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A Guerra na Ucrânia — Condicionados através de lavagem ao cérebro para a guerra com a Rússia. Por Ray McGovern

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

10 m de leitura

Condicionados através de lavagem ao cérebro para a guerra com a Rússia [*]

[*] O título do artigo original publicado em AntiWar.com é “Brainwashed for War With Russia”. Consortium News adotou um título diferente, menos duro: “Conditioned for War With Russia”.

 

 Por Ray McGovern

Republicado por em 22 de Setembro de 2022 (ver aqui)

Publicado originalmente por   em 22 de Setembro de 2022 (ver aqui)

 

Ray McGovern revê antecedentes chave do contexto que – graças aos meios de comunicação social – poucos americanos conhecem sobre a guerra mais vasta dos últimos 77 anos que está agora à nossa porta.

 

16 de Janeiro de 2017: Joe Biden, vice-presidente dos EUA, viajando para Kiev. (Embaixada dos E.U.A. em Kyiv, Flickr)

 

Graças aos meios de comunicação social do poder estabelecido, os aprendizes de feiticeiros que aconselham o Presidente Joe Biden – refiro-me ao Secretário de Estado Antony Blinken, ao Conselheiro de Segurança Nacional Jacob Sullivan e ao especialista chinês Kurt Campbell – não terão nemhum problema em juntar os americanos para a guerra mais vasta dos últimos 77 anos, começando na Ucrânia, e talvez espalhando-se pela China. E, chocantemente, sob falsos pretextos.

A maioria dos americanos desconhece a realidade de que os meios de comunicação ocidentais são propriedade e operados pelas mesmas empresas que obtêm lucros maciços ajudando a fomentar pequenas guerras e depois a vender as armas necessárias.

Líderes empresariais e elites das grandes escolas, educados para acreditar no “excepcionalismo” dos EUA, acham o lucro e a glória demasiado vantajosos para serem capazes de pensar direito. Enganam-se a si próprios a pensar que (a) os EUA não podem perder uma guerra; (b) a escalada pode ser calibrada e uma guerra mais vasta pode ser limitada à Europa; e (c) pode esperar-se que a China se limite a ficar à margem. A atitude, consciente ou inconscientemente, é “não se preocupem. E, em qualquer caso, o lucro e a glória valem o risco”.

Os meios de comunicação social também sabem que podem sempre recorrer a inveterados Russofóbos para “explicar”, por exemplo, porque é que os russos são “quase geneticamente levados” a fazer o mal (James Clapper, antigo director dos serviços secretos nacionais e agora contratado como perito na CNN); ou Fiona Hill (antiga oficial dos serviços secretos responsável pela Rússia), que insiste “Putin quer expulsar os Estados Unidos da Europa … Como ele poderia dizer: ‘Adeus, América. Não deixem que a porta vos bata à saída’”.

A não haver um miraculoso aparecimento de cabeças mais claras com uma atitude menos míope em relação aos interesses centrais da Rússia na Ucrânia, e da China em Taiwan, os historiadores que sobreviverem para registar a guerra agora à nossa porta irão descrevê-la como o resultado da arrogância e da estupidez incontroladas. Os historiadores objectivos poderão mesmo notar que um dos seus colegas – o Professor John Mearsheimer – o conseguiu ver desde o início, quando explicou na edição do Outono de 2014 do Foreign Affairs “Porque razão a crise ucraniana é culpa do Ocidente“.

A historiadora Barbara Tuchman abordou o tipo de situação que o mundo enfrenta na Ucrânia no seu livro A Marcha da Insensatez: De Tróia ao Vietname. (Se ela tivesse vivido, certamente que a teria actualizado para ter em conta o Iraque, o Afeganistão, a Síria e a Ucrânia). Tuchman escreveu:

A forte teimosia … desempenha um papel extraordinariamente grande no governo. Consiste em avaliar uma situação em termos de noções fixas pré-concebidas, ignorando ou rejeitando quaisquer sinais contrários. Age de acordo com os desejos, não se deixando desviar pelos factos“.

 

‘Nyet significa Nyet’ [Não significa Não] – Seis anos de lavagem ao cérebro (e continua)

Graças aos meios de comunicação social dos EUA, uma percentagem muito pequena de americanos sabe que:

 

Junho de 2014: Da esquerda para a direita: John Kerry, Secretário de Estado dos EUA, Petro Poroshenko, Presidente da Ucrânia, Embaixador dos EUA na Ucrânia Geoffrey Pyatt Pyatt e Victoria Nuland, Secretária de Estado Adjunta para os Assuntos Europeus e Eurasiáticos. (Departamento de Estado)

 

Veículos blindados de um regimento dos EUA entram na cidade romena de Brasov, 14 de Maio de 2015. (NATO)

 

 

7 de Dezembro de 2021: O Presidente dos Estados Unidos Joe Biden, no ecrã durante uma videochamada com o Presidente russo Vladimir Putin. (Kremlin.ru, CC BY 4.0, Wikimedia Commons)

 

 

Não provocado?

Os Estados Unidos insistem que a invasão feita pela Rússia foi “não provocada”. Os meios de comunicação social do establishment regurgitam devidamente essa linha, ao mesmo tempo que mantêm os americanos na ignorância sobre os factos (e não sobre opiniões) tais como foram descritos (e as fontes) acima. A maior parte dos americanos são tão aldrabados pelos media como o foram há 20 anos atrás, quando lhes foi dito que havia armas de destruição em massa no Iraque. Simplesmente aceitaram-no com fé. Nem os meios de comunicação social culpados expressaram remorsos – ou um mínimo de embaraço.

O falecido Fred Hiatt, que foi redator de opinião no The Washington Post, é um bom exemplo. Numa entrevista com The Columbia Journalism Review [CJR, Março/Abril de 2004], comentou: “Se olharmos para os editoriais que escrevemos antes [da guerra], afirmámos como facto comprovado que ele [Saddam Hussein] tem armas de destruição em massa. … Se isso não for verdade, teria sido melhor não o dizer“.

(O meu mentor de jornalismo, Robert Parry, tinha isto a dizer sobre a observação de Hiatt. “Sim, esse é um princípio comum do jornalismo, que se algo não é real, não é suposto declararmos com confiança que o é“).

Agora é pior. A Rússia não é o Iraque. E Putin tem sido tão diabolizado durante os últimos seis anos que as pessoas estão inclinadas a acreditar que, como James Clapper, há algo genético que torna os russos maus. “Russia-gate” foi um grande golpe (e, agora, assim é demonstrado), mas os americanos também não sabem disso. As consequências da diabolização prolongada são extremamente perigosas – e tornar-se-ão ainda mais nas próximas semanas à medida que os políticos lutarem para serem os mais fortes na oposição e no combate ao ataque “não provocado” da Rússia à Ucrânia.

 

O Problema

O humorista Will Rogers tinha razão: “O problema não é o que as pessoas sabem. É o que as pessoas sabem que não é verdade; esse é o problema“.

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O autor: Ray McGovern [1939-] é um antigo agente analista da CIA que se tornou ativista. Durante a sua carreira de 27 anos (1963-1990) como analista da CIA ele foi serviu como chefe do ramo da política externa soviética e nos anos de 1980 como preparador do Resumo Diário do Presidente. Recebeu a Medalha de Comenda da Inteligência na sua reforma, devolvendo-a em 2006 para protestar contra o envolvimento da CIA em torturas. O trabalho de McGovern após a reforma inclui comentários para Consortium News, RT, e Sputnik News, entre outros pontos de venda, sobre questões de inteligência e política externa.

Atualmente trabalha com Tell the Word, um braço editorial da Igreja Ecuménica do Salvador no interior da cidade de Washington. É co-fundador, em 2003, dos Veteran Intelligence Professionals for Sanity (VIPS).

 

 

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