Trickle down ou trickle up eis a questão. E qual tem sido a opção?Parte II – 31. Os relatórios sobre a minha morte foram largamente exagerados (2ª parte-conclusão). Por The Heisenberg 

Uma nova série sobre as novas tempestades que se vislumbram já no horizonte

Imagem 2 Trickle-Down CADILLAC

 Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

Parte II – 31. Os relatórios sobre a minha morte foram largamente exagerados (2ª parte-conclusão)

Por The Heisenberg the heisenberg

Publicado por seeking alpha logo  em 16 de fevereiro de 2018

(conclusão)

Dito tudo isto, o leitor poderá justamente referir que todos esses relatórios sobre o fim da recuperação dos mercados financeiros eram largamente exagerados (daí o título deste texto). Afinal, acabamos de testemunhar a melhor semana para o S&P desde 2013:

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Algumas coisas devem aqui ser sublinhadas. Antes de tudo, a história estava do lado dos jogadores à alta nestes mercados (mercado touro) e não houve falta de comentários nesse sentido no fim-de-semana passado. Goldman, por exemplo, escreveu o seguinte numa nota datada de 9 de fevereiro:

A maioria das correções verificadas nos mercados bolsistas foi bem sucedida, pois fizeram-se sem se evoluir para mercados em baixa (mercados urso) e sem se antecipar um clima de recessão. Houve 16 correções na casa dos 10% desde 1976. Destas 16 correções, apenas cinco ocorreram em torno de uma recessão. Dos restantes 11 episódios não recessivos, 1987 foi o único que se transformou num mercado de forte tendência à baixa.

Naturalmente no mesmo dia, o co-diretor para o mercado global de ações do mesmo banco de investimentos Goldman Sachs, Brian Levine, enviou uma carta aos clientes em que, se o leitor estiver inclinado a ser extremamente cínico, parece estar em contradição com a posição mais otimista da nota acima citada. Vejamos o que nos diz Levine sobre a perspetiva dos mercados (texto completo da carta aqui):

No fim de contas, não chegámos ao fundo do curto prazo, mas o leitor o saberá quando vir tal acontecer (ou pelo menos 5 minutos depois!). Mas a mais longo prazo, acredito que se trata de uma verdadeira mudança de sistema, onde cada investidor vai vender nas recuperações do mercado à baixa mais do que comprar nas quebras do mercado em alta [… one where you sell-the-rallies rather than buy-the-dips [2]].

Mais uma vez, isto parece um mau presságio, mas Levine não disse que “não haverá recuperações”. Ele apenas disse que a atitude poderia estar a mudar em termos de como as pessoas respondem às recuperações dos mercados.

A questão para mim é, não estou inteiramente seguro que afirmar que a recuperação dos mercados tinha acabado fosse “enormemente exagerado”. Claro, falei muito sobre quais eram as armadilhas e o leitor pode sempre encontrar os pessimistas se os procurar, mas os tipos ostensivamente “sérios” estavam francamente comedidos se não mesmo otimistas nas suas avaliações depois da queda dos mercados.

Por exemplo, podemos lembrar-nos que um dos motivos citados para a forte subida no final da tarde de sexta-feira (ou seja, o agora infame último aumento que se verificou na tarde de sexta-feira, dia 9 de fevereiro) foi uma nota de Nikolaos Panigirtzoglou do JPMorgan. Eu escrevi sobre isso no início desta semana. Esta é a manchete que é mostrada no Terminal às 15h e 30min naquela tarde:

A reversão do fundo de paridade de risco/CTA já pertence ao passado, diz o JPMorgan

Houve pelo menos um comentador que achou que o meu artigo era tolo (é claro, se o leitor ler o meu artigo seriamente em vez de uma leitura superficial, verificará que eu próprio estava muito cético quanto a saber se a nota de JP Morgan estaria ela, ou não, por detrás do disparar das cotações. Mas sabe, quem é que lê o artigo na totalidade, certo?).

Mas, como se verificou, a nota de JPMorgan provou ser bastante presciente. Porque ela basicamente sugeria que se o excesso de desalavancagem sistémica era o que estava a meter medo às pessoas, este excesso tinha sido largamente eliminado. Sem dúvida, isso tinha-se confirmado esta semana e Marko Kolanovic veio ele mesmo reafirmar na 6ª feira este mesmo ponto de vista. Aqui está o que ele disse na mesma nota a partir da qual se extraiu o excerto sobre SVXY acima reproduzido:

Com a quase totalidade do necessário desendividamento (ou desalavancagem) por parte dos investidores sistemáticos já deixado para trás das nossas costas, acreditamos que os mercados deverão continuar a recuperar. Além disso, os investidores sistemáticos poderiam começar a realavancar as suas posições no mercado acionista, uma vez que a dinâmica é positiva para quase qualquer que seja o horizonte de curto prazo (permitindo que os CTAs, que tinham deixado de ser cotados devido à forte venda da semana passada, voltassem a tomar posições longas) e a volatilidade verificada começa a diminuir (provocando que os fundos tendo como alvo a volatilidade comecem a levantar-se gradualmente).

 

Como escrevi na tarde de sexta-feira, o desanuviar sistémico forçado da semana passada é o vento que iremos ter por detrás de nós na próxima semana, à medida que a oferta de desalavancagem se transforme numa procura de re-alavancagem.

Novamente, não está claro que a forte quebra da recuperação dos mercados tenha sido “enormemente exagerada” e, se fosse, era provável que a multidão de novatos do mercado a retalho tenha exagerado porque, como mostrei no início desta semana, o SPDR S&P 500 Trust ETF (SPY) viu uma quebra de US $ 23,6 mil milhões durante a venda massiva de posições.

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Isto seguiu de perto um registo recorde de entradas em ETFs sobre ações em janeiro, e janeiro foi também um mês que viu os E*Trade adicionarem 64.581 grossas contas de corretagem, a maior num único mês desde setembro de 2016:

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Assim, acho que quando ouço as pessoas dizendo que a forte quebra na expansão dos mercados foi “enormemente exagerada”, pergunto a mim mesmo do que é que estarão a falar. Pode parecer plausível dizer que se estão a referir a mim, mas certamente não se referem a alguns dos maiores nomes de Wall Street e quando me vêm com provas anedóticas, parece-me que as pessoas que estavam em situação de maior pânico eram as pessoas que poderiam não ter uma firme compreensão sobre as coisas que se estavam a passar.

Enfim, a coisa mais interessante sobre esta semana (bem, além do facto de que foi a segunda melhor semana para as ações americanas desde dezembro de 2011) foi até que ponto a perceção dos operadores em ações quanto ao aumento da inflação tinha mudado. Havia uma miríade de novas provas para apoiar a noção de que as pressões de preços estavam a subir nos EUA e isso anuncia uma dinâmica de fim de ciclo e pressagia um Fed mais agressivo.

Por outras palavras, se o leitor está preocupado com o valor do salário médio horário que levou diretamente à venda massiva de ações, bem, então o leitor teria ainda mais razões para se preocupar esta semana, com a publicação do Índice de Preços ao Consumidor na quarta-feira e depois com a publicação dos inquéritos Fed e do Índice de Preços no Produtor na quinta-feira, todos apoiando a narrativa da inflação.

Mas as ações ignoraram-no. E ainda não ouvi nenhuma boa explicação para o porquê. Eu apenas o atribuiria às compras em momentos de quebra (dip buying) e ao facto de que o bicho-papão da sistemática desalavancagem [3] está de volta ao armário por um tempo, se não fosse pela reação violenta dos contratos de futuros na manhã de quarta-feira. É claro que uma parte se deve a algum pânico com a leitura das manchetes, mas ainda assim, não havia exatamente nenhuma evidência na quinta e sexta-feira que alguém ainda estivesse preocupado com as pressões de inflação.

Em última análise, acho que é um erro. Os altos quadros do Tesouro reuniram-se na sexta-feira, ajudando a refazer e a subir alguns dos posteriores índices de Preços no Produtor, mas ainda estamos desconfortavelmente perto de 3% nos títulos do Tesouro a 10 anos. Além de 3% é “onde se começam a verificar as coisas selvagens” – por assim dizer.

Esta semana, por muito divertida que tenha sido, levantou mais perguntas do que respostas. Em algum momento, as ações terão que enfrentar as crescentes pressões de inflação e o que isso poderá significar para a orientação do banco central. Enquanto isso, está-se perto de uma conclusão inevitável de que o estímulo fiscal empilhado em cima da sobreaquecida economia americana fará avançar o fim do ciclo.

O meu palpite seria que a disparidade entre a forma como o mercado reagiu à evidência de inflação esta semana e como o mercado reagiu à evidência de inflação no início deste mês será reconciliada mais cedo e não mais tarde. Procure ter uma opinião sobre isto. Não vou dizer o que é que deve pensar, mas o leitor precisa de ter a sua opinião. Ou o comportamento sobre o valor das ações estava certo na sua interpretação nesta semana ou este comportamento estava certo no início deste mês, mas não podem estar simultaneamente os dois certos.

Esta é a minha mensagem desta sexta-feira à noite. São agora 21 horas, hora a que estou a acabar este texto.  Agora é tempo de comer um bom bife. Ou um cigarro. Ou ambas as coisas.

Bom fim de semana.

Informação: não tenho qualquer posição nas ações mencionadas, nem nenhuma intenção para adquirir posições no decorrer das próximas 72 horas. Este artigo expressa tão só a minha opinião. Não recebo qualquer compensação por isso (para além da de Seeking Alpha). Não tenho qualquer relação de negócio com qualquer das empresas cujas ações são mencionadas neste artigo.

 

Texto original em https://seekingalpha.com/article/4147887-reports-demise-greatly-exaggerated

 

Seeking Alpha: serviço de conteúdos relativos aos mercados financeiros fornecidos por milhares de membros (sobretudo investidores e peritos da indústria financeira). Fundado em 2004 pelo analista David Jackson. Tem parcerias de distribuição com MSN Money, CNBC, MarketWatch, NASDAQ e The Street. Em 2014 tinha 3 milhões de utilizadores registados.

The Heisenberg: membro de Seeking Alpha desde 2016.

 

Notas

[2] N.T. “… Em mercados em alta, compra-se em momentos de queda de preço [buying dips]. Num mercado em baixa, vende-se em momentos de recuperação do preço [selling rallies].” vd. http://www.businessinsider.com/a-sound-strategy-2011-10 (consultado em 30 de março de 2018). Vd. também https://www.quora.com/What-does-it-mean-to-buy-on-dips-and-sell-into-rallies-in-FX a resposta de Roman Sadowski de 4 jan2016 (consultado em 30 de março de 2018).

[3]  NT. Sobre desalavancagem https://www.investopedia.com/terms/d/deleverage.asp

 

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