
A PROPÓSITO DA MORTE DO CORONEL VARELA GOMES – por CARLOS LOURES

A Liberdade, a cultura, a democracia e a justiça social são as nossas paixões.

Já contei como, em Novembro de 1961, no São Martinho com um um grupo de colegas da RTP fui festejar num restaurante dos arredores. Cozido à portuguesa, vinho tinto, castanhas assadas e água pé…. Ao meu lado sentou-se um jovem com menos de trinta anos. Trabalhava no Lumiar enquanto eu estava na sede, em São Domingos à Lapa. Falámos durante o almoço. Chamava-se João Soares Louro.. Embora um dos «subversivos» que trabalhava comigo e o conhecia me tivesse tranquilizado. Soares Louro era «dos nossos». E, antes de terminarmos as entradas, já percebêramos que estávamos do mesmo lado. Anos depois, viria a ser administrador da empresa. Em 1994, estivemos numa reunião da RTC para combinar uma campanha publicitária, mas não lhe recordei o «magusto»… No regresso, a Lisboa, ao despedir-nos, Soares Louro recomendou-nos que passássemos pela sede da candidatura da oposição democrática, na rua do Socorro. Uma sala muita pequena cheia de gente. Uma senhora franzina, de cabelo claro, muito enérgica, atendeu-nos. Apresentámo-nos e logo nos arranjou que fazer. Nem mais nem menos que dinamizar na RTP uma subscrição a favor da compra de uma nova rotativa para o jornal “República”. A senhora chamava-se Maria Eugénia Varela Gomes e era a esposa do então capitão, um homem que punha em risco a sua carreira, ao candidatar-se pela Oposição. Após o assalto ao quartel de Beja em que o marido foi gravemente ferido, seria presa e barbaramente torturada.
Em 1994, estivemos numa reunião da RTC para combinar uma campanha publicitária, mas não lhe recordei o «magusto»… Neste parágrafo parece-me que a data está errada.
Conheci-o através de meus pais, grandes amigos de ambos. A Maria Eugénia, Gena para os amigos, foi, com minha mãe e outras mulheres, a iniciadora da Comissão de Socorro aos Presos Políticos. Tive a honra de também me considerarem seus amigo e acompanhei a fase final de vida de cada um deles. E fui um dos convidados do jantar em sua honra pelos seus 90 anos. Homem duro,de trato um pouco difícil, mas de grande honradez, amizade, espírito lutador de antes quebrar que torcer, mas também capaz de mudar de opinião. Fiel aos seus princípios e ao seus amigos.
Um abraço Carlos Loures.