1 de Dezembro de 2016
A FONTE DA PRAIA DO OURO
Lordelo do Ouro, integrada na cidade do Porto em 1836, é uma Freguesia cheia de declives acentuados, bordejada pelo rio Douro e com o mar ali à beira. A sua situação privilegiada contribuiu enormemente para a sua expansão.
Terra de pescadores, de rio e de mar, ali viviam muitos dos Capitães, Mestres e Contra-Mestres, Carpinteiros e Marinheiros dos navios que ali abarcavam.
Com naturalidade, na Praia do Ouro, ali existente mesmo encostada à Ribeira da Granja, criou-se um Estaleiro para a construção de barcos em madeira, em tempos tão antigos que se perdem na memória, chegando a ser o mais importante do Porto.
Tendo excelentes condições, todo o tipo de embarcações ali chegavam e partiam, algumas delas enormes.
No Estaleiro do Ouro terão sido construídas as embarcações que seguiram para o Cerco de Lisboa, da Armada que partiu para a conquista de Ceuta e de Alcácer-Ceguer, bem como as naus que participaram na primeira Viagem Marítima à Índia.
Também lá foi construída em 1867, uma Galera, com 1100 toneladas, de seu nome América, que era, à época, o maior navio construído em Portugal.
Funcionou até 2005, altura em que, como muitas outras coisas, foi abandonado, transformando-se num centro de degradação física e ambiental, embora, pelo menos desde 1999 se falasse de uma requalificação de todo aquele espaço.
Entretanto, em 2007, durante a Presidência do Dr. Ricardo Fonseca na Administração dos Portos do Douro e Leixões, foi lançado um concurso de ideias para a requalificação de todo o espaço do Ouro. Formado o júri, composto pela CMP, a Ordem dos Arquitectos e a APDL, venceu o concurso, de entre os setenta apresentados, o projecto, muito interessante, dos Arquitectos Tiago Vidal e Isabel Carvalho.
A peça-chave desse projecto, que contemplava a criação de um novo edifício para o Instituto de Socorros a Náufragos, um anfiteatro suspenso sobre o Douro e dois espaços para cafetaria, aluguer de bicicletas e posto turístico, era o “Respirad’ouro”, um instrumento musical (uma espécie de órgão) que transformaria a força das águas em sons. As marés determinariam a música que se ouviria na margem, assemelhando-se a “um órgão de catedral, um canto de ave ou um vapor à distância”, como pode ler-se na memória descritiva.
Infelizmente, e mais uma vez, duvido que o “Respirad’ouro” se venha a concretizar (à semelhança do aproveitamento das ondas para criar energia, aquando da construção do molhe norte da barra do Douro), ou o posto turístico, ou as cafetarias ou o aluguer das bicicletas, muito embora a esperança seja a última a falecer.
Aconteceu entretanto, algo de quase inovador no panorama dos projectos que geralmente ficam no papel. Há alguns meses, começaram, primeiro um depois o outro, a desaparecer os dois barcos de pesca que estavam a apodrecer no estaleiro. Mais tarde, desapareceu a Fonte da Praia do Ouro, cuja água vinha da mina existente no Gás, assim como os tanques que ali existiam e que serviam para os locais lavarem as suas roupas. Disseram-me até, que tanto as pedras da fonte como as dos tanques foram numeradas para posterior reconstrução.
Mais tarde começaram as obras, a cargo da APDL. Chegaram calhaus e mais calhaus para a construção do alargamento do passeio sul da Rua do Ouro, entre a rampa de acesso ao rio existente em frente da entrada do edifício pertencente ao Exército, até à curva anterior ao cais do Gás (será que se respeitaram os três metros de largura previstos no projecto?). Aos bocadinhos lá fomos vendo a azáfama das obras, até que, agora já perto do final das obras, começaram a reconstrução da Fonte.
O espaço, que não ultrapassa os duzentos metros, está a ficar interessante.
Que bom, pensei, e vai ter água? Que sim, disseram, já não da mina do Gás, mas da rede pública. Óptimo, disse eu para os meus botões, é que uma fonte sem água não tem qualquer serventia, como podemos ver por essa cidade fora, sendo a do Gás, mesmo ali à beira, um exemplo a reter.
Mas como em tudo, não há bela sem senão.
A Fonte, está a ser colocada de um modo estranho, pensei, e logo me pus a caminho a falar com os habitantes locais. Todos, sem excepção, foram de opinião que a Fonte está mal posicionada.
Acontece que a dita está de costas para a Foz e de frente para Nascente, em vez de, por exemplo, estar de costas para o rio e de frente para as casas e para as pessoas que ali passam.
Que ideia foi aquela de a colocar naquela posição? Ideia de Arquitectos, pensei, cuja visão é, normalmente, divergente da nossa, embora o não devesse ser. Alguém terá ouvido as gentes antes de elaborar os planos que acabaram por se concretizar? Houve consulta pública? Fizeram-se estudos prévios sobre estes pormenores?
Duvido!
E lá vamos nós ter de gramar com isto assim!
E já agora, onde param os tanques? E o “Respirad’ouro”?
Série Fotográfica da Praia e Estaleiro do Ouro, de há cerca de 40 anos, gentilmente cedida por Casimiro Calisto – NDMALO-GE
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Conversas em Surdina 11
Clarinete, Clarinando

