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MARRINER ECCLES, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também – 2. Textos Gerais de Marriner Eccles: 2.1. Testemunho de Marriner Eccles no Congresso em 24 de Fevereiro de 1933 (1/3)

A good many people believe Marriner Eccles is the only thing standing between the United States and disaster.” – TIME Magazine, 1936

Nota de editor:

Iniciámos no passado dia 1 de Fevereiro uma longa série – de mais de 50 textos – cuja última parte está ainda em preparação. Com o presente texto “Testemunho de Marriner Eccles no Congresso em 24 de Fevereiro de 1933”, damos início à publicação da 2ª parte – “2. Textos gerais de Marriner Eccles”-, que é composta por 6 textos.

Esta série é, desde logo, o resultado do labor incansável e da mais elevada competência do seu autor, Júlio Marques Mota, e, como o próprio refere, é um trabalho que leva mais de um ano em preparação e “não foi um trabalho fácil porque, partindo do zero quase absoluto, tivemos de andar a deambular de texto em texto, aceitando uns, rejeitando outros, de referência bibliográfica em referência bibliográfica, cruzando textos e referências bibliográficas”.

É com grande satisfação e orgulho que publicamos na língua portuguesa estes textos em torno das ideias e ações de Marriner Eccles, o mais brilhante de todos os Presidentes do Conselho de Governadores do FED nas palavras de Michael Pettis (e que fazemos nossas). Como diz Júlio Mota, “Marriner Eccles é um dos maiores símbolos intelectuais da oposição fundamentada feita contra os teóricos criadores de catástrofes e os seus vassalos” e cujas ideias e ação, segundo a Time referia em 1936, “protegeram a América do abismo. Trata-se de ideias que na primeira metade do século XX ajudaram a fazer da América um grande país, e que vão contra as ideias destes falcões monetaristas (…) que querem fazer da Europa um insignificante continente”. E como conclui Júlio Mota os “… tempos de ontem, afinal, não diferem muito dos tempos de hoje, a lembrar a frase de Peter Kenen: o mundo mudou muito, mas os problemas são os mesmos. Os problemas são os mesmos e os políticos, pelo que se vê, são também os mesmos. É exatamente isto que confere uma extrema atualidade aos textos que iremos apresentar em torno da obra de Marriner Eccles.”

Em virtude da extensão do presente texto, apresentá-lo-emos em 3 partes. 


Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

30 m de leitura

 

2. Textos Gerais de Marriner Eccles

2.1. Testemunho de Marriner Eccles no Congresso em 24 de Fevereiro de 1933 (1ª parte)

Audições perante o Comité de Finanças do Senado dos Estados Unidos (ver aqui)

72º Congresso

Segunda Sessão

Senate Resolution 315

Autorizando e ordenando ao Comité de Finanças para fazer uma investigação e estudo dos actuais problemas económicos dos Estados Unidos com vista a obter sugestões construtivas relativamente à solução de tais problemas

Comité de Finanças:

Reed Smoot, Utah, Presidente
James E. Watson, Indiana

David A. Reed, Pennsylvania

Samuel M. Shortridge, California

James Couzens, Michigan

Henry W. Keyes, New Hampshire

Hiram Bingham, Connecticut

Robert M. La Follette Jr., Wisconsin

John Thomas, Idaho

Jesse H. Metcalf, Rhode Island

Daniel O. Hastings, Delaware

Pat Harrison, Mississippi

William H. King, Utah

Walter F. George, Georgia

David. I. Walsh, Massachusetts

Alben W. Barkley, Kentucky

Tom Connally, Texas

Thomas P. Gore, Oklahoma

Edward P. Costigan, Colorado

Cordell Hull, Tennessee

 

 

Testemunho de Marriner Eccles, Presidente da First Security Corporation, Ogden, Utah (págs. 703)

 

___________________

 

Presidente. Senhor Eccles dê-nos o seu nome e morada para registo.

Sr. ECCLES. Marriner Eccles, Ogden, Utah.

Presidente: Tem interesses em instituições bancárias não apenas no Utah mas também em Idaho?

Sr. ECCLES. Sim.

Presidente. Pode começar, Sr. Eccles.

Sr. ECCLES. Deixem-me dizer desde já que não a estou a apresentar-me como representante de nenhuma classe ou grupo. Também não estou a sugerir medidas destinadas a ajudar a minha região do nosso país à custa de qualquer outra região. As ideias que apresentarei não foram obtidas através de contacto ou interesses em qualquer linha de ocupação privada ou pública. Acontece que tenho interesses nos seguintes negócios:

Presidente da First Security Corporation, proprietária e operadora de 26 bancos e 1 sociedade fiduciária nos principais pontos de Utah e também de Idaho, todos no território comercial da sucursal da Reserva Federal de Salt Lake. Recursos totais de aproximadamente $50.000.000. Nenhum destes bancos está a pedir dinheiro emprestado à Reconstruction Finance Corporation. A organização tem passado pelos efeitos de numerosas e importantes falências bancárias nas mesmas comunidades em que opera.

Vice-presidente e tesoureiro da Amalgamated Sugar Co., uma das grandes companhias de açúcar de beterraba dos Estados Unidos, produziu no ano passado 2.000.000 de sacos de açúcar.

Presidente da Sego Milk Products Co., envolvida na produção de leite evaporado, manteiga, queijo e gelado com fábricas nos estados de Utah, Idaho e Califórnia.

Presidente da Utah Construction Co., em grande parte envolvida na construção de caminhos-de-ferro, autoestradas e barragens, e uma das seis empresas que construíram a Barragem de Boulder.

Presidente da Stoddard Lumber Co., uma empresa de transformação de madeira de pinho no leste do Oregon, produzindo normalmente 30.000.000 pés por ano.

Diretor de 2 cadeias de comércio a retalho – a Anderson Lumber Co., proprietária e operadora de 14 estaleiros de madeira a retalho no norte de Utah e sul de Idaho; a Mountain States Implement Co., proprietária e operadora de um armazém grossista em Ogden e 10 lojas a retalho no norte de Utah e sul de Idaho.

Membro do Comité de Executivo de Ajuda do governador.

Director da filial de Salt Lake da Reconstruction Finance Corporation.

Menciono estes contactos apenas para rejeitar qualquer suposição de que as minhas opiniões se baseiam apenas em questões teóricas. Estou, no entanto, sem experiência política, nunca tendo ocupado um cargo político. Nem a minha política está inteiramente livre de manchas, uma vez que sou um dos muitos que no Outono passado se afastaram do seio [do partido] Republicano, embora com algumas reticências, porque senti que a liderança republicana não tinha agido com compreensão e coragem suficientes para remediar os males de que agora sofremos.

As medidas propostas por mim, embora mais abrangentes do que têm sido utilizadas até à data, baseiam-se em finanças públicas sólidas. Também não envolvem qualquer medida de inflação de produtos populares. Acredito que a adoção de qualquer uma das minhas sugestões ou de todas elas não enfraqueceria em nenhum grau o nosso sistema de padrão de ouro ou desvalorizaria o nosso dólar face ao ouro. Agora, já não tenho tanta certeza, já que preparei este artigo há uma semana, devido aos desenvolvimentos dos últimos dias. Estes estão, é claro, a mudar a situação relativamente ao nosso padrão de ouro, penso que muito, muito rapidamente. Penso que há uma boa quantidade de açambarcamento de ouro. E, claro, com o aumento da acumulação de moeda significa que 40% dessa quantidade deve ser reservada em ouro e torna-se inútil no que diz respeito ao seu valor no nosso sistema monetário.

PRESIDENTE. Suponho que sabe que houve acumulação de ouro com base na sua própria experiência.

Sr. ECCLES. Sim. Mas sobretudo por rumores.

Pelo contrário, estou firmemente convencido de que estas medidas iriam proteger e reforçar o bom dinheiro deste país e o seu padrão de ouro. As propostas que ofereço destinam-se todas a provocar, por acção governamental, um aumento do poder de compra por parte de todo o povo, resultando num volume imediato e crescente em todos os ramos de atividade com a consequente diminuição do desemprego e das dificuldades e o restabelecimento gradual do nosso rendimento nacional. Quando isto for conseguido, e não antes, poderá o Governo esperar equilibrar o seu Orçamento e o nosso povo recuperar o nível de vida a que a riqueza material deste país lhe dá direito.

Antes de se poder tomar medidas eficazes para travar os efeitos devastadores da depressão, há que reconhecer que a rutura do nosso atual sistema económico se deve ao fracasso da nossa liderança política e financeira em lidar inteligentemente com o problema do dinheiro. No mundo real, não há causa nem razão para o desemprego, com a consequente miséria e sofrimento de um terço de toda a nossa população. Temos toda e mais da riqueza material que tínhamos no auge da nossa prosperidade no ano de 1929. O nosso povo precisa e quer tudo o que as nossas abundantes instalações e recursos são capazes de lhes proporcionar. O problema da produção foi resolvido, e não precisamos de mais acumulação de capital para o presente, que só poderia ser utilizado para aumentar ainda mais as nossas instalações produtivas ou alargar mais os créditos estrangeiros. Temos uma estrutura económica completa capaz de fornecer uma superabundância não só de todas as necessidades do nosso povo, mas também do conforto e de produtos e serviços mais diferenciados. O nosso problema, portanto, torna-se meramente um problema de distribuição. Isto só pode ser conseguido através de um poder de compra suficientemente adequado para permitir ao povo obter os bens de consumo que nós, como nação, somos capazes de produzir. O sistema económico não pode servir nenhum outro propósito e esperar com isso sobreviver.

Se o nosso problema é então o resultado do não funcionamento adequado do nosso sistema monetário, o que hoje em dia é geralmente reconhecido, devemos então recorrer à consideração das medidas corretivas necessárias a serem tomadas nesse campo; caso contrário, só podemos esperar afundar-nos ainda mais no nosso dilema e angústia, com uma possível revolução, com a desintegração social, com o mundo em ruínas, com a rede das suas obrigações financeiras em pedaços, com a própria base da lei e da ordem estilhaçada. Sob tal condição, nada mais é possível do que uma sociedade primitiva. Difícil e lento seria então o processo de reconstrução, e só então poderia ser realizado na base de um novo sistema político, económico e social. Porquê arriscar uma tal catástrofe quando ela pode ser evitada por medidas agressivas na direção certa por parte do Governo?

Os nossos dirigentes políticos levaram demasiado tempo a tentar lidar inteligentemente com os nossos problemas, o que só pode ser enfrentado pela ação corajosa e forte do governo, juntamente com o apoio desinteressado, inteligente e cooperativo dos nossos dirigentes empresariais e financeiros, todo o esforço a ser estabelecido no interesse de todo o nosso povo. Na confusão louca e no medo causado pela nossa atual economia desordenada, precisamos mais do que em qualquer outro momento da nossa história de liderança corajosa e forte, pela razão de que a nossa evolução industrial tornou necessária uma nova filosofia económica, um novo ponto de vista empresarial e mudanças fundamentais no nosso sistema social. A economia do século XIX já não servirá o nosso propósito – uma era económica de 150 anos chegou ao fim. O sistema capitalista ortodoxo do individualismo descontrolado, com a sua livre concorrência, deixará de servir o nosso propósito. Devemos pensar em termos da era da máquina científica, tecnológica e interdependente, que só pode sobreviver e funcionar sob um sistema capitalista modificado controlado e regulado a partir do topo pelo governo.

O que eu disse poderia sem dúvida ser considerado académico, a menos que a sua discussão revele algumas propostas construtivas específicas para a solução dos nossos problemas imediatos, que exigem agora medidas de primeiros socorros devido ao facto de os que têm autoridade não terem agido mais cedo. Antes de apresentar e explicar em detalhe aquilo a que chamarei um “programa de cinco pontos”, é pertinente considerar o funcionamento do nosso mundo do dinheiro, como este deixou de ser um servidor no nosso mundo real e, em vez disso, é o nosso tirano e mestre.

O dinheiro não tem qualquer utilidade ou valor económico, excepto para servir como meio de troca. A inflação e a deflação são expressas no aumento e na diminuição do poder de compra do dinheiro, de que falamos como um dólar barato ou um dólar caro, de acordo com o que com ele se pode comprar. Atualmente, o nosso dólar é demasiado valioso medido em termos de bens e serviços, ou, inversamente, os bens e serviços são demasiado baratos medidos em dólares. Não fosse a nossa estrutura de endividamento, o dólar flutuante e instável não iria causar tal caos no nosso sistema económico. A nossa estrutura de dívida e crédito é o próprio fundamento da nossa sociedade capitalista e o nosso dólar instável resulta numa grande medida do funcionamento descontrolado deste sistema.

Poderíamos fazer negócio com base em qualquer valor em dólares desde que tivéssemos um equilíbrio razoável entre o valor de todos os bens e serviços se não fosse pela estrutura da dívida. A estrutura da dívida tem as suas atuais proporções astronómicas devido a uma distribuição desequilibrada da produção de riqueza, medida em poder de compra durante os nossos anos de prosperidade. Demasiada proporção do produto do trabalho foi desviada para bens de capital, e como resultado o que parecia ser a nossa prosperidade foi mantido numa base de crédito anormal, tanto no país como no estrangeiro. Chegou o momento em que parecíamos atingir um ponto de saturação na estrutura de crédito onde, em geral, o crédito adicional já não estava disponível, com o resultado de que os devedores eram obrigados a reduzir o seu consumo, num esforço para criar uma margem a aplicar sobre a redução das dívidas. Isto reduziu naturalmente a procura de bens de todos os tipos, provocando o que parecia ser sobreprodução, mas o que na realidade era um subconsumo medido em termos do mundo real e não do mundo do dinheiro. Isto provocou naturalmente uma queda nos preços e desemprego. O desemprego diminuiu ainda mais o consumo de bens, o que aumentou ainda mais o desemprego, provocando assim um declínio contínuo dos preços. Os ganhos começaram a desaparecer, exigindo economias de todos os tipos – reduções nos retribuições, salários e tempo dos empregados.

E assim o ciclo vicioso da deflação continuou até que, após quase quatro anos, encontramos um terço de toda a nossa população ativa desempregada, com os preços de tudo muito reduzidos, produtos brutos de todos os tipos a venderem-se a um nível baixo sem precedentes; o nosso rendimento nacional foi reduzido em 50% com o peso agregado da dívida maior do que nunca, não em dólares mas medido pelos valores atuais que representam a capacidade de pagamento; encargos fixos, tais como impostos , tarifas de caminho-de-ferro e de serviços públicos, encargos com seguros e juros próximos do nível de 1929 e exigindo uma tal parcela do rendimento nacional para os satisfazer que o montante deixado para os bens de consumo não é suficiente para sustentar a populações.

 

Senador WALSH de Massachusetts. Esta é uma boa declaração.

Sr. ECCLES. Como resultado desta pressão, ouvimos pedidos de aumento das poupanças em todos os domínios, tanto públicos como privados, que só podem contribuir para mais dificuldades e desemprego e menos poder de compra. A estrutura da dívida, apesar da grande quantidade de liquidação durante os últimos três anos, está a tornar-se rapidamente insuportável, com o resultado de execuções hipotecárias, liquidações e falências estarem a aumentar em todos os campos; os impostos não pagos estão a aumentar e a forçar o encerramento de escolas, quebrando assim o nosso sistema educativo e recorre-se a todo o tipo de moratórias – tudo isto resultando numa quebra constante e gradual de toda a nossa estrutura de crédito, o que só pode trazer mais dificuldades, medo, rebelião e caos. Indivíduos, empresas, cidades e Estados não podem, por si sós, fazer nada, exceto atuar de acordo com as regras do atual sistema monetário e fazer com que as suas despesas se equilibrem com os seus rendimentos, ou, então, “falirem”. A maioria deles é incapaz, por muito que deseje, de considerar ajudar a situação geral, exceto se podem influenciar a ação do Governo Federal, que se encontra numa categoria completamente diferente, sendo capaz de fazer e alterar as regras do jogo.

O Governo controla as reservas de ouro, o poder de emitir dinheiro e crédito, regulamentando assim em grande parte a estrutura de preços. Através do seu poder de tributação, pode controlar a acumulação e distribuição da produção de riqueza. Pode mobilizar os recursos da Nação em benefício do seu povo. Como exemplo de controlo e funcionamento do sistema económico pelo Governo, olhem para o período da guerra, altura em que, sob a direção do Governo, fomos capazes de produzir o suficiente e apoiar não só toda a nossa população civil num nível de vida muito superior ao atual, mas também um imenso exército dos nossos trabalhadores mais produtivos que estavam envolvidos no negócio dos parasitas de guerra no sistema económico, consumindo e destruindo grandes quantidades produzidas pela nossa população civil; também fornecemos aos aliados um fluxo infinito de materiais de guerra e bens de consumo de todos os tipos. Parecia que estávamos enriquecidos com o desperdício e destruição da guerra. Certamente não estávamos empobrecidos, porque não consumíamos nem desperdiçávamos, exceto o que produzíamos. De facto, consumimos e desperdiçámos menos do que produzimos, como o demonstram a expansão das nossas fábricas e instalações durante a guerra e os bens que fornecemos aos nossos aliados. A dívida contraída pelo Governo durante a guerra representa o lucro que se acumulou para certas parcelas da nossa população através do funcionamento do nosso sistema económico. Nenhuma dívida do Governo teria sido necessária e nenhuma grande inflação de preços teria resultado se tivéssemos canalizado para o Tesouro Federal através da tributação, todos os lucros e poupanças acumulados durante a guerra;

 

Senador WALSH, de Massachusetts: Outra boa declaração.

Sr. ECCLES. … nesse caso, não teria sido necessário utilizar o crédito governamental para abastecer os nossos aliados com o fluxo infinito de bens que lhes fornecemos e não estaríamos agora preocupados com o problema das vexações da dívida interaliados.

Porque foi que durante a guerra, quando não havia depressão, não insistimos em equilibrar o Orçamento através de uma tributação suficiente dos nossos rendimentos excedentários, em vez de utilizarmos o crédito do Governo no montante de 27 mil milhões de dólares? Porque não ouvimos falar da necessidade de equilibrar o Orçamento Federal para manter o crédito do Governo quando tínhamos um défice de $9 mil milhões em 1918 e de $13 mil milhões em 1919? Por que razão não havia desemprego nessa altura e uma quantidade de dinheiro insuficiente como meio de troca? Como foi que com menos mil milhões de ouro do que temos agora não estávamos preocupados com o nosso sistema padrão de ouro?

Senador WALSH de Massachusetts. Porque nós lidámos com vidas humanas e não com o dinheiro.

Sr. ECCLES. É isso mesmo. Como foi assim que durante o período de prosperidade após a guerra fomos capazes, apesar do que se chama a nossa extravagância – que não foi de todo extravagância; poupámos demasiado e consumimos demasiado pouco – como é que conseguimos equilibrar um Orçamento anual de 4 mil milhões de  dólares, pagar dez mil milhões da dívida do Governo, fazer quatro grandes reduções nas nossas taxas de imposto sobre o rendimento (caso contrário, toda a dívida do Governo teria sido paga), estender o crédito de 10 mil milhões de dólares a países estrangeiros representados pela nossa produção excedentária que enviámos para o estrangeiro, e acrescentar aproximadamente 100 mil milhões de dólares por acumulação de capital à nossa riqueza nacional, representada por fábricas, equipamentos, edifícios, e construções de todo o tipo? À luz deste registo, será consistente para a nossa liderança política e financeira exigir neste momento um Orçamento equilibrado através da criação de um imposto geral sobre as vendas, reduzindo ainda mais o poder de compra do nosso povo? Será necessário conservar o crédito do Governo ao ponto de proporcionar uma existência de fome a milhões do nosso povo, numa terra de superabundância? Será a procura universal da economia do Governo consistente neste momento? Será a atual falta de confiança devida a um Orçamento desequilibrado?

O que interessa ao público e aos homens de negócios deste país é um renascimento do emprego e do poder de compra. Isto restauraria automaticamente a confiança e aumentaria os lucros até um ponto em que o Orçamento seria automaticamente equilibrado da mesma forma que o orçamento individual, empresarial, estatal e municipal seria equilibrado.

Senador WALSH de Massachusetts. Não seria equilibrado de imediato; seria equilibrado no futuro.

Sr. ECCLES. Estou a dizer que quando isso fosse feito, seria automaticamente equilibrado como com um indivíduo ou uma empresa, porque se cria então a fonte de riqueza pelo trabalho e emprego, que é a única fonte de riqueza.

Senador WALSH de Massachusetts. Aumentaria os impostos ou pediria emprestado o dinheiro necessário para cobrir agora o défice entre as receitas e as despesas?

Sr. ECCLES. Respondo a isso mais tarde.

Senador WALSH de Massachusetts. Obrigado.

Sr. ECCLES. Temos de corrigir as causas da depressão em vez de lidar com os seus efeitos, se esperamos obter a recuperação com a concomitante confiança e equilíbrio orçamental. Isto só pode ser conseguido através de uma acção governamental tendente a aumentar o nível de preços das matérias-primas e a aumentar o emprego, provocando assim um aumento da procura dos bens de consumo.

Senador SHORTRIDGE da California. Esse é exatamente o ponto a que gostaria que chegasse.

Sr. ECCLES. Chegarei a isso mais tarde.

Senador SHORTRIDGE da California. Muito bem.

Sr. ECCLES. Têm sido feitos todos os esforços para o conseguir pela Reconstruction Finance Corporation e pelos bancos da Reserva Federal sem resultados, demonstrando que a extensão do crédito por si só não é a solução. O crédito é a ofensiva secundária quando existe uma base de crédito através do aumento do nível de preços e um aumento da procura de bens que necessitam de crédito. A correção das nossas atuais dificuldades também não se encontra numa redução geral das dívidas, num esforço para as colocar em relação aos atuais níveis de preços. Durante os últimos três anos, tem havido uma liquidação e uma redução tão tremenda das dívidas que tiveram de ser tomadas medidas extraordinárias para evitar um colapso geral da estrutura de crédito. Se tal política for prosseguida, que garantia existe de que as influências irradiadas de uma redução dos créditos dos credores não resultarão numa nova descida dos preços? Por outras palavras, depois de termos reduzido todas as dívidas através de uma base de redução de 25% a 50%, que razão temos nós para esperar que os preços não sofram uma nova descida no mesmo montante? E, mais uma vez, as dificuldades práticas de realizar tal ajustamento em larga escala parecem ser intransponíveis.

O elemento tempo requerido por isso prolongaria indefinidamente a depressão; tal política exigiria uma liquidação adicional de bancos, companhias de seguros e todas as instituições de crédito, pois se as obrigações dos organismos públicos, empresas e indivíduos fossem sensivelmente reduzidas, os ativos de tais instituições diminuiriam de forma correspondente, forçando a sua liquidação em grande escala. Nada impediria assim qualquer possibilidade de recuperação. As falências bancárias e de seguros destroem a confiança e espalham o desastre e o medo pelo mundo económico. O atual volume de dinheiro diminuiria com o aumento do açambarcamento e a diminuição do crédito e da sua velocidade, fazendo aumentar a deflação e exigindo um maior apoio governamental sem resultados benéficos até sermos forçados a abandonar o padrão-ouro, apesar das nossas reservas que representam 40% do ouro mundial, e, nesse momento, resultaria provavelmente uma inflação indesejável e possivelmente descontrolada com todos os males que a acompanham, e assim a própria ação destinada a preservar o padrão-ouro e a restabelecer a confiança destruiria ambos.

Na minha opinião, podemos criar e apoiar um nível de preços que restabeleça o emprego e o crédito numa base de dinheiro sólido, se a ação não for demasiado morosa por parte do nosso Governo. Os últimos 10 dias mudaram a situação. Não estou tão certo como há uma ou duas semanas atrás se o podemos fazer com base no ouro ou não.

Senador SHORTRIDGE. O senhor refere-se à ação do Governo. Vai falar disso, suponho eu?

Sr. ECCLES. Sim. Tenho aqui cinco pontos para me explicar.

Senador SHORTRIDGE. O que é que faria exatamente?

Sr. ECCLES. Sim, senhor. Os preços baixos atuais não se justificam pelo volume da nossa moeda em circulação e depósitos bancários, o agregado dos dois que compõem o nosso volume total de dinheiro. É devido ao açambarcamento tanto por indivíduos como pelos bancos que existe uma aparente escassez de dinheiro e, consequentemente, há uma grande pressão, por efeito do aumento da procura da nossa moeda, para gerar a sua inflação [n.t. aqui significa o aumento da massa monetária], para a remonetização da prata, ou para a redução do conteúdo em ouro do dólar.

Senador WALSH de Massachusetts. Estes são os dois métodos de deflação que sugere?

O PRESIDENTE. Sim; mas ele faz em referência ao açambarcamento pelos bancos e indivíduos.

Sr. ECCLES. É devido ao açambarcamento tanto por indivíduos como pelos bancos que existe uma aparente escassez de dinheiro e, consequentemente, há uma grande procura da inflação da nossa moeda, da remonetização da prata, ou da redução do teor em ouro do dólar com a ideia de que qualquer um dos três métodos aumentaria o nosso volume de dinheiro e, consequentemente, aumentaria os preços, aliviando os devedores e trazendo prosperidade. Nenhum destes três métodos, na minha opinião, alcançaria os resultados desejados, a menos que fosse previsto um método para obter o aumento da oferta de dinheiro para o consumidor final.

Não faz qualquer diferença que tipo de inflação, se a inflação for adotada – pode imprimir dinheiro, pode remonetizar a prata, pode reduzir o conteúdo de ouro do dólar e não vai aumentar o seu nível de preços, a menos que comece a criar poder de compra na fonte com o consumidor.

Senador WALSH de Massachusetts. A menos que esteja amplamente dispersa e se movimente com rapidez.

Sr. ECCLES. Sim.

Porquê recorrer à inflação do tipo referido quando os preços podem ser aumentados e os negócios revividos com base no nosso atual sistema monetário? Atualmente, temos quase mil e quinhentos milhões de moeda a mais do que tínhamos no pico de 1929, e sob o nosso atual sistema monetário podemos aumentá-lo de vários milhares de milhões sem recorrer a nenhuma das três medidas inflacionistas popularmente defendidas. Há dinheiro suficiente disponível no atual sistema para ajustar adequadamente a nossa atual estrutura de preços. A nossa estrutura de preços depende mais da velocidade do dinheiro do que do volume. Esta velocidade é medida pela rotação anual dos depósitos bancários ou pelo que se designa por “débitos bancários” que representam os cheques emitidos. Noventa por cento das nossas transações é liquidada pelo cheque bancário; a moeda, aumentada pela prata, é normalmente utilizada em grande parte como moeda de bolso e representa 10%; o ouro é mantido em bancos de reserva para suportar a nossa moeda.

Em 1929, o elevado nível de preços foi suportado por uma velocidade de crédito correspondente. O último Boletim da Reserva Federal dá uma imagem esclarecedora desta relação, como mostram os números de todos os bancos membros. De 1923 a 1925, a rotação dos depósitos flutuou de 26 a 32 vezes por ano. Do Outono de 1925 a 1929, a rotação subiu para 45 vezes por ano. Em 1930, com os depósitos ainda a aumentar, a rotação diminuiu no final do ano para 26 vezes. Durante o último trimestre de 1932, a rotação baixou para 16 vezes por ano. Note-se que do elevado nível de preços de 1929 para o baixo nível do atual, esta rotação diminuiu de 45 para 16, ou 64%. E, note-se, 90 por cento de todos os negócios são feitos com cheques bancários, o que representa a sua velocidade.

Senador WALSH de Massachusetts. E os números, se os conseguíssemos obter, para Janeiro e Fevereiro mostrariam um declínio ainda maior.

ECCLES. Sim; mostrariam um declínio muito mais acentuado.

Senador GORE. E em 1929 a rotação foi de 45 vezes?

Sr. ECCLES. Sim.

Senador GORE. Mas em Nova Iorque, a rotação foi de mais de 150 vezes.

Sr. ECCLES. Estou a tomar o país como um todo. Varia com diferentes partes do país.

Senador GORE. Sim.

Sr. ECCLES. Embora durante o mesmo período o volume de dinheiro representado pelo total de depósitos bancários e moeda tenha diminuído aproximadamente 22 por cento. É evidente, portanto, que a velocidade, e não a quantidade de dinheiro, suporta a estrutura de preços e que o nosso problema hoje não é o de aumentar o volume de dinheiro, mas sim a sua velocidade.

Senador WALSH de Massachusetts. Mas, de facto, aumentámos o volume ou a moeda.

Sr. ECCLES. Sim; a moeda, mas o total de moeda e depósitos bancários é 22 por cento inferior ao de 1929.

Senador GORE. Mas só a moeda é cerca de 25 ou 30 por cento mais.

Sr. ECCLES. Sim; mas não está a funcionar. Alguma dela está a ser acumulada. 

Senador WALSH de Massachusetts. Que número apresentou, Senador?

Senador GORE. Vinte e cinco por cento.

Sr. ECCLES. Não; a moeda é mais do que isso, hoje em dia. A moeda do dia-a-dia é cerca de 30% mais.

PRESIDENTE. Então os depósitos bancários devem ser menores.

Sr. ECCLES. Os depósitos bancários são possivelmente menos 30 por cento, ou entre 25 e 30 por cento. Os 22 por cento representam a combinação do volume de moeda e depósitos bancários. Os depósitos são mais de 22 por cento menos.

PRESIDENTE. Foi o que eu disse.

Sr. ECCLES. E a moeda é 30 por cento mais. Fazendo a média de 22 por cento. Vários fatores impedem hoje o aumento da velocidade do nosso dinheiro.

Repito que há muito dinheiro hoje em dia para permitir uma normalização dos preços, mas o principal problema é que está no lugar errado; está concentrado nos maiores centros financeiros do país, as instituições credoras, deixando uma grande parte do país para trás, ou as regiões devedoras, esgotadas e fazendo parecer que há uma grande escassez de dinheiro e que, por isso, é necessário que o Governo imprima mais. Esta má distribuição da nossa oferta monetária é o resultado da relação entre as regiões devedoras e credoras – tal como a relação entre esta como nação credora e outra como nação devedora – e o desenvolvimento das nossas indústrias em vastos sistemas concentrados nos centros maiores. Durante o período da depressão, as regiões credoras agiram no nosso sistema como uma grande bomba de sucção, sacando uma grande parte dos rendimentos e depósitos disponíveis no pagamento de juros, dívidas, seguros e dividendos, bem como na transferência de saldos pelas grandes empresas normalmente trazidas de todo o país. Isto faz com que haja falta de fundos nas áreas agrícolas e um excesso de fundos nas cidades.

Durante o nosso período de prosperidade, os fundos fluíam das regiões credoras para as regiões devedoras pela concessão de novos créditos e expansão de capital tão rapidamente ou mais rapidamente do que eles daí saíam. Não há forma de reavivar o fluxo de retorno através da operação de crédito ou de investimento enquanto não haja uma base para o crédito, graças a um nível de preços mais elevado e até que haja uma oportunidade de lucro através de mais investimento de capital. As áreas agrícolas durante os períodos de prosperidade não partilharam a sua parte do rendimento nacional e isto fez com que houvesse uma maior concentração de dinheiro nas regiões credoras, com uma parte demasiado grande das nossas dívidas agregadas nas áreas agrícolas. Isto explica a razão de um maior colapso financeiro, tal como demonstrado pelo registo de falências bancárias em todo o país, representado em grande parte nas zonas agrícolas.

O desajustamento referido deve ser corrigido antes de se poder estabelecer a velocidade necessária do dinheiro. Não vejo qualquer forma de corrigir esta situação, exceto através de uma ação governamental.

Estima-se que um terço da nossa população está dependente da agricultura nas suas variadas formas e reconhece-se que a prosperidade é impossível sem um renascimento do poder de compra da nossa população agrícola. Para que a retoma das atividades económicas atinja a média do período pós-guerra, tenho de sugerir cinco pontos como medidas de primeiros socorros destinadas a criar a situação de retoma da economia. Devem ser tomadas imediatamente medidas com referência a estes pontos. E os pontos são os seguintes:

Primeiro. Disponibilizar como doação aos Estados numa base per capita $500 milhões de dólares a serem utilizados durante o orçamento deste ano para ajudar a cuidar adequadamente dos pobres e desempregados, enquanto se aguarda o relançamento da atividade económica que deverá resultar do programa que passo a expor.

Senador WALSH de Massachusetts. Isso é um donativo ou um empréstimo?

ECCLES. Vou falar disso. Estou primeiro a delineá-los e depois analiso cada ponto individualmente em detalhe.

Senador GORE . Aprovámos uma lei no outro dia em que, entre outras coisas, demos ao Distrito de Columbia 600.000 dólares. Agora estão a pedir mais 200.000 dólares. Eu estava a falar com o chefe da contabilidade comunitária desta cidade e ele disse que os representantes que distribuem este fundo vieram aqui ao Congresso e fizeram lobby e receberam esses $600.000 sem nunca lhe perguntarem nada sobre isso; sem sequer receberem uma estimativa das despesas. Ontem, dois senadores aconselharam os comissários distritais a entregar um pedido de mais 250.000 dólares. E eles vão fazê-lo, e vão obtê-lo. Não há nenhum fim para este peditório.

Senador SHORTRIDGE. Sugeriu um fundo de $500 milhões?

Senador WALSH de Massachusetts. Gostaria que nos lesse de novo essa primeira sugestão.

Sr. ECCLES. Primeiro. Disponibilizar como donativo aos Estados numa base per capita $500 milhões a serem utilizados durante o orçamento deste ano para ajudar a cuidar adequadamente dos pobres e desempregados, enquanto se aguarda o relançamento da atividade económica que deverá resultar do programa que passo a expor

Segundo. Aumentar o montante dos fundos governamentais –

Senador WALSH de Massachusetts. Voltará a uma discussão sobre esse primeiro ponto quando terminar de apresentar os cinco pontos a que se referiu?

Sr. ECCLES. Sim.

Segundo. Aumentar o montante dos fundos governamentais para dois e meio mil milhões de dólares, e mais se necessário, para projetos autoliquidáveis, isto é, capazes de gerar rendimentos necessários para o seu reembolso, e conceder empréstimos a cidades, condados e Estados para obras públicas numa base liberal, a uma taxa de juro baixa.

Senador WALSH de Massachusetts. De quanto é essa quantidade?

Sr. ECCLES. Dois e meio mil milhões de dólares.

Senador GORE. Aprovámos no outro dia um projecto de lei que elimina a característica de autoliquidação. Sabe-se que ao começar isto não se pára. Fica cada vez pior e pior.

Sr. ECCLES. Terceiro. A adoção do plano de atribuição nacional ou um plano semelhante, concebido para regular a produção e aumentar os preços.

Quarto. O refinanciamento das hipotecas agrícolas a longo prazo a uma taxa de juro baixa.

Quinto. A liquidação permanente das dívidas interaliados numa base económica sólida, sendo preferível o seu cancelamento.

Senador SHORTRIDGE. O quê! Cancelar todas essas dívidas?

Sr. ECCLES. Voltarei a isso muito rapidamente.

Senador SHORTRIDGE. Bem, prossiga.

 

(continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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