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A CRISE DA FINANÇA – O CASO ITALIANO – 24. PORQUE É QUE HÁ TANTOS BANQUEIROS A SUICIDAREM-SE? – por MICHAEL GRAY

guardia-di-finanza

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota. Revisão de Francisco Tavares.

 Porque é que há tantos banqueiros a suicidarem-se?

 

Michael Gray, Why are so many bankers committing suicide?

New York Post, 12 de junho de 2016

 

Video em https://youtu.be/iXVVK5

 

Três banqueiros em Nova York, Londres e Siena, na Itália, morreram em 17 meses um após outro, entre 2013 e 2014, naquilo que as autoridades consideram tratar-se de uma série de suicídios não relacionados entre si. Mas em cada um dos casos, a vítima tinha uma ligação com o escândalo financeiro global e em plena expansão, deixando mais perguntas do que respostas quanto às circunstâncias que rodeiam as suas mortes.

Em 6 de março de 2013, a morte de David Rossi — um diretor de comunicações de 51 anos no Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo — deu-se quando o banco estava claramente à beira do colapso.

Rossi foi encontrado morto num beco sob a janela do seu gabinete num terceiro andar do palácio do século XIV que abriga a sede do banco Monte dei Piaschi.

Um vídeo de segurança devastador mostra Rossi a cair no chão de costas, virado para o edifício — uma posição estranha para ser suicídio, mais provável de se verificar quando uma pessoa é empurrada de uma janela.

As imagens mostram que na queda de três andares de altura Rossi não morre imediatamente. Durante quase 20 minutos, o banqueiro permanece vivo, deitado sobre os paralelepípedos mal iluminados, ocasionalmente, movendo um braço e uma perna.

Enquanto ele agonizava, do escuro aparecem duas pessoas. Aparecem dois homens e um deles caminha até olhar de perto para o banqueiro. A Rossi não é oferecida ajuda ou conforto nem se chama por ninguém, virando as costas e afastando-se para fora do beco.

Cerca de uma hora mais tarde, um colega de trabalho descobriu o corpo de Rossi. Os braços estavam feridos e apresentava uma ferida na cabeça que, de acordo com o relatório do legista local, sugere que poderá ter havido uma luta antes da sua queda.

Mas a morte foi considerada um suicídio, com a total descrença da viúva de David Rossi, Antonella Tognazzi. Ela foi citada na imprensa italiana como tendo dito que o marido “sabia demais”. Ela organizou manifestações públicas e contratou um advogado para investigar a morte do marido.

Entre as provas que Tognazzi aponta está a nota do suposto suicídio, em que Rossi se refere a ela como Toni. Ele nunca me chamou por Toni, disse ela.

David Rossi, 51 anos, diretor de comunicação do Monte dei Paschi di Siena, caiu da altura de três andares da sede do banco em Março de 2013. Reuters

Dois dias antes da sua morte, de acordo com a sua esposa, David Rossi enviou um email enigmático ao CEO do banco, Fabrizio Viola. “Quero garantias de não ser esmagado por essa coisa,” foi o que escreveu no correio eletrónico. “Temos que o fazer imediatamente, antes de amanhã. Será que me pode ajudar?”

Permanece um mistério o que é que David Rossi pensava especificamente que o poderia “esmagar” e isto escrito pouco antes da sua morte. Muito se tem especulado se ele estaria ou não a referir-se ao descalabro financeiro com que se debatia o banco Monte dei Paschi. Uma questão que permanece como um mistério.

Rossi era um íntimo confidente do antigo Presidente do banco Joseph Mussari, que foi quem esteve por detrás da aquisição do Banca Antonveneta em 2008, feita pelo Monte dei Paschi com um custo de US $ 7,5 mil milhões. Muitos analistas bancários consideraram na altura que o Monte Paschi pagou demasiado por esta aquisição que foi financiada pelo Deutsche Bank.

No mesmo ano da morte de Rossi, os reguladores europeus e americanos começaram a investigar o que se tornaria conhecido como o escândalo da Libor, em que os banqueiros de Londres conspiraram para manipular a London Interbank Offered Rate — uma taxa de juro overnight que determina as taxas de juros cobradas sobre hipotecas e venda de automóveis assim como para os empréstimos pessoais em todo o globo. Também determina a taxa que os bancos como o Monte Paschi pagam pelos empréstimos como o que foi utilizado para financiar a aquisição da Banca Antonveneta. O escândalo custaria aos bancos internacionais — mais notoriamente ao Deutsche — quase US $ 20 mil milhões em multas.

Além disso, o Monte Paschi envolveu-se em derivados arriscados com os quais teve grandes perdas durante a crise financeira de 2008. O distinto banco, fundado 20 anos antes de Cristóvão Colombo ter atravessado o Atlântico, estava a ser investigado no momento da morte do Rossi pelo seu manuseamento de milhares de milhões de dólares com apostas em produtos derivados arriscados envolvendo o Deutsche Bank e o Merrill Lynch.

Em outubro de 2014, Mussari e dois outros executivos do Monte Paschi foram condenados pelas autoridades italianas por obstrução ao trabalho dos reguladores e por induzirem em erro os investigadores quanto às finanças do banco italiano Monte dei Piaschi, resgatado na sequência da aquisição da Banca Antonveneta. Em janeiro deste ano, três executivos do Deutsche Bank também foram implicados civilmente, incluindo Michele Faissola, o diretor de gestão de patrimónios do banco alemão — acusados pelas autoridades italianas por conluio com o conturbado Monte Paschi na falsificação de contas, manipulação do mercado e obstrução da justiça. Faissola nega estas acusações.

William Broeksmit, 58 anos, executivo do Deutsch Bank

Embora pelo menos 40 banqueiros se tenham suicidado no período de 17 meses que teve início em março de 2013 na sequência do escândalo bancário mundial, as circunstâncias da morte de Rossi — e de dois outros — destacam-se como sendo particularmente misteriosas.

Em janeiro de 2014, o corpo de William Broeksmit, de 58 anos, um alto quadro executivo do Deutsch Bank, foi encontrado pendurado de uma trela de cão amarrada ao topo de uma porta na sua casa em Londres.

Junto ao seu corpo estavam espalhados documentos financeiros e sobre uma cama de cachorro perto do corpo estava também uma série de notas para família e amigos. Uma destas notas era dirigida a Anshu Jain, um alto executivo do Deustcher Bank com um pedido de desculpas. Mas essa nota — nunca publicamente revelada até agora — não ofereceu nenhuma pista quanto à razão pela qual se apresentava a pedir desculpa.

Um colega de Broeksmit de elevada posição dentro do Deutche Bank era Michele Faissola, que chegara à cena macabra após a esposa do falecido ter pedido ao seu enteado, Val Broeksmit, que lhe telefonasse. Faissola chegou minutos depois e começou a vasculhar os papeis do banco e a ler as notas de suicídio.

“Ele foi depois para a o computador do meu pai, o que na época, achei um pouco estranho,” disse Val Broeksmit.

A casa de William Broeksmit em Londres ocidental, onde foi encontrado morto em 2014. Reuters

Não há nenhuma prova de que Faissola estivesse envolvido em qualquer má conduta relacionada com a morte de Broeksmit, mas o enteado disse que ainda se pergunta o que é que Faissola andava à procura, se é que andava à procura de alguma coisa. Faissola recusou comentar isto.

Em e-mails fornecidos ao Post pelo seu enteado Val, Broeksmit tinha acabado de enviar uma mensagem a amigos sobre a sua excitação em ir de férias para fazer esqui, o que estava marcado para uma semana depois.

Apesar de um relatório do psicólogo clínico sobre Broeksmit revelar que este andava “muito ansioso pelo facto das

Michele Faissola, do Deutsche Bank, está acusado de conluio bancário.

autoridades andarem a investigar as áreas do banco em que trabalhou,” a sua depressão, no decorrer da investigação sobre a Libor no ano anterior, parecia ter já passado, de acordo com um médico que lhe teria dado alta com um atestado de boa saúde passado um mês antes de sua morte, disse o seu enteado. Val encontrou outros factos perturbadores enquanto revia os e-mails e os documentos pessoais de Broeksmit, disse-nos ele.

“Sim, suicidou-se,” disse Val Broeksmit ao Post. “Mas há uma questão sem resposta: poderia ser suicídio por extorsão, poderia ser suicídio por pressão ou por lhe dizerem se não fizer isto, nós iremos fazê-lo? Tenho algumas suspeitas à volta disto.”.

No início de 2013, Jain pensava nomear Broeksmit como o principal responsável pelo Departamento de Risco de todo o banco. Broeksmith era um perito no campo dos derivados esotéricos, nos quais a Deutsche tinha aproximadamente US $ 60 milhões de milhões nos seus livros. Mas os reguladores bancários alemães vetaram a nomeação por considerarem que não tinha a experiência necessária para um cargo de tamanha responsabilidade.

Broeksmit deixou o banco em junho, mas alguns meses mais tarde assumiu uma posição em Nova Iorque como diretor do Deutsche Bank Trust Company of América, (DBTCA) o braço americano do gigante bancário alemão. Foi a recompensa pelo seu longo tempo de serviço no Deutsche Bank depois da recusa das autoridades bancárias alemães em aceitarem a sua nomeação para diretor de risco do Deutsche Bank à escala global.

DBTCA era o primeiro Trust bancário que Deutsche comprou em 1998. É o braço de apoio para os clientes ricos colocarem dinheiro em fundos fiduciários e outros investimentos a longo prazo.

O meu pai foi o primeiro a ir

Ver o vídeo https://youtu.be/YX8ZzJypQzk

 

O departamento de gestão de ativos e de patrimónios do Deutsche Bank era supervisionado por Michele Faissola, que, juntamente com Broeksmit, reportavam diretamente ao CEO Jain. Mas diferentemente da maioria dos diretores do banco, a natural curiosidade Broeksmit e a sua ética de trabalho não lhe permitiam aparecer apenas para uma reunião mensal e embolsar um grande salário. Ele começava por aprofundar cada operação.

“O meu pai não queria apenas aparecer” diz-nos Val Broeksmit.

Um mês antes da sua morte, William Broeksmit escreveu – no que o seu filho diz que ele mostra sua ira – aos seus colegas executivos, perguntando-lhes porque é que devia ser ele a assumir a liderança quanto à questão delicada dos testes de resistência impostos pela Federal Reserve ao banco.

Além disso, ele também questionou os “generosos” valores de perdas nos empréstimos que estão a ser utilizados pelo banco, com receio de que os reguladores federais vissem que o banco estava a perder em empréstimos mais do que aquilo que mostravam os seus livros de contas. As enormes perdas poderiam levar a que a Federal Reserve impusesse fortes restrições ao Banco.

“Quem é que está a aconselhar que eu faça isso? É suposto eu ser um diretor independente e isso coloca-me mais num papel de alinhamento com a gestão”, escreveu ele.

Há dois anos, o mistério dos suicídios dos banqueiros atingiu Nova York. Calogero “Charles” Gambino, 41 anos, casado e pai de dois filhos, era advogado interno do Deutsche há já 11 anos a a trabalhar na sede do banco. Ele estava a trabalhar na defesa do banco contra as acusações do processo da Libor e de outras acusações levantadas pelos reguladores.

Em 20 de outubro de 2014, o corpo de Gambino foi encontrado pela sua esposa, Maria, pendurado do corrimão ao cimo das escadas da sua casa de Brooklyn, uma casa de tijolo branco cuidadosamente arranjada e conservada em Bay Ridge, com colunas de pedra ornamental até ao telhado. A corda foi enrolada pelo corrimão e amarrada na coluna de mármore do primeiro andar.

Não deixou nenhuma nota e a sua muito unida família recusou-se a falar sobre a sua morte.

Penso que ele sabia demasiado

Ver o video https://youtu.be/jcqNf3c6y8g

O New York Post tentou inúmeras vezes falar com a viúva tendo sido informado por um porta-voz do Deutsche Bank que a a esposa “não queria ser perturbada e que nos lembrássemos que ela tem dois filhos pequenos.”

O respeitado banqueiro era visto como uma história de sucesso de Nova Iorque – era diplomado pela St John’s University e pela Faculdade de Direito da mesma instituição – trabalhou durante dois anos na Securities and Exchange Commission (SEC) como advogado agente de autoridade. Depois, mudou-se para a firma de advogados, de classe alta, Skadden Arps como associado durante quatro anos e de onde se mudou depois para o Deutsche Bank, onde subiu na hierarquia e alcançou o posto de conselheiro geral associado e de diretor.

No seu trabalho como advogado no Deutsche, Gambino tinha relações com muitos dos altos executivos dos bancos europeus — incluindo Michele Faissola e William Broeksmit.

Entre os principais colegas de Gambino destaca-se o advogado externo Mark Stein de Simpson Thatcher, que tinha o seu contacto direto. Stein, que se recusou a comentar, aconselhou Broeksmit e Faissola em 2012 e 2013 quanto às acusações sobre a Libor que pendiam sobre o Deutsche Bank. O Deutsche Bank, por fim, chegou a um acordo com o Departamento de Justiça americano, pagando US $ 12 mil milhões em multas, sem qualquer admissão de responsabilidade.

A morte de Gambino foi considerada um suicídio. No seu caso e nos casos de Rossi e Broeksmit, os procuradores nunca procuraram, nem descobriram, pontos de ligação comuns.

Mas todos estes três homens trabalharam para, ou efetuaram contratos com o Deutsche Bank. Mais ainda, parece que um ou mais dos escândalos que envolviam o Deutsche Bank e/ou o Monte Paschi desde a crise financeira passaram pelos seus gabinetes.

Resta saber se as circunstâncias que levaram à morte de Gambino e de Broeksmit voltarão alguma vez mais a serem reconsideradas. Mas há questões que estão a ser levantadas e respondidas no caso de David Rossi.

No ano passado, as autoridades italianas exumaram o corpo de David Rossi e reabriram a investigação. Uma decisão sobre se Rossi se suicidou ou se foi assassinado é esperada ainda este mês.

 

Michael Gray, New York Post,  Why are so many bankers committing suicide? , Texto e videos disponíveis em:

http://nypost.com/2016/06/12/why-are-so-many-bankers-committing-suicide/

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