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OS BAIXOS SALÁRIOS ESTÃO A IMPEDIR A REESTRUTURAÇÃO DA ECONOMIA PARA CADEIAS DE VALOR MAIS ELEVADOS – por EUGÉNIO ROSA

 

CONSELHO ECONÓMICO SOCIAL

OS “SLIDES” UTILIZADOS NA AUDIÇÃO


A Produtividade do Trabalho (análise redutora e parcial) VS Produtividade Multifatorial ou Total ( a produtividade não depende apenas do trabalhador )
Os baixos Salários estão a contribuir/impedir a reestruturação da economia para cadeias de valor mais elevado na medida que  são a causa da fuga para o estrangeiro dos trabalhadores mais  qualificados

 

A JUSTIFICAÇÃO DA DIVULGAÇÃO DESTES “SLIDES

A Comissão Especializada sobre o Crescimento Económico e Social (CECES) do Conselho Económico e Social está a elaborar um “Parecer sobre a produtividade e Qualidade do emprego em Portugal” . E fui convidado para, numa audição “, dar a minha perspetiva sobre este tema para que desta forma possam auxiliar o CES”, como consta  do convite.

Na versão do documento de trabalho que o seu relator tinha elaborado e que me foi enviada, embora o tema do parecer fosse a “produtividade”, o documento estava fundamentalmente  centrado na “produtividade do trabalho” que é um conceito parcial e redutor pois a produtividade não depende apenas do trabalhador, mas de um conjunto de fatores que vai desde os equipamentos, os materiais, etc., em que o trabalhador é apenas um entre muitos. Esta abordagem que impera nas escolas e livros de economia pode  levar a conclusões erradas, de que a produtividade depende apenas do trabalhador e quando é baixa, como acontece em Portugal, a culpa é do trabalhador. Este conceito redutor também impede que se identifiquem as principais causas da baixa produtividade.

Na intervenção que fiz na audição, utilizando estes “slides”, a que acrescentei mais alguns dados para responder a questões levantadas durante a audição, procurei desmontar esta interpretação tecnicamente errada e que pode ser manipuladora .

Nestes “slides” com dados sobre a realidade portuguesa (INE) procuro também mostrar a diferença entre “produtividade” (criação de riqueza) e repartição/distribuição de riqueza que, por vezes, é confundida. Poder haver criação de mais riqueza sem repartição justa, e o inverso também: melhor distribuição sem criação de mais riqueza. São 2 coisas  diferentes que interessa não confundirDivulgo estes “slides” porque penso que os dados que contém sobre a realidade portuguesa poderão ser úteis para a reflexão dos leitores sobre uma matéria importante para todos, pois determinam as nossas  condições de vida.  

A PRODUTIVIDADE DEPENDE DE MULTIPLOS FATORES E NÃO APENAS DO TRABALHADOR

 

A PRODUTIVIDADE DO TRABALHO é um conceito parcial que pode induzir em erro pois pode levar a pensar que a razão de baixa produtividade está no trabalhador, impedindo que se identifiquem todas as causas para se poder atuar sobre elas . Apesar de ser um conceito tecnicamente incorreto é aquele que, por razões de classe, é mais utilizado pois facilmente leva à culpabilização do trabalhador pela baixa produtividade

O conceito que é tecnicamente mais correto e que deve ser utilizado e estudado, embora seja mais difícil de calcular, é a PRODUTIVIDADE MULTIFATORIAL OU TOTAL pois a criação da riqueza depende não só da qualificação, competências e empenhamento do trabalhador, mas também dos instrumentos (equipamentos) que utiliza (o chamado stock de capital líquido por trabalhador), dos materiais que consome, da energia que usa, da organização e gestão da empresa, da inovação, do contexto sociopolítico  e até do subsetor da atividade económica em que a empresa está, pois há subsetores que, pelas suas caraterísticas, a produtividade é mais elevada e quanto maior for o seu peso na economia maior será a produtividade no país (equipamento elétrico VS turismo)

O AUMENTO DA “PRODUTIVIDADE APARENTE DO TRABALHO”  EM PORTUGAL É MUITO BAIXO, EM ALGUNS ANOS NEGATIVO, ANTES DE ENTRAR  NO EURO (2000/2002), E TAMBÉM NO PERÍODO APÓS ENTRAR, POR EX. 2011/2022  (a preços constantes de 2016) Utilizamos o VAB e não o PIB pois este tem (+) impostos e (–) subsídios, que condicionam o seu valor e no VAB  os impostos e subsídios não são considerados

 

A “PRODUTIVIDADE APARENTE DO TRABALHO” É MUITA BAIXA EM PORTUGAL PORQUE O  STOCK DE CAPITAL LIQUIDO POR EMPREGADO É  MENOS DE ½ DA ZONA EURO E POUCO SUPERIOR A ½ DA MÉDIA DA U.E.– AMECO Como será possível obter e aumentar a produtividade por trabalhador quando o “stock de capital liquido” (equipamentos e tecnologia) por trabalhador tem diminuído desde 2013? Como será possível aumentar a produtividade sem investir?

 

O INVESTIMENTO (FBCF) EM % DO PIB (TOTAL, PÚBLICO E PRIVADO) EM PORTUGAL NOS ÚLTIMOS 11 ANOS TEM SIDO INFERIOR Á MÉDIA DA U.E. E  DA ZONA EURO – EurostatComo se poderá assim aumentar a produtividade e subir nas cadeias de valor mais elevado sem investir ? Como se poderá assim convergir para a média da U.E.?

 

NOS ÚLTIMOS 11 ANOS O NOVO INVESTIMENTO (FBCF) EM PORTUGAL NEM FOI SUFICIENTE PARA COMPENSAR AQUELE QUE DESAPARECEU DEVIDO AO USO E OBSOLESCÊNCIA (CONSUMO DE CAPITAL FIXO) SEGUNDO O INE :- a situação é dramática a nível de investimento público que sofreu cortes brutais devido às regras impostas pela entrada na Zona Euro , e à “política de contas certas do governo”  de reduzir o défice e  a dívida pública a um ritmo superior ao dos outros países da U.E., o que causou a degradação dos equipamentos e serviços públicos agravado pelos baixos salários

 

A REDUÇÃO DO DÉFICE ORÇAMENTAL EM PORTUGAL A UM RITMO 8,5 VEZES  SUPERIOR À REDUÇÃO MÉDIA NA U.E., E  9 VEZES SUPERIOR AO RITMO DE REDUÇÃO NA ZONA EURO, ESTÁ A CAUSAR A DESTRUIÇÃO DA ADMINISTTRAÇÃO PÚBLICA, COM EQUIPAMENTOS E SALÁRIOS CADA VEZ MAIS DEGRADADOS, E A CRIAR GRAVES OBSTÁCULOS AO CRESCIMENTO ECONÓMICO E AO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS (só o governo e seus defensores não veem isso)

 

OS CUSTOS/HORA  DA MÃO DE OBRA (salariais + não salariais ) EM PORTUGAL, NA U.E E NA ZONA EURO EurostatOs salários em Portugal são metade ou menos de metade da média da U.E. e da Zona Euro, o que está a determinar a fuga para o estrangeiro de trabalhadores com maiores qualificações e competências, e os que ficam no país são mal pagos e muitos estão em postos de trabalho pouco qualificados.  Isto também dificulta ou mesmo impede o aumento da produtividade e a subida na cadeia de valor no nosso país

 

PORTUGAL “EXPORTA” TRABALHADORES QUALIFICADOS E “IMPORTA” TRABALHADORES NÃO QUALIFICADOS: em Portugal entre 2015 e 2022, o emprego aumentou em 360.000, os trabalhadores com idade 25-44 anos, na maioria os mais qualificados e mais produtivos, diminuíram em 122.100, enquanto os com idade 45-64 anos aumentaram em 490.600.  Devido à reduzida criação de emprego qualificado o aumento de emprego dos trabalhadores com o ensino superior  (+561.200 de 2015/2022) foi principalmente para ocupar postos de trabalho onde estavam trabalhadores com ensino básico (-588.600) ou outros de baixa qualificação e a remuneração dos com ensino superior que ficaram no país diminuiu

 

ENTRE O 1º TRIMESTRE DE 2022 EO 1º TRIMESTRE DE 2023, O EMPREGO DIMINUIU NAS PROFISSÕES MAIS QUALIFICADAS E AUMENTOU NAS PROFISSÕES MENOS QUALIFICADAS

 

O PESO REDUZIDO DAS EMPRESAS DE ALTA E MÉDIA-ALTA TECNOLOGIA E MESMO DE BAIXA E MÉDIA-BAIXA TECNOLOGIA EM PORTUGAL a alteração na estrutura produtiva (perfil produtivo) do país para maior intensidade tecnológica e valor acrescentado foi muita reduzida e  insuficiente –  INE

 

PIB POR EMPREGADO E CUSTOS (salariais + não salariais) COM MÃO DE OBRA POR HORA NA U.E., NA ZONA EURO E EM PORTUGAL (em Portugal  ½ da U.E. e menos de ½ dos da a Z.E.). – ESTIMATIVA DO AUMENTO MÍNIMO DOS SALÁRIOS EM PORTUGAL (+21,7% em 2022)  PARA QUE O CUSTO DA MÃO DE OBRA EM % DOS DA U.E. DA ZONA EURO FOSSE IGUAL À % QUE O PIB POR EMPREGADO EM PORTUGAL  REPRESENTA DO DA U.E. OU DO DA ZONA EURO

 

 

A PERDA DE IMPORTÂNCIA DA AGRICULTURA E INDÚSTRIA NA RIQUEZA CRIADA NO PAÍS (VAB TOTAL) E O AUMENTO DO PESO DO COMÉRCIO, DO SUBSETOR FI-NANCEIRO, SEGURADO E IMOBILIÁRIO, E DE “OUTRAS ATIVIDADES E SERVIÇOS” NÃO ESPECÍFICOS  NO VAB TOTAL -2000/2022 – O PERFIL PRODUTIVO DO PAÍS TEM-SE CONSOLIDADO E DESENVOLVIDO FUNDAMENTALMENTE EM ATIVIDADES DE BAIXA E MÉDIA BAIXA INTESIDADE TECNOLÓGICA (a indústria perde peso)-INE

 

OS LUCROS DAS EMPRESAS RECUPERARAM RAPIDAMENTE DA CRISE DO COVID (entre 2019/2021 aumentaram 27,5%, e os das grandes empresas +33,9%) ENQUANTO AS REMUNERAÇÕES TOTAIS  SUBIRAM APENAS 7,8% – Em 2021 a “produtividade aparente do trabalho” nas grandes empresas era superior à das PME em 88,7% mas as remunerações eram superiores apenas em 25,2% – INE

 

A DEGRADAÇÃO DA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA, CAUSADA PELA POLÍTICA DE BAIXOS SALÁRIOS PARA REDUZIR O DÉFICE, CONSTITUI UM FORTE BLOQUEIO AO AUMENTO DA PRODUTIVIDADE E AO DESENVOLVIMENTO DO PAÍS E É UM INCENTIVO À MANUTENÇÃO DE BAIXOS SALÁRIOS EM TODO O PAÍS

 

A PARTE DOS ORDENADOS  E SALÁRIOS NO PIB (riqueza criada no país): os anos em que a parcela da riqueza criada (PIB) que reverte para os trabalhadores sob a forma de ordenados e salários foi maior foram 1974, 1975  e 1976 (52,5%; 59% e 57,2% do PIB). A partir da entrada na Zona Euro (2002) verificou-se uma tendência de descida da parcela da riqueza criada que reverte para os trabalhadores só invertida pela pandemia que causou um quebra significativa do PIB e “escassez “ de mão de obra barata em parte atenuada pelo recurso a emigrantes 

 

A QUEBRA ACENTUADA DAS POUPANÇAS DAS FAMÍLIAS EM % DO PIB (1/2 da media da U.E., e menos de ½ da Zona Euro) QUE SÃO OBRIGADAS A RECORRER A ELAS FACE À QUEBRA SIGNIFICATIVA PERDA DO PODER DE COMPRA DOS RENDIMENTOS DO TRABALHO E DAS PENSÕES É UM INDICADOR DO AGRAVAMENTO DA CRISE POIS CAUSARÁ A REDUÇÃO DA PROCURA INTERNA ESSENCIAL PARA A RECUPERAÇÃO ECONÓMICA

 

O FALSO DILEMA E OS DESAFIOS QUE SE COLOCAM AO PAÍS E AOS PORTUGUESES ENTRE AUMENTO DA PRODUTIVIDADE, CRESCIMENTO ECONÓMICO, DESENVOLVIMENTO E AUMENTO DE SALÁRIOS E MELHORIA DA QUALIDADE DE EMPREGO- contributos para reflexão

 

EUGÉNIO ROSA

ECONOMISTA

edr2@netcabo.pt

www.eugeniorosa.com

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