CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – JERÓNIMO (MAL EMPREGADO) DE SOUSA

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5-a

Gosto deste tipo.

Do Jerónimo. Do de Sousa.

Gosto, porque sei (tenho a certeza) que é honesto e preocupado. Lutador e empenhado (mesmo e a sério) na sua corajosa luta pela justiça e pelo bem estar deste seu n(p)obre povo.

Que afinal nele se está cagando. Sim, cagando. Sim, ca – gan – do.

Que nada politicamente percebe, que nada politicamente entende ou politicamente racionaliza, que está mazé aflito com o Benfica, que está mazé preocupado com o Sporting, que sofre mazé com o Futebol Clube do Porto.

E (mesmo sem o saber) com a puta que o pariu –  na mais discreta, metafísica e distanciada das hipóteses. Convenhamos.

O Jerónimo de Sousa é entrevistado na TV 3 Informação por uma jornalista honesta e inteligente (honesta e inteligente) está com um tempo de antena óptimo e genial, mais que razoável, tem tudo a seu favor, até as questões algo provocatórias da jornalista… E não consegue dali tirar partido, raios o partam!

E insiste (p´rtanto) na conversa ideológica repetitiva e desimaginativa, sem aproveitar para falar às massas, (às massas, àquelas que ele passa a vida a invocar! –  ele e o zoutros) com a adjectivação e (ou) os advérbios (p´rtanto) do costume daquela associação, daquela seita de fanáticos inconsequentes. E  estúpidos. Que falam sempre para si próprios, broncos, obscuros e íntimos.

Jamais tentaram falar para outros, para os outros, para o (bom) povo que tanto aparentemente idolatram. Jamais.

Bastava-lhe dizer “as pessoas”, em vez de “o povo e dos trabalhadoras” – o que leva logo meia população a pirar-se e a mudar de canal – bastava-lhe lembrar, salientar o que é um contrato de trabalho, algo que ainda alguém sabe o que é, apesar de tudo – bastava-lhe lembrar-lhes (aos jovens e aos impacientes e futebolísticos adeptos, ansiosos por saber do Benfica) o que na realidade se passa nesta merda deste país e nesta merda desta Europa, calma, lúcida, determinada e friamente, bastava-lhe alguma esperteza e lucidez política para tirar partido de uma entrevista – afinal tornada déjà vista e sem variantes. Como “o grande capital”, as “grandes conquistas dos trabalhadores”, “o povo que sempre nos apoiou” e outras inúteis e improváveis merdas do género.

O Jerónimo é bom. É honesto. Gosto dele.

Só não é muito esperto – mas talvez, mesmo que fosse, eles não o deixassem ser, aquela máquina caquética e surreal, que vive, persiste em viver, num mundo à parte, num mundo que nada tem a ver com o mundo. Uma coisa misteriosa e críptica que é só deles.

carlos

1 Comment

  1. Dou-lhe o meu acordo. O Sr.Jerónimo de Sousa, aceito, se tem os atributos inscritos no texto tem, a seu crédito, sobretudo, ficar a dever-se-lhe o favor de, com outros, ter ajudado a despedir uma certa corja que pululava pelos corredores do poder. Conseguirá ir mais longe? Parece ser urgente já que, para infelicidade nacional, os associados do PCP nunca, desde a ditadura do Dr. Cunhal, tiveram o atrevimento duma opinião própria, muito menos dum recusa. Ser comunista é uma coisa a que nada deve obstar-se mas aceitar a obediência cega a Moscovo – que o Dr. Cunhal, para mal de tudo e de todos, privilegiou constantemente – foi uma atitude política completamente errada para a qual não pode haver nenhuma explicação verdadeiramente honesta e que, bom grado o fim do regime soviético (nada que, objectivamente, não fosse fácil de antever) a nomenclatura do PCP não tem o atrevimento – tem medo – de denunciar. Como podem ter crédito político ao anunciarem-se – e muito bem – contra a chamada união europeia depois de, anos a fio, terem sido – e muito mal – servos obedientes do expansionismo soviético. “Aquela máquina caquética e surreal”, de facto, já não tem qualquer razão válida para poder determinar. CLV

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