A GALIZA COMO TAREFA – cantaria – Ernesto V. Souza

Não sei se alguma vez provaram a esculpir uma figura numa pedra. Num pequeno bloco de sólido granito, a cinzel e maceta pedreira, ou num padrão fixado no chão, como faziam os antigos.

Tirar uma figura de uma pedra, aos poucos, com pequenos golpes é algo interessante. Parece sim, como seique dizia o mesmíssimo Michelangelo, que há que ver primeiro o objeto, a figura que envolve a pedra,  e deixar-se levar pelas suas formas internas, vetas, sombras e gretas para ir dando volume e ir libertando a forma que já está nela.

Autodidatas e sem mestre, apenas passaremos de lavrar formas rústicas, talvez dotados dalgum talento ou de habilidade manual conformada noutras artes ou ofícios, logremos algum resultado mais jeitoso. Mas formados com um mestre canteiro, pedreiro ou escultor podemos ir aumentando a destreza e a habilidade até conseguirmos uns resultados notáveis.

A da pedra, talvez pela resistência do objeto e força do metal, pelo peso das ferramentas contra a solidez que reverbera nas mãos a cada golpe, parece-me uma bela metáfora e uma sensação que toda pessoa que tivesse alguma vez uma ferramenta nas mãos (um martelo, uma machada, uma serra, um engaço, uma pá) pode bem entender.

A alegoria que procuro, a dia depois do 5 de maio, na pedra e no metal, no aprendiz de canteiro é a da língua portuguesa nas mãos de um galego.

Passam os anos e a gente continua a aprender de jeito autodidata, continua a construir umas simpáticas, ou simbólicas, peças de característica imperfeição, de notável primitivismo. Mas aí ficamos, nas portas, no amadorismo e não adiantamos.

São precisos mestres, uma aprendizagem regrada, e aprendida na hora certa da infância e a mocidade, seguida das correspondentes horas de prática continuada. Na Galiza temos – e já tivemos mais – um potencial imenso e uma posição de vantagem para adquirirmos com um mínimo esforço umas habilidades e competências notáveis em língua portuguesa.

Mas é a Estremadura a que está a fazer. Na Galiza os mais continuam venerando relíquias e relicários, atribuíndo-lhes uns poderes, legitimindades e antiguidades imaginadas; outros continuamos no auto-didatismo, ou na alfabetização particular que nos procuramos, já adultos em manuais, cursos ou nas Escolas oficiais de Idiomas. A sociedade continua, o Governo autónomo continua, sem desenvolverem a Lei Paz Andrade, sem realizarem o mínimo esforço e investimento para disponibilizarem no ensino público as condições, os docentes, as matérias que garantiriam a aquisição formalizada de uma ferramenta formidável: a Língua Portuguesa.

 

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