Nota de editor
Inicialmente concebidos num contexto de uma série de maior dimensão e complexidade analítica – Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política –, optou-se por publicar de imediato os textos respeitantes ao troço “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”, uma vez que, conforme diz o autor da série, Júlio Marques Mota, “… o que neles se escreve não é diferente do que poderá ser escrito sobre qualquer outro país europeu neste momento”, podendo mesmo fornecer “… uma ótima grelha de leitura sobre a realidade atual e atrevo-me mesmo a dizer sobre o futuro próximo que aí vem” (ver aqui “Hoje faço 80 anos… tempos difíceis, o vinho que não bebi e que nunca procurei beber”).
Este é o sexto dos doze textos que compõem a parte I da série “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”.
FT
Seleção e tradução de Júlio Marques Mota
3 min de leitura
Texto 6. Reino Unido: três questões sobre a tempestade económica que atingiu o país
O Banco de Inglaterra tomou medidas de emergência na quarta-feira em resposta à turbulência do mercado desencadeada pelo dispendioso plano orçamental de Londres, que foi severamente criticado pelo FMI.
Por J.C. com AFP
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“Riscos reais para a estabilidade financeira britânica”. Foi assim que o Banco de Inglaterra descreveu, na quarta-feira 28 de Setembro, a agitação nos mercados desencadeada pelo dispendioso plano orçamental de Londres, que foi particularmente criticado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O Banco de Inglaterra (BoE) comprará títulos do Estado para fazer face a esta tempestade, que chega numa altura em que o país atravessa uma grave crise económica, num contexto de subida dos preços da energia.
Porque é que o Banco de Inglaterra está a comprar estes títulos do Estado?
“O Banco irá comprar obrigações do Tesouro de longa data a partir de quarta-feira a fim de “restaurar as condições normais de mercado”, disse o BoE num comunicado na quarta-feira, acrescentando que a “operação será totalmente financiada pelo Tesouro”.
“O movimento do mercado tem sido exacerbado desde ontem e está a afetar particularmente a dívida a longo prazo. Se esta disfunção do mercado continuar ou piorar, representaria um risco real para a estabilidade financeira do Reino Unido”, disse o BoE para justificar a sua intervenção.
Na sexta-feira, o novo governo de Liz Truss anunciou um pacote de medidas para apoiar a economia e dispendiosas reduções de impostos. O plano inclui um congelamento dos custos de energia para os particulares e as empresas, que deverá custar 60 mil milhões de libras só nos primeiros seis meses, bem como cortes significativos nos impostos. Estas medidas, que os economistas estimam que custarão entre 100 e 200 mil milhões de libras, mas cujo financiamento e impacto permanecem pouco claros e não quantificados pelo governo, causaram tumultos nos mercados nos últimos dias.
Porque é que o FMI pediu a Londres que reconsiderasse o seu plano de apoio económico?
No início do dia, o FMI tinha criticado abertamente o dispendioso plano de apoio económico, apelando a Downing Street e ao Chanceler do Tesouro Kwasi Kwarteng para retificar a situação. Os grandes cortes fiscais previstos pelos líderes britânicos “são suscetíveis de aumentar a desigualdade”, disse o FMI numa declaração à AFP.
A instituição sediada em Washington chega ao ponto de pedir a Londres que “reavalie” estas medidas quando apresentar o seu orçamento a 23 de Novembro, “especialmente as que beneficiam os que têm mais altos rendimentos”, nesta declaração invulgarmente direta para esta instituição internacional.
O congelamento dos preços da energia está também no centro das críticas do Fundo, que recorda que não recomenda “pacotes orçamentais amplos e não orientados nesta fase”. “É importante que a política orçamental não seja contrária à política monetária”, escreve também o FMI, numa altura em que o Banco de Inglaterra está a tentar abrandar a atividade económica através do aumento das taxas, a fim de combater o aumento da inflação.
“Dadas as elevadas pressões inflacionistas em vários países, incluindo o Reino Unido, não recomendamos medidas orçamentais significativas não financiadas [n.t. ou seja, financiadas pelo défice], uma vez que é importante que a política fiscal não se interponha no caminho da política monetária”, declarou ainda o FMI. A agência de notação Moody’s fez comentários semelhantes, alertando para uma “trajetória insustentável da dívida”.
“Compreendemos que o grande plano orçamental anunciado visa ajudar as famílias e as empresas a lidar com o choque energético e impulsionar o crescimento através de cortes fiscais”, disse o FMI sobre o plano apresentado por Kwasi Kwarteng.
Na quarta-feira, o Tesouro defendeu o seu plano orçamental. “Atuámos rapidamente para proteger as famílias e as empresas neste Inverno e no próximo Inverno”, disse o Tesouro. “Estamos a concentrar-nos no crescimento da economia e no aumento do nível de vida para todos” antes de um novo orçamento a médio prazo a 23 de Novembro que “assegurará que a redução da dívida como percentagem do PIB”, acrescentou.
Libra esterlina, taxas de empréstimo, inflação… Que indicadores económicos estão a ficar no vermelho?
Como sinal da desconfiança dos investidores em relação aos ativos britânicos, a libra esterlina caiu para um mínimo histórico de $1,0350 na segunda-feira e quase não recuperou desde então. Desde o início do ano, a sua queda vertiginosa continua a ser de 20%.
O rendimento da dívida pública, que aumenta quando a sua procura diminui, disparou. O rendimento das obrigações a 30 anos, que era de cerca de 3,5% no início da semana passada, saltou para 5,14% no início da sessão de quarta-feira, o mais alto desde 1998, assinalando um aumento do custo de financiamento da dívida britânica. Caiu rapidamente para 3,94% após a intervenção do BoE. A taxa das obrigações a 10 anos seguiu o mesmo caminho, caindo para 4,23% de um máximo de 4,02% em 2008. A subida das taxas de empréstimo no Reino Unido é suscetível de fazer subir as hipotecas das famílias e os empréstimos comerciais ao ponto de não poderem ser reembolsados.
Com uma taxa de inflação anual de quase 10%, a mais alta do G7, o Reino Unido já entrou em recessão, de acordo com o Banco de Inglaterra.

