CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – A GUERRA. E A HONESTIDADE. COISAS DIFÍCEIS DE EXPLICAR

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Não tenho (nada) de que me orgulhar.

Quero eu dizer, refiro-me a Angola, ao que me calhou, à guerra colonial, aquela espécie de destino, de fado, quase que afinal de uma rotina a certa altura, um tem que ser, um ele é assim, pode ser que te safes, depois se vê, uma referência histórica, absolutamente esquecida, aliás e de resto sem História, nem essência.

Como os nazis e o povo alemão.

A actual geração está-se cagando. E bocejando. Despolitizada a mais não poder, quando eventualmente (muito eventualmente) ouve estas referências, esparsas e fluidas, poderia ser levada a pensar que estamos a falar nas Guerras Púnicas, na Guerra dos Cem Anos ou na Segunda Guerra Mundial.

Se acaso soubesse o que foram as guerras púnicas, a guerra dos cem anos ou mesmo a segunda guerra mundial, coitada dela.

Uns foram prós tiros, outros preferiram França. Quaisquer deles uma geração marcada, fodida, sem futuro e sem sonho. Todos partiram, para um lado para ou para o outro, sumamente contrariados, mal refeitos, sem destino nem vontade. Nem outras opções.

Jovens. Sim, jovens. Assustados e acossados, sem terem feito mal a ninguém, acabados de adolescentar.

Fodida, sim. Uma geração, ou a sua maior parte. E o que mais me custa é (ainda) haver saudosos, é ainda haver (e aos montes)  piolhosos, oportuneiros, nojos politizados no pior sentido, da pior maneira, filiados em Partidos da Direita, de uma Direita que nunca nada pôs em causa, nem nunca se preocupou com a Ditadura, com o Salazar, com a fome, com a Guerra, com coisa nenhuma. A negação daquela máxima estúpida de que “a juventude é sempre generosa”. Quase sempre, talvez fosse, pronto, mas as excepções têm muita força, dinheiro e Poder. Claro que poucos destes ou dos seus queridos paizinhos tiveram de fazer aquela opção. Limitaram-se a deixar-se estar, espertalhões e respectiva descendência – hoje parlamentar, ministeriável, presidenciável, presidencieira e tudo.

Não tenho (nada) de que me orgulhar. Não. Estive ali, não matei ninguém nem morri (as melhores coisas, do ponto de vista da minha mãe, é verdade – uma sorte) e até salvei um gajo de morrer uma vez, imagine-se.

Mas nada de que me orgulhar, qualquer idiota nas mesmas condições faria o mesmo, aquilo não custou nada. Aliás, a preocupação máxima e egoísta tinha a ver mazé com o coiro, com o próprio – todo o cuidado era pouco, cada um por si e logo se vê. Ou se via.

Quando do 25 de Abril, amigos meus levaram-me a comícios, tentaram-me com o Partido (aliás fartei-me de nele votar, naquela orgia de eleições que se lhe seguiu, ao 25) explicaram-me as razões, as causas, as referências, as verdades, os sofismas, as teses, os dogmas, a religião – mas havia ali qualquer coisa que me incomodava, para além de uma ausência total de humor ou opinião própria de cada um, aquilo era uma obrigação, uma dedicação, uma crença, enfim. Uma impossibilidade de pensar por mim.

Andei pelas UDPs e pelos MES’s, tudo gente de Esquerda que o Partido nunca tolerou, evidentemente. O que me levaria a afastar-me dele de uma vez por todas, farto daquela obsessão eclesiástica que nunca compreendi e com a qual nunca alinhei nem concordei. O comité central, as células, os controladores, o críptico, o hermético, o camarada…

Mas e então a honestidade, Carlos, a honestidade, onde é que isso – que vem no título desta encíclica – tem a ver com isto, Carlos?

A Honestidade? É simples. Trabalhei no Alentejo comunista (anos setenta/oitenta) que se farta e assisti ao “trabalho” do tal Partido com aquelas gentes simples e aliás de quem sempre gostei. Apercebi-me da desonestidade daqueles espertalhões lisboetas armados em povo simples, que não eram nem connaisseurs das cooperativas nem da sua luta nem de coisa alguma – a catequizarem ou a tentar catequizar (e a abusar) com a pior, mais desonesta e indecente maneira, da simplicidade, ignorância e até algum conformismo daquelas sofridas gentes.

Quase me fazia lembrar (Deus, ou Lenine me perdoe) a “Acção Psico-Social” com que o Salazar e o seu Estado Novo, através do garboso exército de que fiz parte,  faziam por converter e aldrabar os pretinhos africanos – também eles ingénuos e simples.

Eu sei. Eu estive lá. Tal como no Baixo Alentejo.

A Honestidade? A honestidade pressupõe (ou pressuporia, meus caros, pressuporia) que olhassem para Angola, por exemplo, e para toda aquela miséria, todo aquele sub-mundo de fome e de morte, quase que (ou será mesmo?) de extinção, de extermínio dos pobres dos indigentes e desempregados, que olhassem de uma certa (e outra) maneira, diferente da hipocrisia com que o Partido Comunista disfarça e jamais pôe em causa. O presidente, a sua querida e capilalística filhinha, a indecente corrupção, a Banca, a perpetuação do e no Poder, as prisões, a falta de liberdade , a ausência de um jornalismo igualmente livre.

Toda a gente sabe disto. Toda a gente menos eles. Quando ali estive, naquela puta daquela inútil guerra, não me pareceria que tudo fosse pior que o actual estado de coisas. Mais tarde, após a justa libertação e depois de uma guerra fraticida de trinta anos (mais tempo do que a “nossa”) a situação daquele país, as profundas assimetrias e a falta de trabalho, segurança social e oportunidades são uma coisa sinistra, absurda, assustadora e ditatorial. Eu que até “lutei” contra o MPLA, embora acreditasse na sua razão, sou hoje confrontado com aqueles sacanas obcecados do Poder.

É por estas e por outras que nunca aderi ao PC. Jamais poderia fingir, disfarçar, pretender  que não saberia disto ou daquilo, jamais poderia aturar toda aquela religião, aquela obsessiva e perpétua clandestinidade, aquele modo subterrâneo de viver, de estar na vida e na política.

A Política é nojenta?

Não deveria ser mas é. E escusam de se ofender e massacrar-me com epítetos. Sei de uma data de gente ex-comunista (ou antes ex-PCP, talvez melhor) que se fartou da irmandade, dos saudosos dos anos cinquenta, da História parada no tempo, dos comités e demais velharia e ausência de democracia interna. Não me fodam, não podem foder-me, sou livre, não fumo.

Mas o mais curioso – e por isso deixei para o fim – são as relações da Le Pen com o Kremlin, são as relações do Kremlin com o Erdogan e com o simpático presidente das Filipinas, é a nascente ternura (quem sabe de de uma história de amor) entre o Putin e o Trump.

E se esta Esquerda ortodoxa e senil coincide – nestas ternuras, amizades e pontos de vista – com a Direita popular (popular, de povo) que domina a Europa, alguma coisa terá (teria) de ser explicada por inexplicável que seja.

Não, não me expliquem. Quero lá saber.

carlos

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