“ÀS MULHERES PORTUGUESAS”, DE ANA DE CASTRO OSÓRIO: UMA REEDIÇÃO EXEMPLAR – por MANUEL SIMÕES
joaompmachado
(1872 – 1935)
Louve-se, em primeiro lugar, a recente reedição de um ensaio esquecido de Ana de Castro Osório (1872-1935), trabalho da argonauta Vanessa Castagna (Alle Donne Portoghesi, Pádua, 2022), seguindo a prática consolidada de oferecer o texto nas duas línguas (português e italiano), e recuperando assim um contributo notável para a história da lenta tentativa de emancipação da Mulher no contexto social e político português.
Como refere justamente a responsável por esta exemplar edição, foram diversos os factores que impediram, até aos primórdios do século XX, o debate, em Portugal, sobre as questões feministas e o ingresso das mulheres na cena política. Com a proliferação das ideias republicanas surgem alguns grupos activos de mulheres, geralmente escritoras ou médicas (lembrem-se os nomes de Carolina Beatriz Ângelo, Olga Moraes Sarmento ou Carolina Michaëlis de Vasconcelos, entre outras) que introduziram a questão feminista no debate público. O processo emancipador conheceu, claro, muitos avanços mas também alguns recuos, chegando até aos nossos dias. Basta lembrar o caso da publicação de Novas Cartas Portuguesas (1972), de Maria Teresa Horta, Maria Isabel Barreno e Maria Velho da Costa, de grande repercussão no mundo civilizado e que, entre nós, para além do processo judicial movido contra as três autoras (explicável no contexto ideológico do chamado Estado Novo) comportou ainda a perseguição e linchagem promovidas por hordas enfurecidas sem corarem de vergonha. Parece que ainda há um longo caminho a percorrer em matéria de igualdade de direitos em todos os aspectos da vida social portuguesa.
Voltando a Ana de Castro Osório, é inegável que foi uma figura determinante nos primórdios do feminismo em Portugal, o que aconteceu, como se disse, na primeira década do século XX. Com efeito, é de 1905 a sua colectânea Às Mulheres Portuguesas, que agora se republica em edição bilingue – com tradução e estudo aprofundado da lusitanista Vanessa Ribeiro Castagna -, texto reconhecido como o primeiro manifesto feminista português, embrião do “Grupo Português de Estudos Feministas”, fundado em 1907, que no ano seguinte teve o apoio do Partido Republicano, dando origem à “Liga Republicana das Mulheres Portuguesas”, a primeira organização com o objectivo de lutar por uma diversa posição da Mulher na sociedade portuguesa. É claro que não faltaram os detractores da militância feminina, ao ponto de a própria Ana de Castro Osório inserir no seu volume um capítulo sobre o “Feminismo”, definido com ironia deste modo: «é ainda em Portugal uma palavra de que os homens se riem ou se indignam, consoante o temperamento, e de que a maioria das próprias mulheres coram, como de falta grave cometido por algumas colegas».
Sendo um texto divulgativo, a linguagem é fluente e de clara descodificação, aspecto mantido pela tradutora, com o cuidado de não tornar eventualmente pesado o discurso pelas iterações constantes de conceitos em que Ana de Castro Osório usa o expediente retórico com funcionalidade didáctica. E sublinhe-se ainda o cuidado com que a tradutora pretendeu esclarecer, em nota, segmentos textuais alusivos a aspectos da cultura portuguesa não explícitos no original, de que é exemplo a interrogação retórica sobre se as mulheres já secaram as lágrimas «na partida de Simão Botelho para o desterro», passagem certamente enigmática para os eventuais leitores italianos (e também para muitos portugueses) se não fora a nota a identificar a cena como desenlace dramático do romance Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco.
Na sua exaustiva “Introdução”, em que se analisam os traços distintivos dos vários capítulos e em que se contextualizam os “movimentos feministas em Portugal no início do Século XX”; a trajectória de Ana de Castro Osório; ou a literatura para a infância e sobre a emancipação da Mulher, por exemplo, Vanessa Castagna dá-se conta do carácter pioneiro dos textos mas também das contradições e estereótipos que transparecem nos escritos, alguns de influência política, considerando a “praxis” que caracterizou a chamada primeira República. No capítulo “Ser Português”, por exemplo, além do diagnóstico da indiferença, por parte da mulher portuguesa, pelas questões de actualidade, nota-se um exacerbado nacionalismo, que é também da geração de Ana de Castro Osório: «o que é ser português, vós que falais a língua que tem todas as energias do mar bravo e todas as doçuras dum poente entre pinhais rumorejantes», definição fantasiosa, com laivos fortíssimos do idealismo romântico, com projecção que ainda se lê (e vê) nos canais mais influentes da formação do gosto na sociedade portuguesa.
É um texto com contradições internas, de resto identificáveis pela tradutora, com algumas fórmulas de influência romântica, mas que na época devia ter parecido saudavelmente transgressivo.