CONTOS & CRÓNICAS – CARLOS REIS – OS ARTIGOS IMPUBLICÁVEIS – SALVADOR SOBRAL
joaompmachado
Meu caro e querido Salvador Sobral
Ter de repente esta musicalmente abúlica e pindérica população a teus pés, não te afecta em demasia, eu sei, eu ainda assim calculo. É natural que te saiba bem, afinal és um cantor notável, com um ouvido notável e uma voz notável, um intérprete notável de notáveis temas, notavelmente por ti interpretados.
Mas aquilo que tu sabes que vales como intérprete e cantor, nada tem a ver com as histéricas e femininas juvenis histerias, nem com os patriotiqueiros profissionais da pimbalhice musical, provincianos de sempre, portucalenses festiválicos de várias gerações.
E eu digo isto, eu digo estas coisas, não por causa da televisão, não por causa do festival cançoneteiro – mas porque te conheci, por acaso e por entre um público restrito (embora popular, note-se) onde os habituais pindéricos hermafrodito/patrioto/festiválico/pires de ouvido não têm acesso, nem vontade, nem conhecimento, nem opção.
A música deles é a televisão. O seu acervo musical é a televisão. O seu gosto musical é a televisão. Que os fornece, propicia e proporciona e a que eles aderem, como a Fátima ou ao Futebol. Para quê pensar, pesar, optar, concluir?
Foram os gigantescos e trabalhados meios de comunicação, que desta vez coincidiram (mero acaso, evidentemente) com a tua irredutível e inconcebível vitória, que te guindaram a este topo em que actualmente resides. Se acaso fosse qualquer outro e não tu, o histerismo seria o mesmo.
Tudo coisas que tu sabes. Que eu presumo que sabes.
Tu, que és também inteligente, afirmaste mesmo, em desagradáveis e obsessivas entrevistas televisivas, que sabias do lado efémero destas coisas e do breve e inevitável oblívio das mesmas.
Uma coragem e simplicidade registáveis, além da inteligência. Que o nosso pindérico povo tanto necessita para se afirmar sem nenhum (dele) esforço qualquer ou aparente necessitar. No que toca à Música, então melhor nem falar. E o que vier à rede é peixe, sejam campeonatos de futebol, sejam cantores pimba evidenciados, seja lá o que for de reles e pindérico. A cultura, o gosto e o livre arbítrio ainda não se instalaram nesta nossa generalidade.
Continuarei a recordar-te os boleros e os standards de Jazz (no tom original, como uma vez me confidenciaste) em mal frequentados locais, como sejam o Café Tati aos domingos, o Hot Clube quando calha ou a Fábrica de Braço de Prata às quintas feiras, espontâneas e de borla.
Na certeza que os públicos que ali têm estado, estão e (oxalá que sim) estiverem são quem te conhece, aprecia e deseja ouvir, independentemente de um festival que justamente ganhaste.