O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo: parte I, Notas de leitura sobre a queda de Liz Truss — Texto 1. Liz Truss ainda assombra os Tories, por Robert Saunders

Nota de editor

Inicialmente concebidos num contexto de uma série de maior dimensão e complexidade analítica – Neoliberalismo, Pensões por capitalização e Instabilidade Social e Política –, optou-se por publicar de imediato os textos respeitantes ao troço “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”, uma vez que, conforme diz o autor da série, Júlio Marques Mota, “… o que neles se escreve não é diferente do que poderá ser escrito sobre qualquer outro país europeu neste momento”, podendo mesmo fornecer “… uma ótima grelha de leitura sobre a realidade atual e atrevo-me mesmo a dizer sobre o futuro próximo que aí vem” (ver aquiHoje faço 80 anos… tempos difíceis, o vinho que não bebi e que nunca procurei beber”).

Este é o primeiro dos doze textos que compõem a parte I da série “O Reino Unido no centro do furacão criado pelo neoliberalismo”.

FT


 

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

8 min de leitura

Texto 1. Liz Truss ainda assombra os Tories

Ela levou um cocktail Molotov para o nº 10 – mas foram outros a acender o rastilho

 Por Robert Saunders

Publicado por  em 4 de Janeiro de 2023 (original aqui)

 

“Confiamos em Liz Truss ” (Hollie Adams/Bloomberg via Getty Images

 

Se for curioso – conservador, ou simplesmente tiver um gosto pelo absurdo, há uma boa hipótese de a sua meia de Natal incluir a recente biografia de Liz Truss, Out of the Blue. Anunciado em finais de Setembro, o livro pretendia fazer a crónica da “espantosa subida ao poder” e dos “planos para o futuro da Grã-Bretanha” da nova Primeira-Ministra. Quando foi publicado, apenas dois meses depois, tinha-se tornado um obituário da sua “queda rápida” e “auto-implosão”. Os seus autores, Harry Cole e James Heale, viram-se a competir pela clientela com um volume alternativo, intitulado Liz Truss: As suas maiores realizações como primeira-ministra. Consistia de um bloco de notas inteiramente em branco.

A estreia de Truss coroou talvez o ano mais caótico da história conservadora: um ano de três Primeiros-Ministros, quatro Chanceleres do Tesouro, três Secretários do Interior, quatro Secretários da Saúde e cinco Secretários da Educação. Ministros sucederam-se no governo, como alguma visão distópica dos Doze Dias de Natal. Alguns deles, que eram as mesmas pessoas, entrando e saindo como se fossem luzes de sinalização com defeito, acrescentavam uma sensação de farsa de salão. Foi o ano do Partygate, Pinchergate e Tractorporn, em que um primeiro-ministro foi “apanhado numa emboscada por causa de um bolo” e outro assaltado pelos mercados financeiros; um ano em que, como lamentou um Secretário do Interior vitoriano, “a crise de um dia é obliterada pela catástrofe do dia seguinte”.

Tal como um antigo conselheiro governamental, editando furtivamente a sua página da Wikipédia, seria compreensível que os Conservadores preferissem simplesmente apagar 2022 do registo histórico. No entanto, se o Partido Conservador quiser sair do buraco em que atualmente se encontra, precisa de uma melhor compreensão dos erros que o fizeram nele. Em particular, precisa de reconhecer que a derrocada de Truss não foi uma aberração da história recente do partido, mas o culminar das suas tendências mais destrutivas.

Truss não caiu no nº 10 a partir de uma nave espacial, como um Mr. Bean gémeo. Ela ganhou a liderança porque expressou melhor o que o Conservadorismo se tornou. Os atributos que quebraram a sua estreia foram também os que a levaram ao poder, fazendo dela a candidata favorita do partido, dos grupos de reflexão da direita que forneceram muito do seu programa, e do que o cientista político Tim Bale chama “o partido na imprensa”: a rede de jornais simpáticos que trabalha para manter o partido no poder. Vendida como a herdeira de Margaret Thatcher, Truss provou ser mais Liz de Latão do que Dama de Ferro; mas a sua malfadada estreia foi mais um sintoma dos problemas do seu partido do que a causa  destes problemas.

Truss foi aclamada pelos jornais mais leais do partido, que criticaram os seus detratores, elogiaram as suas reduções fiscais e só se viraram contra ela quando se tornou óbvio que não conseguia sobreviver. Os grandes títulos dos jornais proclamaram “Em Lis nós confiamos”. “Vem a Hora, Vem a Mulher”; e “Liz Põe o Pé no Acelerador”. A reacção ao mini-orçamento foi igualmente efusiva. “Enfim”, escrevia o Daily Mail, “a True Tory Budget”. Uma primeira página do Daily Telegraph chamou-lhe “o melhor orçamento que já ouvi um chanceler britânico apresentar”. Para o Express, parte do fascínio de Truss era “o seu longo envolvimento com os think tanks de centro-direita”. Respondendo ao mini-orçamento, a IEA  descreveu-o como “exatamente o que teríamos esperado“. A Aliança dos Contribuintes chamou-lhe “o orçamento mais amigo dos contribuintes de que há memória recente”.

Jornais e grupos de reflexão poderiam fornecer a música ambiente, mas apenas os deputados e membros do partido poderiam colocar Truss no nº 10. Os seus comentários ao longo da campanha poderiam ter alarmado os comentadores – quer tratando-se de desqualificar o Primeiro Ministro da Escócia como sendo um “buscador de atenção” a “ignorar”, quer recusando-se a dizer se o Presidente de França era “um amigo ou inimigo” – mas atraíram aplausos do público do partido a quem eram destinados. Como declarou um assistente da campanha de Lis Truss aos seus biógrafos, “fomos diretamente ter com os membros do Partido e dissemos-lhes aquilo que queriam ouvir”.

Se se acrescentar o apoio de personalidades como Daniel Hannan, David Frost, Sajid Javid e Ben Wallace, ou o dinheiro que foi recebido em cascata de doadores do partido, a estreia de Truss começa a parecer-se menos com o fracasso pessoal de um indivíduo com falhas, e mais com um desastre sistémico pelo qual o partido tem responsabilidade coletiva. O Partido Conservador voltou-se para Liz Truss, não num espasmo temporário de irracionalidade, mas porque ela abraçou as ideias e cortejou as instituições que se tinham tornado dominantes na sua composição. As forças que destruíram a sua estreia foram aquelas que promoveram a sua ascensão ao topo do Partido.

Veja-se, por exemplo, o entusiasmo de Truss por “andar depressa e partir coisas”. Não há muito tempo, um político que se vangloriava de ser o “disruptor chefe” – disse a um jornalista que “eu abraço o caos“. Sou um entusiasta de emoções” – poderia ter sido considerado um candidato improvável a um partido “conservador”. O seu desprezo pela “ortodoxia” poderia ter confundido um partido que valorizava a tradição, enquanto a sua convicção de que a sua pura força de vontade poderia fazer de bulldozer face a todas as dificuldades teria sido mal acolhida, acolhida com um sentimento à Edmund Burke sobre a falibilidade humana, que despreza as grandes visões da mudança.

No entanto, estes foram exatamente os atributos que tinham entusiasmado os apoiantes de Truss. Para os seus líderes de claque nos meios de comunicação social, a leitura sobre Truss era precisamente a de que “ela expressava a necessidade de uma mudança radical“; que ela era uma entusiasta por “dar cotoveladas sobre o lado do conservadorismo fiscal do Tesouro”; que ela persistentemente “ultrapassou os seus críticos” e estava “pronta para enfrentar todos os adversários”. Para o Daily Mail, era o “boosterismo”, era a força das intenções de Truss que “estava colocava no lugar do condutor“. Ignorar os funcionários públicos, economistas e analistas de previsões, era natural num partido que, nas bem conhecidas palavras de Michael Gove, tinha decidido anos antes que “as pessoas neste país já se fartaram de especialistas”. Porquê consultar o Gabinete de Responsabilidade Orçamental, quando este tinha sido rejeitado pelos colunistas conservadores como “um desperdício de dinheiro” e um “veículo para o estabelecimento de grupos de reflexão”?

Um partido que tinha passado anos a exortar os seus apoiantes a “acreditarem no Brexit“; que condenou as vozes de advertência como sendo “agoirentas” e pessimistas” e culpados de ” dizerem mal da Grã-Bretanha“; e que atribuía a responsabilidade dos seus insucessos a “sabotadores” e “inimigos do povo“, não poderia ter sido surpreendido por uma líder que adotou uma visão otimista da economia, que ignorou vozes de aviso e atribuía os seus contratempos a uma mítica “coligação anti-crescimento“. Tendo vencido os Remainers (os defensores da permanência do Reino Unido na União Europeia) e os moderados sob o comando de Johnson, o partido dificilmente poderia queixar-se quando os apoiantes de Sunak foram informados de que “as suas carreiras tinham terminado. A estarem em cena significa que estarão num caixão”.

O perigo para o Partido Conservador é que se recorra a um de dois mitos reconfortantes para explicar o descalabro de Truss. Um atira toda a culpa sobre os ombros de Truss, insistindo que “as notas estavam certas. Simplesmente, estavam na ordem errada”. Os mesmos grupos de reflexão que tinham saudado a ascensão de Truss ao poder, agora compararam-na a um chefe “arrogante, ou louco, ou incompetente”, que tinha estragado a sua “receitaperfeita e deliciosa“. Um segundo mito culpa um “golpe dos Remainers “, impulsionado pela “coligação anti-crescimento” e pela ” elite dos Remainers “; um “golpe muito britânico” impulsionado por um “empurrão contra a democracia“.

A realidade é mais prosaica. Truss foi o produto, e não a fonte, dos problemas do seu partido. Ela encarnava um Conservadorismo que defendia a destruição criadora, que era avessa à cautela e tinha desprezo pelas instituições, que prezava a ideologia sobre a experiência e considerava as vozes discordantes como heresias a serem queimadas; um conservadorismo que tinha cedido o poder a grupos de reflexão irresponsáveis, a jornalistas de jornais contrários e a um partido em perda de militância que ninguém elegeu. O crime de Truss foi transportar aquele Coquetel Molotov para o governo, segurando-o como sendo uma tocha; mas foram outros que misturaram os ingredientes e acenderam o rastilho. O paradoxo é que esta mistura de combustível foi tão frequentemente descrita como sendo o Conservadorismo “real” ou o “verdadeiro”; embora, essa aspiração pudesse oferecer o início de um caminho para a recuperação.

Se o Partido Conservador quiser reconstruir-se, poderá encontrar inspiração nas suas próprias melhores tradições. Pode reconhecer que as instituições são frágeis e facilmente danificadas: que o problema com “mover-se depressa e quebrar coisas” é que as coisas de valor se quebram. Pode reavivar o seu sentido de falibilidade humana, exigindo que as grandes visões ideológicas sejam cuidadosamente testadas com provas e experiência. Poderia reconhecer, como fez Margaret Thatcher, que a prudência não é inimiga da mudança, mas uma componente crucial do seu sucesso.

Isso exigirá que se reconsidere o seu gosto pela perturbação, e que se desabitue à influência daquilo a que a própria Truss chamou “interesses instalados disfarçados de centros de reflexão“. Tal como o Partido Trabalhista, pode também precisar de repensar os argumentos para tratar a escolha do primeiro-ministro como uma vantagem para os seus membros, cujo número está a diminuir. Temperamentalmente, Sunak parece menos inclinado a desempenhar o papel de “perturbador”; se ele é capaz de desafiar as forças do seu partido que anseiam por um tal papel ainda está para ser visto.

No seu discurso final como primeira-ministra, Truss utilizou uma citação mutilada do filósofo romano Séneca: “Não é porque as coisas são difíceis que não ousamos; é porque não ousamos que as coisas são difíceis”.

Foi uma escolha bizarra para uma política que tinha acabado de afundar as finanças públicas e destruído o seu próprio cargo como primeira-ministra, como resultado – nas suas próprias palavras – de querer ir “muito longe e muito depressa“. Se o Partido Conservador quiser tomar Séneca como inspiração, talvez seja mais sensato olhar para as suas reflexões sobre Epicuro, que observou que “A consciência do erro é o primeiro passo para a sua correção”. Séneca conclui que esta é uma máxima “muito boa”. “Porque uma pessoa que não tem consciência de que está a fazer algo de errado, não tem qualquer desejo de se corrigir… Tem que se pensar racionalmente antes de se poderem fazer reformas “.

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O autor: Robert Saunders [1978], licenciado em História pelo Magdalen College, Oxford, é leitor em História Moderna da Grã-Bretanha na Universidade Queen Mary e autor de Yes to Europe! É especialista em história britânica moderna, desde o início do século XIX até ao presente. A sua investigação abrange desde a história da democracia à relação entre a Grã-Bretanha e a União Europeia. Actualmente pesquisa sobre uma nova história da democracia na Grã-Bretanha.

 

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