A GALIZA COMO TAREFA – livro popular- Ernesto V. Souza

No último escrito meu fixado no mastro deste navio, coloquei uma ilustração com uma gravura de um homem sentado a ler. Foi algo improvisado, de última hora. Pensei que casava bem. Tinha digitalizado algures,  como tanta cousa, quem sabe quando, e guardado impropriamente numa pasta no computador. Mas faltava-me o dado de onde tomara. Pensei, procuro depois, afinal tanta cousa mal-arquivada, sem sistema, apenas serve para decoração.

Gosto de referenciar-lhes estas imagens, não apenas por pagar devido respeito à autoria e ser legal com os direitos de autor, quanto porque as ilustrações formam parte, sempre, como as formatações, não sei se percebem, da mensagem.

Mas desculpem, pelo momento não achei. Estava convencido de topar a referencia facilmente. Estava também convencido, que devia andar num livro norte-americano (a cadeira e o estilo é bem norte-americano) dos anos 30; e que esse livro estava numa prateleira concreta, na minha casa.

il. W.M. Geddes em One-Act Plays of To-Day: First Series Marriott, J .- Editorial: George G. Harrap & Co, 1926. Frontis.

Mas não estava, não. Errei. Ai, a memória! Agora, num livro, que eu fazia ideia era o que procurava, havia outra gravura.

Bom também aí marrei: o livro é inglês. Só atinei na época e na prateleira da casa. Porém, alegro-me do erro. Também representa um leitor e não é má. Até mais jeitosa diria. A ilustração, para ler com lupa, está assinada por W. M. Geddes (ou Seddes). 

Intriga-me a qualidade da ilustração e também a tipografia, a formatação, papel, encadernação, logos e o estilo modernista do volumezinho. Acho que por isso comprei (isso sim lembro corretamente) no seu dia, num sebo, desses em que os livros valem 2, 3, 4 euros.

Umas cousas sempre levam a outras, mas por vezes a pesquisa pode prolongar-se, ou simplesmente ficar aí até que voltamos a ela por coincidências, nomeadamente quando se trata de elementos, peças ou teorias que não foram antes relacionadas, reunidas, compiladas, contextualizadas.

Não há tanto podíamos tardar anos em estabelecer relações, em conseguir os dados, referencias, bibliografias. Havia para isto que consultar inúmeras referencias impressas, livros, revistas, catálogos, informações, memórias, epistolários. A pesquisa antes, do big data, dos catálogos das bibliotecas em rede, google e a globalização da informação, era mais artesanal, como a navegação, a procura de ferramentas ou a fabricação de objetos.

Por isso, a pouco de navegar e provar várias combinações, já achei que a ilustradora era Wilhelmina Margaret Geddes, uma fascinante artista anglo-irlandesa vinculada ao movimento Arts & Crafts e mais conhecida pelos seus trabalhos em vitrais e cristal. Tem mais ilustrações noutros livros desta editora e coleção. E continuando a pesquisa encontro mais informações sobre os livrinhos da Harrap Library, e de passagem sobre algumas das grandes edições populares britânicas e norte-americanas do século XX, num blogue bem interessante: A Series of Series.

Divulgação, formação, antologias, clássicos e novidades.  Uma coleção, pois, a da Harrap, cuidadosamente projetada, com um característico estampado tipo teosófico-egípcio na tapa, elegante tipografia muito legível, e uma coleção com re-impressões de clássicos misturadas com ficção, teatro, ensaio e poesia.

Adoro o conceito de “cheap modernism” e como se desenvolve na indústria da impressão, atingindo a tipografia, papel, cores, formatação, cobertas, capas, encadernação, no desenho industrial destes livros de grandes tiragens, destinados a um público diverso. Livros que nos falam de desenho, mas também da proposta, vigente desde William Morris, de que a qualidade e o bem fazer do artesão impere na produção industrial e no desenho de massa.

Dai a minha cabeça pervaga imagens de livros e objetos, e não posso senão lembrar com saudades aqueles livros galegos dos anos 20 e 30, os americanos exilados dos 40 e 50, e os de Galáxia nos seus primeiros 25 anos. Penso em Anxel Casal, nos Carré, Diaz Balinho, Seoane e Isaac Diaz Pardo. E vejo que com escassos meios e com quase nenhum público popular possível, foram capazes de criar um livro popular e nacional galego, perfeitamente à altura dos seus tempos, que marcou e definiu uma proposta nacional, de forte pouso atlântico, em paralelo (como parte e também à contra) do ciclo do livro popular, de avançada e vanguarda republicana na Espanha; deixando com o seu exemplo toda uma escola, que destaca um momento de fulgor na história do livro galego.

É triste que não tenhamos, para além do espalhado pelos catálogos das bibliotecas da Galiza, alguma base de dados, bem financiada institucionalmente e doada de consultar, que vaia dando conta sistematicamente, por coleções, editoras, autores e ilustradores, dos livros galegos anteriores a 1958 (ou 1980). Reunindo dados de capas, desenhos ilustrações, que nos permita ir gizando esse rico universo que faz parte do nosso património e memória.

É por isso destaca tanto a iniciativa privada e o trabalho particular do nosso amigo Xabi Iglesias, quem vai reunindo, explicando e contextualizando, aos poucos, livro a livro, boa parte da produção editorial de Anxel Casal. Para os interessados no livro galego, como objeto cultural e produto de desenho o seu blogue é já uma ferramenta indispensável.

Visitar: Os Libros de Anxel Casal.

 

 

 

 

 

 

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