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Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção? Parte II – 30. A Goldman escreve uma carta aos seus clientes: “Pensamos que deve atualmente estar mais preocupado em vender do que em comprar”. Por Therealheisenberg 

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 30. A Goldman escreve uma carta aos seus clientes: “Pensamos que deve atualmente estar mais preocupado em vender do que em comprar” [1]

 

Por Therealheisenberg  em 11 de fevereiro de 2018

 

Coisa engraçada sobre o Goldman.

No decorrer da última década, o público em geral foi martelado com a ideia de que as pessoas de 200 West [NT. 200 West Street é o local da sede da Goldman Sachs] estão envolvidas em algum tipo de vasta conspiração global, diretamente a partir de uma sequela da série cinematográfica Austin Powers, destinada a perpetuar a captura regulatória e a instalar os seus ex-funcionários em cargos de poder em todo o mundo, num esforço para influenciar a política ao mais alto nível possível.

E sabem uma coisa? Essa narrativa não é inteiramente falsa. De facto, há muita verdade nisso. O problema com essa narrativa é a parte em que ela é rodada como sendo uma conspiração.

É tanto uma conspiração da mesma forma que a McDonald’s está envolvida numa “conspiração” alimentando à força as pessoas com comida que (literalmente) as matará, ou que a Coca-Cola está envolvida numa “conspiração” vendendo deliciosos diabetes engarrafados ou que a Apple está envolvida numa “conspiração” vendendo às pessoas o mesmo telefone repetidamente com um número diferente carimbado, ou que o Twitter está empenhado numa “conspiração” aproveitando o seu papel (bastante grande) na matança do discurso civil e substituindo-o por explosões de discurso de ódio de 280 caracteres.

A McDonald’s vende hamburguers. Esse é o negócio. A Coca-Cola vende refrigerantes. Esse é o negócio. A Apple vende o mesmo produto uma e outra vez. Esse é o negócio. O Twitter fornece uma plataforma para jogos de gritos virtuais. Esse é o seu negócio. A Goldman é um banco de investimento e adivinhe o que faz? Bancos grandes e poderosos dispõem de grandes e poderosos recursos bancários. Esse é o negócio. Não é uma “conspiração”, é simplesmente aquilo que eles fazem. Isso não significa que seja “bom” e isso certamente não significa que seja “o trabalho de Deus”, mas eles não andam atrás de si para o apanhar tal como Ronald McDonald e Grimace não esperam que você tenha um enfarte cardíaco.

O interesse próprio e a ganância não são a mesma coisa que a maldade absoluta. O motivo de lucro vem em primeiro lugar e se se verifica que, no decorrer da maximização de lucros ou algum outro objetivo final desejável (por exemplo, influência), alguns tipos são enganados ou ficam entalados pelo caminho, paciência. Se, mais tarde, na linha do que acabámos de expor, eles têm coisas a explicar, isso será um pesadelo em termos de relações públicas, mas mesmo nos casos mais flagrantes de má conduta das empresas, não são se trata de que as pessoas acordaram um belo dia e decidiram lixar os outros e, e como uma feliz coincidência, isso resultou ser lucrativo. Ao contrário, as pessoas levantaram-se um dia e decidiram ganhar dinheiro e como uma consequência infeliz alguns lixaram-se. Dependendo da predisposição das pessoas envolvidas, haverá vários graus de simpatia e/ou apatia expressa em relação às pessoas que estão a ser tramadas no processo de realização do dinheiro e, no pior dos casos, isso faz com que as pessoas literalmente ” se dirijam todas contentes a caminho do banco”. Mas, novamente, é a parte do “banco” que importa. Os culpados podem não se importar, seja como for, que estejam a lixar outras pessoas (podem até estar a rir-se enquanto estão a fazer isso), e isso é lamentável, mas não fosse pelo motivo de lucro, eles não estariam a fazer seja o que fosse, em primeiro lugar, porque isso não fazia sentido na perspetiva do interesse próprio, a menos que sejam psicopatas.

Tudo bem, então, qual é a questão? Bem, a questão na noite de domingo é que o Financial Times obteve um e-mail que o co-diretor da Goldman para a negociação global de ações, Brian Levine, enviou para o que o FT descreve como “os maiores clientes do banco” e (é claro) essa caracterização dos destinatários levou algumas pessoas a comparar esse e-mail com a nota de sexta-feira do Goldman em que se vê que o banco disse isto [2]:

A maioria das correções do mercado de ações recuperam-se sem que os mercados entrem numa tendência à baixa ou que sejam presságio de recessões. Houve 16 reduções de 10% + desde 1976. Das 16 correções, apenas cinco ocorreram em torno de uma recessão. Dos restantes 11 episódios não recessivos, 1987 foi o único que se transformou em mercado à baixa (ou seja, um declínio de 20%).

Tenho a certeza de que o FT não quis provocar um debate sobre a “disparidade” entre essa nota de sexta-feira e o e-mail em questão, mas acidentalmente provocaram-no, porque agora o que está a acontecer é que algumas pessoas estão agora a tentar comparar as duas notas, à imagem do que em tempos disse Greg Smith [3], afirmando que o acima mencionado Levine está a dizer aos “grandes clientes” é para evitarem comprar caso ocorram quedas de preços porque o mercado está em baixa [buying dips], enquanto a equipe de ações do Goldman está a dizer ao resto dos clientes que normalmente “a maioria das correções do mercado de ações recuperam-se sem que os mercados entrem numa tendência à baixa” [NT. ou seja, está a dizer precisamente o contrário do que Levine aconselha aos grandes clientes].

E veja, este é o tipo de porcaria que é lamentável e é por isso que eu comecei este artigo com essa longa introdução. Essa coisa que está a ser feita para o público acreditar que tudo o que vem de Wall Street tem algum significado oculto ou que, de outra forma, é concebido para beneficiar a própria instituição bancária ou então a atirar um grupo de clientes contra outro grupo de clientes é absurdo e, na verdade, mina o esforço para restaurar a confiança com a Main Street, invocando conspirações que não existem.

A carta de Levine está abaixo reproduzida e eu incentivaria o leitor a lê-la pelo que ela é. É apenas um tipo a escrever um e-mail para os clientes e refletindo sobre os movimentos recentes do mercado.

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[a carta de] Brian Levine da Goldman:

Pensei em consolidar uma série de pensamentos e temas recolhidos ao longo da semana e tentar perceber a correção de 10% que vimos nas últimas duas semanas de um mercado que passou por um período recorde de tempo sem sequer uma queda de 5 %!

A minha resposta às justificações comuns de um regresso da recuperação:

Outros pontos de referência que são relevantes:

Em resumo, não atingimos o fundo em termos de curto prazo, mas o leitor só o saberá quando vir tal acontecer (ou pelo menos 5 minutos depois!). Mas no longo prazo, penso que esta é uma genuína mudança de regime, onde cada investidor vai vender nas recuperações do mercado à baixa mais do que comprar nas quebras do mercado em alta [one where you sell-the-rallies rather than buy-the-dips].

 

Texto original em https://heisenbergreport.com/2018/02/11/goldman-writes-a-letter-to-clients-i-believe-you-sell-the-rallies-rather-than-buy-the-dips/

 

Notas

[1]  NT. ” Há um tempo para comprar e um tempo para vender. Dito de forma simples, em mercados em alta, há que comprar nos momentos de queda de preços (dips). Nos mercados em baixa há que vender nos momentos de recuperação de preços (rallies). Isto pode parecer óbvio, mas os investidores constantemente fazem exatamente o contrário, entram em pânico e vendem quando os investimentos, num mercado em alta, declinam, e são enganados com a compra de investimentos que apresentem recuperação de preço num mercado em baixa a longo prazo. ” vd http://www.businessinsider.com/a-sound-strategy-2011-10

 

[2]  NT. Vd. texto 29 publicado ontem.

[3] NT. Artigo de Greg Smith de março de 2012, antigo funcionário de Goldman Sachs, explicando os motivos da sua saída da empresa (vd. aqui).

[4] NT. O rácio Sharpe ratio é o retorno médio em excesso da taxa livre de risco por unidade de volatilidade ou risco total. Subtraindo a taxa livre de risco do retorno médio, pode-se isolar o resultado associado com as atividades de assunção de risco. É como ter um portfolio aplicado em investimento de “risco zero” , como por exemplo títulos do Tesouro dos Estados Unidos (para os quais o retorno esperado é a taxa livre de risco), que tem um rácio Sharpe precisamente igual a zero. Em geral, quanto maior o valor do rácio Sharpe, mais atrativo será o retorno do risco ajustado. Vd. https://www.investopedia.com/terms/s/sharperatio.asp

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