A Galiza é, de sempre, mal percebida desde fora, difusa, vaga complexa de mais, rechamantemente poliédrica e multifacetada em extremo, aparentemente tranquila mas conflitiva, complicada de mais para perder o tempo em compreender a variedade de vozes, discursos, situações e acontecimentos.
Em realidade não pode ser doutro jeito que nos vejam dessa forma difusa, bretemosa, antiga, legendária ou mágica, pois alguma explicação sintética há que dar e por outra parte, mesmo para os próprios galegos, dispostos a querer explicar os amigos estrangeiros, a cousa não é doada. Um espaço tão pequeno e – como bem disse o genial e neurótico do Vicente Risco – no que entra um mundo inteiro.
De fora é imperceptível como verde cantinho da Espanha, mas a pouco que se aprofunde, língua, história política e cultura, a toponímia mesmo, emergem as sensações intensas de luta, desacordo, tensão, agitação, doidice e desvario. O trato entre os indígenas exige atenção microscópica ao local e ao detalhe, que se perdoa normalmente o viajante. A complexidade de clãs, grupos, alianças e poderes, o localismo, a hierarquia social herdada que uma conjunção de fatores económicos, políticos e social tem feito difícil contornar, desenham essa paisagem monótona, mas cansativamente complicada.
Os poderes locais, lealdades e fidelidades, tão fortes e claros na origem, vão-se valeirando de sentido, segundo se prolongam em estruturas de poder cujo fim é indefectivelmente Madrid. Para além estabelecem e pervivem hábitos, práticas, alcábalas em complicadas maquinações e estruturas de poder, intermediadas por elementos e capas, processo ritualizados e figuras chaves e opacas ante as que há que passar com cuidado de quem retorneia palavras com esfinges, oráculos e mágicos, antropófagos, encantadores e retranqueiros.
A alegoria perfeita é, para mim, esse labirinto que os antigos lavraram nas grandes pedras. A sua explicação e cifra pode enxergar-se dos grandes relatos célticos e artúricos, no folclore e contística tradicional, nos ditos e cantigas, que conformam ainda boa parte do substrato tradicional. Os feitos, os pactos, as traições, os enganos, os erros e as suas consequências, revelam mais do que simples relatos, conformam ao jeito das grandes compilações, que com o tempo adquiriram o status de livros de sabedoria e são as bases das grandes religiões, o compêndio do conjunto dos saberes metaforizado.
A Galiza não por acaso é viveiro de advogados, capitães, políticos, homens de Estado, embaixadores, jornalistas, poetas e grandes contistas, que vivem de interpretar o labirinto aos de dentro e aos de fora. Resolver o labirinto, porém é cousa difícil. Falta qualquer combinação de fatores, energias e vontades que o transformar numa Tábua Redonda capaz de ordenar poderes e saberes.
Ainda bem que sabemos que algum dia, Artur voltará para tirar a espada encravada na pedra, e os tempos serão chegados.
