Não sei se alguma vez provaram a esculpir uma figura numa pedra. Num pequeno bloco de sólido granito, a cinzel e maceta pedreira, ou num padrão fixado no chão, como faziam os antigos.
Tirar uma figura de uma pedra, aos poucos, com pequenos golpes é algo interessante. Parece sim, como seique dizia o mesmíssimo Michelangelo, que há que ver primeiro o objeto, a figura que envolve a pedra, e deixar-se levar pelas suas formas internas, vetas, sombras e gretas para ir dando volume e ir libertando a forma que já está nela.
A da pedra, talvez pela resistência do objeto e força do metal, pelo peso das ferramentas contra a solidez que reverbera nas mãos a cada golpe, parece-me uma bela metáfora e uma sensação que toda pessoa que tivesse alguma vez uma ferramenta nas mãos (um martelo, uma machada, uma serra, um engaço, uma pá) pode bem entender.
A alegoria que procuro, a dia depois do 5 de maio, na pedra e no metal, no aprendiz de canteiro é a da língua portuguesa nas mãos de um galego.
Passam os anos e a gente continua a aprender de jeito autodidata, continua a construir umas simpáticas, ou simbólicas, peças de característica imperfeição, de notável primitivismo. Mas aí ficamos, nas portas, no amadorismo e não adiantamos.
São precisos mestres, uma aprendizagem regrada, e aprendida na hora certa da infância e a mocidade, seguida das correspondentes horas de prática continuada. Na Galiza temos – e já tivemos mais – um potencial imenso e uma posição de vantagem para adquirirmos com um mínimo esforço umas habilidades e competências notáveis em língua portuguesa.
Mas é a Estremadura a que está a fazer. Na Galiza os mais continuam venerando relíquias e relicários, atribuíndo-lhes uns poderes, legitimindades e antiguidades imaginadas; outros continuamos no auto-didatismo, ou na alfabetização particular que nos procuramos, já adultos em manuais, cursos ou nas Escolas oficiais de Idiomas. A sociedade continua, o Governo autónomo continua, sem desenvolverem a Lei Paz Andrade, sem realizarem o mínimo esforço e investimento para disponibilizarem no ensino público as condições, os docentes, as matérias que garantiriam a aquisição formalizada de uma ferramenta formidável: a Língua Portuguesa.
