
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.
Parte A – Monte dei Paschi, acordo secreto entre Mussari e Nomura para truncarem as contas –
Marco Lillo , Monte dei Paschi, accordo segreto tra Mussari e Nomura per truccare i conti
Il Fatto Quotidiano, 22 de Janeiro de 2013
Foi encontrado num cofre um pacto entre o presidente do MPS e o banco japonês NOMURA. O Ministério Público investiga um acordo que serviu para fazer desaparecer do balanço um buraco de pelo menos 220 milhões. A operação já custou aos contribuintes italianos mais de 500 milhões de ajudas estatais.
O Monte dei Paschi di Siena, em 2009, durante a gestão de Giuseppe Mussari, truncou as contas com uma operação de reestruturação de dívida de centenas de milhões de euros, da qual os contribuintes italianos pagam agora a conta. A operação é chamada “Alexandria”, do nome de um contrato derivado semelhante ao Santorini, de que se tem falado muito nos últimos dias e que estava a perder a cor face ao último cadáver encontrado nos cofres de Rocca Salimbeni. O administrador delegado Fabrizio Viola e Presidente, Alessandro Profumo, descobriram em 10 de outubro de 2012 um contrato secreto que remonta a julho de 2009 feito com o Banco Nomura e relativo ao derivado Alexandria. Este contrato impõe uma correção imediata no orçamento de 2012 de 220 milhões, mas os consultores de Pricewaterhousecoopers e de Eidos estão estudando para quantificar o buraco efetivo que é certamente mais elevado: uma reconhecida autoridade na matéria do banco MPS, sob a garantia do anonimato, fala-nos em cerca de 740 milhões de euros. O contrato (Mandate agreement) de 49 páginas em inglês permaneceu escondido durante três anos e meio no cofre do Director-geral Antonio Vigni, que assinou ao lado do antigo chefe do departamento financeiro Gianluca Baldassarri.
Nomura, quando viu que se questionava o acordo, acenou debaixo do nariz de Viola e Profumo com a transcrição de uma chamada telefónica em julho de 2009, na qual o Presidente de Nomura, na Europa, Sadeq Sayed,, pedia expressamente ao número um Giuseppe Mussari se os contratos ligados à operação tinham sido devidamente comunicados aos revisores de contas da KPMG. A questão é que dois contratos aparentemente independentes estavam na verdade ligados por um contrato secreto e um deles era o reembolso do outro. O primeiro deles permitia ao MPS descarregar sobre o banco Nomura as perdas do derivado Alexandria e assim embelezar o orçamento de 2009. O segundo “reembolsava” os japoneses porque, como é dito no telefonema, o Monte Paschi “entrará num asset swap” (troca de ativos) e duas operações a pronto com vencimento a 30 anos relacionadas estas com esse asset swap.” Mussari, gravado sem o seu conhecimento, confirma ao chefe de Nomura que as duas operações estão ligadas entre si. Depois responde que “a Kpmg foi informada”, mas depois acrescenta que ele tinha decidido não enviar aos revisores de contas da KPMG o contrato secreto “porque não se tratava de um documento relativo à transação.”
O Conselho, presidido por Alessandro Profumo já recebeu um relatório detalhado de oito páginas intitulado “Alexandria” (que Fatto Quotidiano viu) e uma página é dedicada também às operações de Santorini e Nota Itália. O relatório deve ser anexado à transcrição e tradução da conversa Mussari-Sayed em papel timbrado Nomura. Os conselheiros discutirão no próximo 24 de janeiro, um dia antes da Assembleia que promete ser muitíssimo quente. A história parece tirada de um livro de John Grisham, mas o buraco financeiro tem uma consequência imediata sobre o orçamento do Estado italiano que já colocou à disposição os 3,9 mil milhões a serem subscritos pelas obrigações MONTI com as quais o MPS enfrentará os seus prejuízos. No seu relatório ao Conselho de administração, Viola escreve: “em face dos possíveis impactos financeiros decorrentes dos resultados da análise, resultados estes relacionados com estas operações estruturadas, este Conselho decidiu aumentar em mais 500 milhões de euros (de 3,4 para 3,9 mil milhões) a solicitação feita ao Ministério da economia quanto à emissão de obrigações MONTI. “
O relatório continua a expor a posição do Conselho quanto às “atividades realizadas (…), levando em consideração o pedido de esclarecimento feito pelo Banco de Itália, por carta de 20 de novembro “. Pedido preocupante porque, diz Viola, “seguiu-se ao encaminhamento para o Banco de Itália em 15 de outubro de 2012 de um contrato descoberto a 10 de outubro de 2012 e assinado já em 31 de julho de 2009 entre o MPS e Nomura, sobre a reestruturação do título Alexandria… (mandate agreement) e a este respeito deve notar-se que o “mandate agreement” não estava presente entre a documentação apresentada ao Banco de Itália (…) nem aos auditores “. O administrador Viola na prática informa o Banco de Itália do registo da chamada telefónica em 7 de julho de 2009 entre o topo da Administração de MPS e o da Administração Europa do banco Nomura” e que tinha sido omitida pelos seus predecessores na Administração às autoridades de supervisão e depois declara: “Na data de 13 de Dezembro de 2012 Nomura transmitiu a transcrição de uma conversa telefónica ocorrida em 7 de Julho de 2009 entre o topo de ambas as Administrações”. A conversa é na verdade uma chamada-conferência que se desenrola a 7 de julho de 2009 na presença de 9 pessoas. Em Siena estava presente o Presidente Mussari e o administrador Vigni, com o responsável financeiro Gianluca Baldassari e o contabilista Daniele Bigi, o único deste grupo que ainda permanece no MPS. Em Londres estava presente o Presidente da Europa Nomura com quatro diretores, dois deles italianos.
Os procuradores de Siena, Antonino Nastase e Giuseppe Grosso, que têm em mãos a investigação sobre a compra de Antonveneta em 2008 pelo banco MPS, estão a tentar descobrir se há delitos que tenham sido cometidos, e de que tipo, neste contrato. “Esta transcrição – escreve Viola – já está mãos da Procuradoria da República ” e também do Banco de Itália e dos supervisores, a Consob. Viola prossegue, explicando porque é que o contrato e o telefonema visionado conduzem a que se contabilizem de imediato perdas num valor superior a 220 milhões. A razão para a atualização dos valores em causa, a correção contabilística, é que o erro foi “determinado com base nas informações existentes na altura.” Em seguida, Viola traça a história do contrato secreto: “o MPS decide melhorar o tipo de risco financeiro, a que estava exposto com a nota de Alexandria”, um derivado com base em hipotecas arriscadas. Incrivelmente Nomura, diz-nos Viola, “mostrou-se disponível para trocar “este péssimo investimento ” por um titulo credit linked note, tendo como subjacente obrigações bancárias e subordinadas garantidas por obrigações emitidas pelo Fundo Europeu de Capital da GE[1] (os mais seguros empréstimos hipotecários, ndr.) e foi realizada esta troca para alcançar a melhoria do perfil de risco”. Nomura, em suma, aceitava uma permuta entre lixo e ouro (o que permitiu a Mussari fechar as contas com lucro) porque em troca o Monte dei Paschi comprava os arriscados derivados de Nomura. Precisamente os derivados descritos no contrato secreto.
Marco Lillo, jornal Il Fatto Quotidiano, Monte dei Paschi, accordo segreto tra Mussari e Nomura per truccare i conti. Texto disponível em:
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Parte B – Monte dei Paschi, encerrado o derivado Alexandria. Siena paga a Nomura 359 milhões
de F. Q. | 24 de setembro de 2015
Monte dei Paschi, chiuso il derivato Alexandria. Siena paga a Nomura 359 milioni
O banco Monte dei Paschi de Siena fechou aquela que, segundo o administrador delegado Fabrizio Viola, era “a última operação problemática” ligada à passada gestão do banco.
Ou seja, estamos a falar do contrato derivado Alexandria assinado com o banco japonês Nomura, que o BCE em abril passado tinha pedido para que fosse encerrado logo que possível porque representava “um risco permanente sobre o património” de Rocca Salimbeni. O custo da transação para o Mps será de 359 milhões, 400 menos em relação aos 799 previstos no contrato em caso de encerramento antecipado. O impacto negativo sobre os resultados económicos de 2015 será de 88 milhões líquido de impostos, mas o património líquido sairá aumentado de 257 milhões, diz-se num comunicado do banco.
“Este importante resultado reforça patrimonialmente o banco Mps, melhora a sua rentabilidade esperada e normaliza a sua posição financeira”, comentou Viola na quarta-feira à noite. “A transação foi possível graças à construtiva contribuição da atual gestão de Nomura e assim encerra-se o contencioso aberto”. Desta maneira é arquivado o contencioso aberto pelo banco Monte dei Paschi contra Nomura no tribunal de Florença, assim como o procedimento judicial iniciado pelo banco japonês num tribunal inglês. Naquela sede o banco Mps tinha reclamado aos japoneses, ao antigo presidente Giuseppe Mussari e ao ex-Diretor Geral Antonio Vigni uma indemnização de 1.5 mil milhões.
O ano passado Mussari, Vigni e o ex chefe da área financeira Gianluca Baldassarri foram condenados a três anos e seis meses por obstrução à fiscalização precisamente relacionado com a ocultação do contrato estipulado para a reestruturação do derivado. A operação previa que Nomura financiasse o banco MPS para a compra de 3 mil milhões de euros em títulos de maturidade 2034. Objetivo, esconder o buraco causado no balanço do banco de Siena.
F.Q. Il Fatto Quotidiano, Monte dei Paschi, chiuso il derivato Alexandria. Siena paga a Nomura 359 milioni, texto disponível em:
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