde há séculos, veio nos tempos que se seguiram, a rasgar um caminho próprio, criando um repertório pessoal.

Poucos anos depois de Edmundo de Bettencourt, a una mesa do Café Restauração, no seu tom contido, me ter afirmado que aquele jovem de que, até esse fim de tarde, eu nunca ouvira falar, iria ser o cantor, menos de três anos depois, saíam a público as suas Baladas e Canções (1964).  Nem só nos Estados Unidos havia uma the voice – nós tínhamos também uma voz, cuja sonoridade e cujo repertório, foi transformando na nossa voz.

Depressa soubemos que voz era aquela.

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