A PROPÓSITO DA MORTE DO CORONEL VARELA GOMES – por CARLOS LOURES
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João Varela Gomes (1924 – 2018) – Obrigado à AOFA – Associação de Oficiais das Forças Armadas.
Já contei como, em Novembro de 1961, no São Martinho com um um grupo de colegas da RTP fui festejar num restaurante dos arredores. Cozido à portuguesa, vinho tinto, castanhas assadas e água pé…. Ao meu lado sentou-se um jovem com menos de trinta anos. Trabalhava no Lumiar enquanto eu estava na sede, em São Domingos à Lapa. Falámos durante o almoço. Chamava-se João Soares Louro.. Embora um dos «subversivos» que trabalhava comigo e o conhecia me tivesse tranquilizado. Soares Louro era «dos nossos». E, antes de terminarmos as entradas, já percebêramos que estávamos do mesmo lado. Anos depois, viria a ser administrador da empresa. Em 1994, estivemos numa reunião da RTC para combinar uma campanha publicitária, mas não lhe recordei o «magusto»… No regresso, a Lisboa, ao despedir-nos, Soares Louro recomendou-nos que passássemos pela sede da candidatura da oposição democrática, na rua do Socorro. Uma sala muita pequena cheia de gente. Uma senhora franzina, de cabelo claro, muito enérgica, atendeu-nos. Apresentámo-nos e logo nos arranjou que fazer. Nem mais nem menos que dinamizar na RTP uma subscrição a favor da compra de uma nova rotativa para o jornal “República”. A senhora chamava-se Maria Eugénia Varela Gomes e era a esposa do então capitão, um homem que punha em risco a sua carreira, ao candidatar-se pela Oposição. Após o assalto ao quartel de Beja em que o marido foi gravemente ferido, seria presa e barbaramente torturada.
No Teatro da Trindade, assisti à sessão de encerramento em que falavam os candidatos pelo círculo de Lisboa. Entre eles o capitão Varela Gomes. Começara por ler a intervenção, mas depois, enervado, pôs os papéis de parte e falou de improviso. Atacou o ditador tacanho, a influência da Igreja Católica, a polícia política, a Guerra Colonial que começara nesse ano, a Censura, em suma pôs em causa os fundamentos da ditadura. A sala irrompia em frequentes e vibrantes aplausos.
E nós, aquele o grupo de quatro oposicionistas, começámos a tarefa. Percorremos as secções, aproveitámos a hora do almoço (eu fora eleito para a comissão que dirigia o refeitório, a biblioteca e as actividades culturais e, fora das horas de serviço, movimentava-me pelo edifício sem que isso fosse notado). Da Alameda das Linhas de Torres chegou um boa contributo. Conseguimos uma importância elevada, uns contos de réis… Fomos os quatro um fim de tarde levar o dinheiro ao jornal em nome dos «Democratas da RTP». O jornal, pela importância da doação e por vir do pessoal de uma empresa do Estado, logo na edição seguinte nos meteu na lista que, diariamente, era publicada. O presidente do Conselho de Administração andou uma manhã aos gritos pelos corredores: «Onde é que estão os democratas da RTP?» e agitava um exemplar do República. Foi um dia de juízo. Toda a gente sabia quem tinha recolhido os donativos. Os quatro do costume. Ninguém nos denunciou. E havia gente de direita, com legionários pelo meio, inclusive. O meu chefe de secção, que não se metia em política, mas contribuíra com um donativo, fez uma intervenção ameaçando quem falasse de passar a ser desprezado «como um cão», foi a expressão que utilizou. O director de serviços apoiou-o de forma discreta, mas firme. A camaradagem, e também o medo do desprezo geral, sobrepuseram-se às convicções políticas. Nenhum dos (poucos) salazaristas assumidos nos denunciou. Até porque se os oposicionistas activos eram conhecidos, os salazaristas também e se houvesse denúncia, mesmo que estivessem inocentes, seriam acusados.. Não me recordo se a rotativa foi comprada nessa altura ou se isso só aconteceu quando o jornal foi reformulado na década seguinte. Não é importante.
Todavia, após a Revolução de Abril, o jornal foi sacudido por uma tremenda agitação, pois a uma administração e a uma equipa redactorial conotadas com o Partido Socialista, opunham-se os trabalhadores gráficos e administrativos, ligados a partidos de esquerda. A crispação foi-se acentuando e quando no princípio de Maio de 1975 a administração tentou admitir mais redactores ligados ou conotados com o PS, foi convocada uma Reunião Geral de Trabalhadores que condenou a crescente hegemonia socialista, boicotando a saída do jornal no dia seguinte. Esta situação foi depois ultrapassada, mas, dias depois, novo impasse – O destaque dado pela redacção a uma visita da delegação de um grupúsculo maoísta à China, movimento adversário do PCP, e um artigo condenando a posição dos trabalhadores da Radiotelevisão Portuguesa ligados ao PCP, foram a gota que fez transbordar a taça. Desencadeou-se um irreversível processo de ruptura que colocou em confronto, de um lado, a Administração, a Direcção e os redactores e, do outro lado da barricada, a Comissão Coordenadora de Trabalhadores dos gráficos e trabalhadores dos serviços administrativos e comerciais. E o «República» que resistira durante os quase 50 anos de ditadura, não resistiu à luta política, após o advento da democracia. Deixou de ser publicado.
Voltando a Varela Gomes Uma manhã no recreio do Presídio cruzámo-nos. Fiz-lhe uma discreta saudação de punho cerrado a que correspondeu com um quase imperceptível aceno .Trabalhou algum tempo numa empresa ligada àquela em que eu trabalhava. Falámos algumas vezes e não estávamos de acordo – eram os tempos do PREC e as posições eram extremadas e inflexíveis.
Mas rendo a minha sentida homenagem ao antifascista, e ao militar íntegro e corajoso que Varela Gomes foi..