A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 17. DENTRO DO MONTE DEI PASCHI HAVIA UM VERDADEIRO FUNDO ESPECULATIVO FORA DE CONTROLE, por LORENZO DILENA

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Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

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Dentro do Monte dei Paschi havia um verdadeiro fundo especulativo fora de controle

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Exclusivo. O relatório interno do final de 2009 que lançava o alarme sobre a situação financeira do MPS foi ignorado. Os investimentos especulativos do banco continuaram a aumentar até ao final de 2011. Os detalhes de “Nota Itália”. E a acta do Banco Central Italiano com observações sobre Nomura, Deutsche Bank…

Por Lorenzo Dilena, Dentro il Montepaschi un hedge fund fuori controlo

Linkiesta. it, 23 de Janeiro de 2013

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«Relatório nº 460/2009 – auditoria sobre o processo de financiamento do grupo de Montepaschi, efetuada de 5 de agosto a 30 de setembro de 2009». Este documento interno obtido por Linkiesta, era já uma fotografia daquilo em que se tornou o MPS: “um verdadeiro hedge fund” de 24,89 mil milhões de euros, com o banco à sua volta. Tudo fora de qualquer controle. A tal ponto que, embora o relatório estivesse em cima da mesa do Conselho de administração a partir de 14 de janeiro e dias seguintes, não houve um qualquer travão ao crescimento da “carteira dos valores mobiliários e derivados detidos pelo grupo»: era com esta reconfortante expressão que se classificava o hedge fund que verdadeiramente funcionava dentro do banco.

Assim, o investimento especulativo subiu até 38 mil milhões de euros, o que é evidenciado no balanço de 2011, sem que a reestruturação sobre algumas destas operações, tais como os produtos Alexandria e Santorini, resolvesse o problema, mas antes o agravaram. A política de investimento foi agressiva. Especulava-se sobre tudo: mesmo sobre Itália. Através dos produtos financeiros estruturados o MPS garantia a solvabilidade do Tesouro italiano. Uma estrutura, nota um perito dos produtos financeiros estruturados ouvido por Linkiesta, sem nenhum sentido: “ninguém iria comprar proteção sobre um título soberano de um banco sob a jurisdição do soberano emitente”. Contudo, foi assim mesmo, se bem que agora é o Tesouro que a salvar o MPS com um empréstimo de 3,9 mil milhões.

A operação, batizada “Nota Itália”, tinha um valor nominal de 500 milhões e vencimento em 2037, e estava ligada a um veículo financeiro irlandês, Corsair finance, montado por JP Morgan. Hoje, o banco presidido por Alessandro Profumo informou que “tinha recentemente restruturado este investimento, mediante a eliminação do seu componente derivado ligado ao risco soberano Itália e que, após o encerramento do derivado, o remanescente do investimento inicial fica devidamente classificado como Loans and Receivables”.

Um anexo ao relatório 460/2009 explica o que é a Nota Itália:

“A operação em questão pertence à família das titularizações sintéticas “credit link note“. Em suma, a posição consiste na venda de títulos de proteção emitidos sobre títulos emitidos pela República Italiana com vencimento em 2037, com um rendimento igual à Euribor a 3 meses mais 25 pontos base. O investimento é estruturado da seguinte forma:

-a empresa veículo de titularização (SPV-special purpose vehicle) emite notas, que deverão ser subscritas pelo banco;

-a empresa veículo investe os recursos financeiros recolhidos através da emissão de notas comprando um título com rating AAA (maturidade de taxa variável da Corsair com vencimento em fevereiro de 2037), que representa o colateral da operação e vende proteção sob o nome Itália, através de um swap de crédito, um CDS. Finalmente, considerando que a garantia, o colateral apresentado, está expresso em dólares, o veículo cobre o risco de câmbio subscrevendo um swap cruzado sobre divisas».

Fonte: Mps, Rapporto n. 460/2009, allegato 6

Quanto deu «Nota Itália»?

Aguardando explicações oficiais do banco, que prometeu esclarecimentos «na primeira metade do mês de fevereiro», vale a pena reler o que foi escrito no relatório 460/2009, que tem a assinatura de Andrea Furlani e de outros sete revisores do Departamento de Auditoria.

«Sobre a rentabilidade do investimento, tendo em conta que atualmente o Btp maturidade 2037 tem um retorno bruto de 5 por cento, a margem financeira que dai resulta é baixa, considerando que, atualmente, a Euribor a 3 meses tem uma cotação igual a 0,74%, então somando-se o spread de + 25 pontos de base, a operação atualmente tem um rendimento inferior a 1 por cento.

Em conclusão, se a área de finanças tivesse investido diretamente na dívida pública Btp de maturidade 2037 ao invés de criar a operação Nota Itália, a rentabilidade seria superior a 400%. Além disso, o investimento direto na dívida publica Btp maturidade 2037 teria limitado os riscos de crédito tomados, uma vez que o colateral da operação é representado por um título emitido pelo JP Morgan e, consequentemente, o banco assumiu o risco de crédito deste último, cujo spread de crédito no ano passado foi quase sempre superior ao da Itália.”

Fonte: Mps, Rapporto n. 460/2009, allegato 6

Naquele tempo só a área Finanças – dirigida por Gianluca Baldassari, que deixa o banco em março de 2012, dois meses após a chegada do atual Presidente Fabrizio Viola – tinha investido 1,71 mil milhões em títulos estruturados de todos os tipos: Abs, Cdo, Cdo Squared, Cdo Cub , CDO de Abs, Credir spread Linked, Synthetic Loan CDO, Credit link note of special pourpose entity, e depois Spi-Synthetic, portfólio insurance e Cppi-Constant proportion portfolio insurance. Em 30 de setembro o valor de mercado de todos estes instrumentos era contudo inferior em mais de 200 milhões (1,48 mil milhões).

Nos documentos postos à disposição dos administradores, presidentes de câmara e revisores, está também uma referência à reestruturação de Alexandria, um Cdo-quadrado subscrito por 400 milhões de euros, ainda antes mesmo de Mussari ter sido nomeado presidente do Mps. «No que diz respeito à posição Alexandria detida em carteira de títulos de filiais no estrangeiro, a auditoria revelou uma melhoria de gestão de crédito expressa pelo mercado; esta mudança está relacionada com uma remodelação do subjacente feita no último trimestre», lê-se no documento. Pela ata do Conselho de administração, de 14 de janeiro de 2010, que Linkiesta pôde consultar, não parece que os administradores ou os prefeitos tenham levantado questões específicas sobre Alexandria e a sua reestruturação.

A reestruturação de Alexandria serviria apenas para cobrir perdas passadas, de modo não muito diferente do que aconteceu com o veículo, Santorini, como revelou o diário Fatto Quotidiano. Parece que, com base num acordo mantido em segredo até outubro de 2012, o banco cancelou a operação com um valor maior do que o preço de mercado e depois teve que “compensar” a contraparte Nomura subscrevendo, por sua vez a preços não de mercado, um “asset swap e duas operações à vista contra duas a prazo ligadas a este mesmo swap”. O jogo é de soma zero, desde que tudo seja comunicado e acima de tudo contabilizado corretamente: e não parece que tenha sido assim. Nomura afirmou que a reestruturação «foi revista e aprovada, antes da sua execução, ao mais elevado nível do MPS, incluindo o Presidente do Conselho de Administração, na altura Mussari».

Entre outros investimentos, a auditoria interna também evidenciou 50 milhões em Classic Finance (um “Cdo de Abs” estruturado pelo Dresdner Bnk) e 16,7 milhões na Tv Colomb, uma operação de titularização criada por uma empresa que tinha comprado os créditos da ex-Credito Fondiario todos eles passados pelas filiais no exterior e por elas controlados. A filial Monte dei Paschi Irlanda geria um portfólio de 1,5 mil milhões em títulos obrigacionistas emitidos por bancos italianos e empresas do mesmo grupo MPS. Segundo um comunicado divulgado ontem pela Rocca Salimbeni, a exigência de um aumento de títulos Monti na ordem de 500 milhões, que se juntariam aos 3,4 mil milhões inicialmente previstos, colocariam o banco “em termos de absorver, do ponto de vista financeiro, as consequências das escolhas financeiras, contabilísticas e de gestão “sobre Alexandria, Santorini e Nota Itália.

Quanto à posição mais importante, a posição em Btp, que naquela altura chegou até aos 26 mil milhões nominais, mostra que todos no MPS tinham sido postos ao corrente do facto de que a estratégia da área de finanças era “unidirecional”: um jogo ao melhor estilo hedge fund, num só sentido, de posições curtas, posições especulativas. «Isto, – escreveu Furlani e colegas – poderia expô-los a “perdas consideráveis face aos significativos aumentos dos spreads de crédito”.

Quando dois anos mais tarde, o banco foi trucidado pelo aumento dos spreads nas Btp, Mussari estava na vanguarda a atacar a EBA, a Autoridade Bancária Europeia, que tinha assinalado deficiências de capital de 3,1 mil milhões, apenas alguns meses depois de encerrado o processo de aumento de capital de 2,1 mil milhões em junho de 2011. No final, o resultado final do teste EBA relevou a necessidade de capital adicional de 1,7 mil milhões. Por esta razão, o Tesouro teve que desenvolver um novo resgate de intervenção (os títulos Monti).

Ainda aqui nem Mussari, nem os outros administradores podem dizer que tudo isto lhes cai das nuvens, que nada sabiam. Tinham sido todos eles avisados. E isto pelas estruturas internas do banco e desde o final de 2009. Ao analisar os impactos que as alterações eventuais das taxas ou do risco soberano teriam sobre o portfólio Btp (análise de sensibilidade), os autores do relatório nº 460 dizem-no claramente:

“Observamos que a categoria “soberano”, no interior da qual estão classificadas as posições em Btp, é aquela que tem como resultado o maior valor negativo na sequência de variações na sensibilidade [variação do valor do investimento, ao variar de um ou mais parâmetros, tais como taxas de juros, ndr.].

(…) A partir da simulação conduzida resulta que ao aplicar um choque de +25 pontos-base na curva das taxas de rendimento, a área de finanças do banco MPS sofre uma perda, de cerca de 73 milhões, dos quais 54 milhões são atribuíveis apenas à Btp 2034. Em conclusão, podemos dizer que o registo da área Finança está exposto a considerável grau de risco de taxa de juros.

“Os riscos associados a essas operações são significativos: possíveis baixas e/ou alargamento dos spreads sobre as emissões do governo italiano, elevado risco emitente e efeitos significativos em termos dos incrementos dos incrementos patrimoniais”.

Fonte: Mps, Rapporto n.460/2009, allegati 1 e 6

Nas conclusões da auditoria interna, a avaliação dos inspetores internos, “foi maioritariamente não favorável”. Foram detetadas graves deficiências organizacionais e informáticas e especialmente de controle interno, operações suspeitas. O relatório também fala de “prolongadas incursões para lá dos limites estabelecidos” e de “elevada exposição a riscos operacionais no âmbito de toda a fileira, acentuada pela presença de muitas operações manuais”. Impressiona a ausência de gestão e de visão unificada da carteira de títulos dispersa pela empresa-mãe, o Mps Capital Services, o Biverbanca, as filiais externas e a subsidiária Monte Paschi Ireland, Mps banque de Paris, o Monte Paschio Bélgica, o Monte Paschi Monaco. No geral, compreende desde a abordagem desordenada e quase artesanal até estratégias muito arriscadas. E isto tanto mais surpreendente quanto tinha sido o próprio Conselho de administração, na sua reunião de 14 de maio de 2009, a deliberar um «novo plano estratégico de investimento para aumentar a taxa de rendimento da carteira de trading da finança proprietária». Talvez se presumisse que o banco tinha uma estrutura capaz de gerir adequadamente os riscos. Na deliberação, no entanto, não havia «nenhuma restrição nem em termos de tempo de implementação das estratégias, nem em termos de limites quanto aos procedimentos operacionais para a sua realização». De um relatório subsequente (nº 372 de 28 de setembro de 2010), resulta que a «aplicação do novo regime», aprovado pelo Conselho de administração no início do ano, «não parece ainda ter sido plenamente concretizada», apesar dos «esforços feitos no primeiro semestre».

Enquanto isso, chegou uma inspeção do banco de Itália (de 11 de maio a 6 de agosto de 2010), que centrou a sua atenção sobre os investimentos de finanças estruturados, incluindo as transações com Nomura e Deutsche Bank. O documento, assinado pelo inspetor chefe Vincenzo Cantarella e datado de 29 de outubro de 2010, afirma que o MPS teria de responder no prazo de 30 dias, após submissão do texto do relatório «ao exame dos órgãos com funções de supervisão estratégica, gestão e controle, em reunião específica para o efeito». A conclusão final foi negativa: “a investigação revelou resultados parcialmente desfavoráveis a serem inseridos no quadro de avaliação do processo periódico de atividades de supervisão”.

Reservas e observações do banco de Itália sobre o banco MPS

“Alguns investimentos a longo prazo, financiados através do mercado repo [a pronto contra prazo] de iguais maturidades apresentam perfis de risco não adequadamente controlados nem totalmente relatados ao órgão administrativo competente. Em particular, como resultado de cláusulas contratuais que exigem margens de garantia adicionais ao título, gerou-se consistentemente uma certa absorção de liquidez (mais de 1,8 mil milhões) referida a dois movimentos, do montante total nominal de 5 mil milhões acordados com Nomura Plc e Deutsche Bank de Londres. O acordo com este último teve mais implicações. Em dezembro de 2008 foram comprados na verdade 2 mil milhões em títulos da dívida pública, Btp (maturidades 2018 e 2020), relacionados com o financiamento cujo custo dependia de variáveis marcadamente aleatórias. Gerou-se assim um justo valor negativo no mercado repo, incorporado em julho de 2009 num novo contrato prolongado até 2031 com penalizantes condições de financiamento (em média 280 pontos-base sobre a Eonia swap, com mark-to-market negativo de 265 milhões no final da inspeção).

O grau de risco da operação – inconsistente com a missão da unidade em cujos livros foi colocada – não tinha sido originalmente incluída no Value at Risk interno (a inclusão da posição em novembro de 2009, aumentou 30% o VaR do registo bancário).

O facto é que o repo do Btp/dezembro de 2008 foi contemporâneo de um outro de igual montante nominal ocorrido entre o mesmo Deutsche e a subsidiária Santorini, graças a um financiamento ancorado sobre fatores largamente contraditórios com o primeiro. O resultado positivo da segunda operação veio compensar as perdas então em formação num collared equity swap a ser feito entre os mesmos sujeitos [ver “Santorini”, ed]».

Fonte: BdI, Rilievi e osservazioni su ispezione 11 maggio – 6 agosto 2010

Nem mesmo depois da inspeção, o hedge fund situado no interior de MPS foi interrompido. O “carry trade” prosseguiu até ao trágico epílogo. Num comunicado divulgado à noite, o Banco de Itália declarou que “a verdadeira natureza de determinadas operações relativas ao Monte dei Paschi di Siena,relatadas pela imprensa surgiu apenas recentemente, na sequência da descoberta de documentos que estavam mantidos em segredo relativamente às autoridades de supervisão e trazidos à luz pela nova direção do MPS”. As operações “estão agora a ser objeto da atenção quer da autoridade de supervisão quer do Tribunal, em plena cooperação. Os desenvolvimentos da investigação e as inquirições estão sob a alçada de sigilo profissional e do segredo de justiça”. O MPS continuou a comprar títulos do governo, contraindo empréstimos a taxas mais baixas e dando em garantia estes mesmos títulos; em Btp a 30 anos realizou estruturas de asset swap sem todavia se cobrir do risco soberano. E isto para um total de 38 mil milhões no final de 2011.

Quando a EBA (autoridade bancária europeia) exigiu a reintegração do capital, Mussari não gostou disso. «A Abi [associação bancária italiana] tenciona tomar todas as vias possíveis, inclusive legais, para impedir que avance aquilo que pretende a EBA», ameaçou em 11 de dezembro de 2011, falando naquela ocasião também como presidente da Associação de bancos italianos, posição da qual se demitiu ontem. Em 25 de agosto de 2010, na festa provincial do partido democrático em Siena, que o banco tem sempre patrocinado (mesmo com a nova orientação do Banco), Mussari afirmou: “O Banco Monte dei Paschi di Siena é saudável, ainda que numa situação de crise económica nacional e internacional sem precedentes. Agora o que está em jogo é o futuro do país, e a banca, em conjunto com as empresas, podem contribuir com a sua parte para tornar o crescimento mais rápido”. O então deputado Pd – Mussari fez uma entrada histórica na política de Siena, depois prefeito e agora de novo candidato ao município pelo mesmo partido – não tinha dúvidas: “Todos os bancos ainda estão a tentar ultrapassar as dificuldades de um ciclo económico recessivo que penaliza particularmente aqueles que baseiam as suas atividades sobre o crédito como o MPS e não fazem finança especulativa de alto risco”. Assim dito.

Lorenzo Dilena, sítio Linkiesta, Dentro il Montepaschi un hedge fund fuori controlo. Texto disponível em:

http://www.linkiesta.it/it/article/2013/01/23/dentro-il-montepaschi-un-hedge-fund-fuori-controllo/11399/

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