Chega a meter dó, quando abrimos a agência Ecclesia e vemos os títulos das notícias que nos remetem para as principais actividades dos bispos, a começar pelo de Roma, o papa Francisco. De cada vez que o faço, por dever de ofício, cai-me o coração aos pés. A julgar pelos títulos das notícias, os bispos da igreja são os mais frustrados dos filhos de mulher. Vivem na história, mas é como se não vivessem. Tudo o que é politicamente decisivo para os povos de cada uma das nações e do mundo no seu todo passa-lhes completamente ao lado. A eles e aos seus clérigos párocos, carregados de paróquias, nenhum tempo para as pessoas, nem sequer para eles próprios; nenhum tempo para a escuta dos sinais dos tempos e da mensagem de que eles andam grávidos; nenhum tempo para o silêncio e para a fecunda contemplação; nenhum tempo para a Ruah ou Sopro de Liberdade que nos faz plena e integralmente humanos, nos antípodas dos funcionários-mercenários que todos eles são.
E quando calha de os bispos serem notícia noutros media é pelas piores razões. Esta semana, por exemplo, o cardeal patriarca de Lisboa e presidente da CEP é notícia, porque vai presidir à mais do que deprimente e alienadora festa do senhor santo cristo dos açores, assim mesmo, em minúsculas, como minúscula é a importância do evento. Onde a única coisa que conta é o escandaloso tesouro em ouro, a contrastar com a pobreza das populações. São tradições populares, eu sei. Mas até a origem desta festa, perdida nos séculos, é uma vergonha, pelo menos para quem hoje já é terceiro milénio. Um bispo como o da igreja que está em Lisboa e, para cúmulo, Presidente da CEP, deveria perturbar-se perante tradições deste jaez. Não canonizá-las. Ninguém é ordenado bispo da igreja movimento de Jesus para alimentar tradições, nomeadamente, quando estas são manifestamente incompatíveis com o Evangelho de Jesus. E se há evento mais incompatível com a Fé, a Teologia e o Evangelho de Jesus, é esta festa do senhor santo cristo dos açores. O culto do ouro. Do dinheiro. Do sofrimento. Da autoflagelação.
Outro bispo que aparece com bastante frequência nas notícias é o de Bragança-Miranda. E sempre pelas piores razões. Tudo em D. José Cordeiro é oco, encenação. A sua formação em Liturgia poderia-deveria fazer dele um despertador junto das populações de Bragança-Miranda para as causas da Cultura, da Arte e também da Escuta das profundas dores, fomes e sedes das maiorias empobrecidas daquele distrito. Mas não é o que se vê. O que mais brilha no bispo que veio de Roma e vive manifestamente casado com os senhores do avental e do poder do distrito, é o ouro com que se apresenta perante os seus súbditos, mascarado de anel, cruz peitoral, báculo, mitra e pesada capa bordada. O que deixa as populações empobrecidas ainda mais ofuscadas e encandeadas, em lugar de olhos da mente abertos e politicamente activas. Semelhante agir episcopal constitui um crime de lesa-humanidade, engana-povos-tira-lhes tudo, até o pouco que têm. Só não vê quem não queira ver.
Pela mesma via está a ir o novo bispo do Porto. Os seus primeiros dias na diocese são de visita às entidades do distrito, numa retribuição dos cumprimentos recebidos no dia da sua entrada solene no Porto. É bem o bispo do Porto. Não o Bispo da igreja movimento de Jesus que está no Porto. Não pensem que são sinónimos. São antónimos. E o mais trágico é que, para o serem, todas estas entidades eclesiásticas, chamadas bispos residenciais, têm de renegar da sua humana condição de filhos de mulher, quando aceitam a função por nomeação papal. A partir daí deixam de ser filhos de mulher, para serem filhos da puta, que são, teologicamente, todos os agentes do Poder. É por isso que o quotidiano dos povos das nações nunca mais lhes interessa. Só o meramente eclesiástico – espaços sagrados, ritos religiosos, missas, rituais, tudo coisa nenhuma!


