Nota de editor:
É com enorme emoção e entusiasmo que continuamos o projeto iniciado em Fevereiro de 2022 com a publicação da série Marriner Eccles, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também.
Esta segunda parte – Marriner Eccles, os New Dealers e a criação das Instituições de Bretton Woods – representa, para além de um intenso e complexo trabalho de meses, o preenchimento de uma lacuna: o papel de Marriner Eccles “no estabelecimento dos acordos de Bretton Woods”. Poderíamos dizer que o preenchimento dessa lacuna com esta segunda série, sobre Bretton Woods, nos leva mais longe: faz luz sobre matérias pouco conhecidas, ou mesmo desconhecidas, do público leitor português, nomeadamente o papel desempenhado por protagonistas como Harry D. White, John Keynes e o secretário do Tesouro Morgenthau e do próprio Marriner Eccles, as circunstâncias que rodearam a criação das instituições de Bretton Woods, o seu desempenho e a sua queda, as posteriores acusações, nunca provadas, de espionagem a Harry White, a extraordinária proposta de Harry White feita em 1948, e que a direção do FMI então desvalorizou, para a criação de um instrumento cuja necessidade foi somente reconhecida 21 anos mais tarde, com a criação dos Direitos Especiais de Saque. Esta série termina com as interrogações que se colocam para uma nova ordem monetária internacional.
É pois com orgulho que iniciamos hoje a publicação da série Marriner Eccles, os New Dealers e a criação das Instituições de Bretton Woods que tudo deve ao seu autor, à sua infinita curiosidade, ao seu conhecimento, à sua persistência, o Júlio Marques Mota.
FT
3 min de leitura
Introdução
Coimbra, em 21 de Julho de 2022
Meus caros
Como referi na introdução à série Marriner Eccles, um homem muito à frente do seu tempo (anos 30) e do nosso também (ver 01/02/2022 e 02/02/2022), quando a série estava pronta para publicação apercebi-me, pela leitura do texto de Spencer Eccles, a propósito do 70º aniversário dos acordos de Bretton Woods (sétimo texto do primeiro capítulo da série), “que tínhamos uma lacuna na série: não se apresentava informação sobre o papel de Marriner Eccles no estabelecimento dos acordos de Bretton Woods, salvo a breve referência naquele texto”. Com o objetivo de obtermos mais detalhes, contactámos num primeiro momento Spencer Eccles e Lisa Eccles, de que não obtivemos resposta. Em 23 de Janeiro de 2022, enviámos a uma mensagem a Randal Quarles (casado com Hope Eccles e genro de Spencer F. Eccles que era sobrinho de Marriner Eccles), recém aposentado vice-presidente da Reserva Federal, solicitando a sua ajuda no preenchimento desta lacuna. Randal Quarles mostrou a maior disponibilidade, afirmando sentir-se honrado ele e a sua família por este nosso trabalho, e apresentado várias sugestões que foram da maior utilidade no aprofundamento e consecução da série de que hoje iniciamos a publicação. Esta correspondência, assim como a que ocorreu posteriormente em Fevereiro e Março de 2022, será publicada logo a seguir a esta introdução.
Assim, vamos continuar os nossos trabalhos sobre Marriner Eccles com a edição de série de textos que designaremos Marriner Eccles, os New Dealers e a criação das Instituições de Bretton Woods, de onde saem as Instituições fundamentais para a reorganização de um mundo sem guerra, FMI e Banco Mundial. Sabendo que Marriner Eccles foi peça importante mas de que escasseiam os registos procurámos sobretudo captar o espírito daqueles homens que sonharam um mundo de paz num mundo em guerra. Para a criação partimos quase que do nada, diríamos como qualquer estudante que tem umas ideias vagas sobre as referidas Instituições Multilaterais. Contámos com o precioso apoio de Randal Quarles, casado com uma neta de Marriner Eccles e vice-governador do Federal Reserve entre 2017 e 2021, de Benn Steidl, do Council on Foreign Relations, e de James Bougthon, um ex-alto funcionário do FMI. A todos eles apresentamos publicamente os nossos agradecimentos.
Para se ter ideia sobre o longo trabalho de meses aqui vos deixo a correspondência trocada com Randal Quarles, quando ainda andávamos às apalpadelas sem saber bem o que fazer. Com a edição da troca desta correspondência ilustra-se igualmente o profundo envolvimento havido na elaboração desta série que, na impossibilidade de obter os registos de Marinner Eccles em Bretton Woods ( há apenas afirmações dispersas, mesmo que algumas tenham sido de muito peso) procurámos então captar o espírito daquela época, daquela reunião de 15 dias com mais de uma centena de delegados, de gente que se esforçou contra os nacionalismos ao erguer uma barreira contra estes através destas duas organizações multilaterais.
O que se passou depois é toda uma outra história, como é toda uma outra história que o pai do FMI, Harry White, tenha sido acusado de estar a favorecer os russos (que não ratificaram o Acordo) e a ser acusado de traição (nunca provado como afirma o especialista James Boughton), como é toda uma outra história que quatro anos depois, (1948) Harry White tenha proposto uma reformulação dos Estatutos que basicamente levariam, muito possivelmente, à criação dos Direitos de Saque Especiais que foram introduzidos cerca de 20 anos depois.
Poderíamos até acrescentar que, nessa altura, Bretton Woods era uma espécie de luz forte sobre a economia num mundo destruído pela guerra e fragmentado por antagonismos nacionais. A história foi feita ali, e é um pouco desta história que o conjunto de textos escolhidos se destina a explicar ao leitor português.
Esta série sobre Bretton Woods é constituída por uma introdução e por cinco capítulos:
Introdução
a) Carta ao sobrinho de Marriner Eccles, Mr. Spencer F. Eccles, 21 de Dezembro de 2021
b) Troca de correspondência com Randal Quarles de 23 e 25 de Janeiro de 2022
c) Carta a Randal Quarles de 22 Fevereiro de 2022
d) Troca de correspondência com Randal Quarles em 7 e 27 de Março de 2022
Parte I – Nos enredos do obscurantismo americano dos anos 40- o problema da espionagem
Parte II – Em torno de Bretton Woods
Parte III – Keynes versus Harry White
Parte IV – Reflexões sobre Bretton Woods
Parte V – Sobre um novo Bretton Woods.
No início de cada parte enunciaremos os textos que a compõem.
E espero que fiquem como nós ficámos; com o sentimento de que aprendemos bastante sobre aquela época, sobre o que pensavam aqueles homens, sobre um mundo todo ele a reconstruir e sobre os obstáculos criados e vencidos até se chegar ao Acordo Final. E ficámos com uma triste certeza: hoje não temos homens daqueles, o que é pena, muita pena.



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