Não saberia dizer quando comecei a gostar dos livros de velho. Lembro-me relativamente neno, e já mais sendo adolescente leitor, contemplando com fascinação e às agachadas algum dos gastos e vetustos livros na sala de estar da casa dos meu avós.
A minha admiração sempre estava num de Ensaios de Unamuno, com o logo da Residencia de estudiantes e mais em 4 ou cinco livros galegos do XIX e primeiras décadas do XX. Um Divino Sainete frágil, desencadernado e muito gasto ao que falta a metade penúltima e mais a derradeira página, umas não menos manuseadas Poesias de Pondal na edição da Academia de 1935; três ou quatro livros nas mesmas da famosa Biblioteca Gallega de Andrés Martínez Salazar e um par de tomos de Labarta Posse. Poesia e satírica galega. Por alguma parte devia haver um Añón que o meu avó recitava de memória e algo do Cura de Fruime.
Alguns desses do meu avó terminei eu por herdar anos depois. Com os anos fui compilando eu mesmo, ou observando em bibliotecas. As minhas preferências continuam pelos que testemunham vários proprietários e leitores. São como se no canto de introdução e notas viessem com anexos e uma porta à fantasia. Permitem ler a própria obra não apenas como era no seu tempo original, senão também também perceber algo da receção.
Quem leu, quem era a gente que teve, como leu e tratou o livro. Se o livro circulou numa casa ou entre várias instituições e famílias. Se atravessou o charco e foi lá ou chegou de volta. Se foi recuperado num mercado popular, num posto da rua, num sebo qualquer ao descuido ou num alfarrabista de prestígio. Se está desfeito, sujo, escrito com notas e nomes, se a caligrafia ou ex-livris é elegante ou se é uma chafalhada pretensiosa; se a contrário as letras são infantis, hesitantes, ou duvidosas, de homem ou mulher, informando de toda escala social; se traz papéis marcantes ou notas domésticas. Ou se foi, depois de uma vida azarosa, ou justo quanto saiu da imprensa, encadernado.
E como e quando foi encadernado? fez alguém na casa, com mais vontade que habilidade. Fez um artesão cuidadoso que lhe garantiu anos de serviço e nova vida? Fez alguém para uma biblioteca circulante ou popular, para uso numa biblioteca pública.
Os livros velhos são interessantes. São objetos sólidos. Testemunham destinatários e épocas de fartura ou miséria por eles próprios (a sua tipografia, qualidade das tinhas, imprensas e papel) e também falam muito dos seus proprietários. Gosto desses volumezinhos populares centenários; adoro aqueles que foram cuidadosamente impressos e tiveram a sorte de pertencerem a leitores respeitosos; e tenho uma certa fascinação detetivesca por aqueles livros que apresentam cicatrizes ou parece que foram uma ou várias vezes naufragados.
