
Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

Monte dei Paschi di Siena, um derivado para embelezar o balanço

De acordo com um documento revelado pela Bloomberg, em 2008, o banco assinou um contrato com o Deutsche Bank, que cobria as suas perdas até ao pedido das ajudas estatais de 3,9 mil milhões, acrescido de juros. O antigo funcionário do Fed afirmou: “ler este contrato faz pensar que mais esqueletos estarão escondidos no armário”.
por RQuotidiano, Monte dei Paschi di Siena, un derivato segreto per migliorare i bilanci
Il Fatto Quotidiano, 17 de janeiro de 2013
O Monte dei Paschi di Siena parece nunca mais acabar de nos apresentar surpresas. Ainda a ajuda estatal para o banco não tinha chegado, ainda o inquérito judicial em andamento não estava concluído e eis que aparece um novo documento, segundo o qual, em plena crise financeira em 2008, o Deutsche Bank tinha estudado um derivado para o Mps que cobriu as perdas do banco Siena até se ter pedido um resgate de 3,9 mil milhões com juros a cargo aos contribuintes. Especificamente, em dezembro de 2008 o primeiro banco alemão emprestou cerca de 1,5 mil milhões por meio de uma transação chamada projeto Santorini. Os detalhes revelados pela agência americana de notícias Bloomberg, estão contidos num documento de mais de 70 páginas.
A operação, sublinha a agência, ajudou o banco MPS, naquele tempo envolvido na aquisição ruinosa de Banca Antonveneta, a atenuar os efeitos de uma perda de 367 milhões gerados por um anterior derivado também ele assinado com o Deutsche Bank. “Como parte do acordo, o banco de Siena fez uma aposta perdedora sobre o valor dos títulos do governo do seu país,” escreve Bloomberg, citando a opinião de seis especialistas em derivativos que viram a documentação.
“Eu não consigo entender como é que uma qualquer instituição financeira pode estar ligada a esse acordo com objetivos legítimos – disse a Agência Frank Partnoy, um ex-trader de derivados do Morgan Stanley e atualmente docente universitário em Direito e Finanças na Universidade de San Diego – nunca o deveriam ter feito “. A transação, refere a Bloomberg, mostra que os bancos de investimento conceberam produtos opacos com que nos anos seguintes encheram de perdas as empresas e os contribuintes. Os exemplos variam desde a Comuna de Cassino aos governos grego e italiano, devedores que perderam dinheiro apostando insensatamente a favor dos bancos. O próprio Deutsche Bank, de resto, foi mesmo condenado no mês passado em conjunto com três outras instituições pelo Tribunal de Milão por fraude na conclusão de um derivado com a capital da Lombardia.
A Bloomberg lembra-nos sempre que, no final de 2012, o Monte dei Paschi pediu uma ajuda adicional de 500 milhões de euros ao Estado, a serem adicionados aos anteriores 3,4 mil milhões, por causa dos ” possíveis impactos patrimoniais para o Banco resultantes das consequências da análise em curso de certas operações estruturadas realizadas em anos anteriores.” Esta é a referência a 25 mil milhões que o banco comprou de títulos de dívida, Btp, entre 2009 e 2010, na gestão Giuseppe Mussari, mas gestão esta em que se está a ganhar muito menos do que o previsto devido a um erro na escolha da cobertura do risco de subida da taxa de juro.
Interpelado por Bloomberg, um porta-voz do banco presidido por Alessandro Profumo não comentou nada quanto à operação com o Deutsche Bank, nem quis dizer se Santorini é uma das transações de finanças estruturadas que levaram o banco a apresentar o seu pedido de resgate público de meio milhão. Por seu turno, a colega do Deutsche Bank observou que “a transação estava sujeita aos nossos rigorosos processos de aprovação interna e recebeu a necessária luz verde do cliente que tinha o seu próprio consultor independente”. Em qualquer caso, o Monte dei Paschi nunca revelou os efeitos da operação de 2008 nos seus balanços anuais e não se sabe se o contrato com o banco alemão é parte da documentação em análise nas mãos do poder judicial.
De acordo com dois profissionais que viram os documentos, os acionistas do banco MPS não estavam em condições de poderem ter consciência das apostas feitas pelo banco sobre derivados uma vez que os relatórios financeiros periódicos não forneceram informações suficientes. Nos seus balanços, sublinha sempre Bloomberg, o MPS informou que o contrato, que tem uma duração de dez anos (até 2018), resultou em perdas virtuais de 87 milhões de euros em 2007, de 62 milhões em 2008, enquanto que a liquidação da operação em 2009 trouxe uma perda de 224,4 milhões. “Esta transação mostra a complexidade dos balanços dos bancos,” comentou Mark Williams da Universidade de Boston que no passado foi funcionário do Federal Reserve para a banca – Faz-te pensar que outros esqueletos estarão no armário.”
“Em referência aos recentes relatos da imprensa e na sequência do que foi comunicado aquando do pedido de mais 500 milhões de novos instrumentos financeiros (as chamadas obrigações Monti), o banco Monte dei Paschi di Siena anunciou que estão em curso análises aprofundadas sobre determinadas operações estruturadas realizadas em anos anteriores e hoje presentes na carteira de títulos do banco”, informou o banco Monte dei Paschi.
“Estas análises, ainda não concluídas, estão relacionadas – acrescenta a nota – com o perfil legal, financeiro, contabilístico e de gestão das operações. Em especial, o banco pretende avaliar cuidadosamente qualquer impacto possível, atual e potencial, para que logo que possível, e não depois da data da publicação do projeto de orçamento para 2012, possa levar a cabo qualquer ação que se considere necessária ou conveniente, incluindo, quando aplicável, a representação contabilística das próprias operações. Claro, o banco garante que qualquer ação será realizada com o máximo de transparência para o mercado e para as autoridades de supervisão”.
RQuotidiano, jornal Il Fatto Quotidiano, Monte dei Paschi di Siena, un derivato segreto per migliorare i bilanci, disponível em:
