CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – JERÓNIMO (MAL EMPREGADO) DE SOUSA
joaompmachado
Gosto deste tipo.
Do Jerónimo. Do de Sousa.
Gosto, porque sei (tenho a certeza) que é honesto e preocupado. Lutador e empenhado (mesmo e a sério) na sua corajosa luta pela justiça e pelo bem estar deste seu n(p)obre povo.
Que afinal nele se está cagando. Sim, cagando. Sim, ca – gan – do.
Que nada politicamente percebe, que nada politicamente entende ou politicamente racionaliza, que está mazé aflito com o Benfica, que está mazé preocupado com o Sporting, que sofre mazé com o Futebol Clube do Porto.
E (mesmo sem o saber) com a puta que o pariu – na mais discreta, metafísica e distanciada das hipóteses. Convenhamos.
O Jerónimo de Sousa é entrevistado na TV 3 Informação por uma jornalista honesta e inteligente (honesta e inteligente) está com um tempo de antena óptimo e genial, mais que razoável, tem tudo a seu favor, até as questões algo provocatórias da jornalista… E não consegue dali tirar partido, raios o partam!
E insiste (p´rtanto) na conversa ideológica repetitiva e desimaginativa, sem aproveitar para falar às massas, (às massas, àquelas que ele passa a vida a invocar! – ele e o zoutros) com a adjectivação e (ou) os advérbios (p´rtanto) do costume daquela associação, daquela seita de fanáticos inconsequentes. E estúpidos. Que falam sempre para si próprios, broncos, obscuros e íntimos.
Jamais tentaram falar para outros, para os outros, para o (bom) povo que tanto aparentemente idolatram. Jamais.
Bastava-lhe dizer “as pessoas”, em vez de “o povo e dos trabalhadoras” – o que leva logo meia população a pirar-se e a mudar de canal – bastava-lhe lembrar, salientar o que é um contrato de trabalho, algo que ainda alguém sabe o que é, apesar de tudo – bastava-lhe lembrar-lhes (aos jovens e aos impacientes e futebolísticos adeptos, ansiosos por saber do Benfica) o que na realidade se passa nesta merda deste país e nesta merda desta Europa, calma, lúcida, determinada e friamente, bastava-lhe alguma esperteza e lucidez política para tirar partido de uma entrevista – afinal tornada déjà vista e sem variantes. Como “o grande capital”, as “grandes conquistas dos trabalhadores”, “o povo que sempre nos apoiou” e outras inúteis e improváveis merdas do género.
O Jerónimo é bom. É honesto. Gosto dele.
Só não é muito esperto – mas talvez, mesmo que fosse, eles não o deixassem ser, aquela máquina caquética e surreal, que vive, persiste em viver, num mundo à parte, num mundo que nada tem a ver com o mundo. Uma coisa misteriosa e críptica que é só deles.