Choro pelas crianças nascidas neste tipo de mundo do Poder, o religioso-eclesiástico, o económico-financeiro-multinacional e o da Caridadezinha institucionalizada. E por todas as que irão continuar certamente a nascer. Não por causa da Covid-19, pois (quase) todas elas são felizmente imunes. Sim, por causa de outros vírus bem piores do que este, criados com o apoio da Ciência ao serviço do Poder que não olha a meios para alcançar os seus fins. Perante o espantoso Mistério que é cada criança, nascida de mulher, o Poder não consegue dormir, enquanto as não domesticar. Tem a nítida percepção de que cada criança religada às demais crianças é capaz de o derrubar. E só descansa, quando consegue matar a alma de cada uma das já nascidas e de quantas venham a nascer.
Devem ser crianças a governar o mundo. Ao seu jeito. Não mais ao jeito do Poder, o único que até agora se conhece. Precisamente, todas e cada uma daquelas crianças, cuja alma o Poder não consegue matar, à medida que crescem em idade, estatura, sabedoria e graça. E tornam-se mulheres, homens que jamais saem da sua condição de Humano. Por mais seduzidos que possam ser, ao longo dos anos, sempre resistem ao fascínio do Poder, em cada um dos três poderes em que ele historicamente subsiste. Bem como ao fascínio da Caridadezinha institucionalizada. Só assim o mundo é progressivamente Humano, De cada um segundo as suas capacidades, a cada um segundo as suas reais necessidades.
Choro pelas crianças que nascem neste tipo de mundo do Poder assessorado pela Ciência que se lhe vende. Dificilmente conseguirão crescer de dentro para fora, na fidelidade à sua matriz original, única e irrepetível. Uma matriz com tudo de Mistério que a Ciência jamais consegue desvendar e descodificar. Nunca o Poder o foi tanto como neste milénio, graças aos cientistas que se lhe vendem. E são praticamente todos, já que dele são todas as escolas, do infantário à universidade. Todas as religiões e igrejas. E a Caridadezinha institucionalizada. Ai das crianças que nascem e crescem sob a sua alçada. São robôs, quando adultos, com máscara de humano. Porque sem alma!
Choro, quase sozinho, esta matança de inocentes em massa. Porque sei bem o que, ao longo dos anos que já levo de vida visível na História, me tentam fazer para asfixiarem o menino que sou e o Mistério que sou, como nascido de mulher. Felizmente, nasço numa aldeia e em condições sociais invulgarmente favoráveis ao meu crescimento de dentro para fora, não só em idade e estatura, mas também em sabedoria e em graça, entenda-se, em entrega gratuita e recíproca aos demais.
Tenho a felicidade de nascer no seio de uma família pobre. E numa época em que o Poder é ainda bastante artesanal. Há, é verdade, o campanário com o seu pároco residente, mas confinado às rotinas do dia a dia. E há uma mestra que nos ensina a decorar o catecismo na sua casa, tal como há o professor primário que nos ensina a ler-escrever-contar-decorar a tabuada, o nome dos rios e seus principais afluentes, bem como os oceanos e as linhas de caminho de ferro. O grande mundo reduz-se, por isso, quase todo ao mapa-mundi da escola.
Felizmente, desde menino, digo e repito, Quando for grande, quero ser padre. Para ser diferente do que vejo ser o pároco da aldeia e o meu tio cónego. Frequento então durante 12 anos consecutivos e com atestado de pobre o seminário de Trento, na diocese do Porto. No final do curso, sou ainda mais determinado em ser padre para ser e fazer diferente. O Poder, nos seus diversos agentes de turno, com quem venho a confrontar-me, vida fora, faz tudo para me ganhar para ele. Resisto-lhe como só um menino é capaz. Dou-me conta que só conseguirei resistir-lhe sempre, se passar da condição de pobre por nascimento, à de pobre por opção. A única opção certa que quantas, quantos quisermos permanecer humanos, vida fora, temos de fazer. Ostracizados q.b. Mas também fecundos q.b. Grávidos de Paz e de Alegria que a Morte, quando nos acontecer, levará à plenitude.
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