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A minha reação ao texto de José Almeida Serra e um artigo de Adão Cruz
Faro, em 14 de Agosto de 2024
Como reação à minha nota sobre o Serviço Nacional de Saúde e sobre o Ensino Público conduzido pelo PS diz-me um amigo meu, Almeida Serra, o que passo parcialmente a transcrever:
“Júlio
Você tinha escrito que ia de férias. Foi?
Como sabe estamos substancialmente de acordo, mas:
-
- O meu nascimento – tardio porque me sentia bem – foi num quarto que dava sobre o pátio, com uma mulher (qualquer servia) a ajudar ao dito; por isso o primeiro bebé morria sempre e eu não deveria ter sido o mais velho;
- O primeiro ano que passei em Lisboa, 6-7 anos, para fazer a 1ª classe tinha uma grande refeição, a sopa dos pobres cerca do meio-dia, que constava sempre da mesma coisa: uma tigela de sopa de massa e um quarto de pão.
(,,,)
E hoje? E os “direitos” adquiridos de sovar um professor competente e exigente sem consequências, mas se este der um tabefe num aluno é um criminoso em vias de ser expulso.
Tantas que eu levei do meu avô, a pessoa que mais me ensinou na vida (sem nunca ter andado na escola e que era um sábio natural) e da minha melhor professora – Lucinda Duarte, na 2ª, 3ª e 4ª classes e que eu sei que gostava imenso de mim – que às vezes me dava umas boas reguadas.
Aprendamos básicos da sobrevivência com os animais da selva, que seguem as leis naturais e humanizem-nas, não as destruam.
Tenha férias e paz de alma” Fim de citação.
Vamos por partes.
Estou de férias, isso é certo, mas estar de férias não significa perder o direito à indignação, O que fiz foi mostrar a minha indignação por algo que é feito intencionalmente por gente que se reclama de socialista.
- O filtro escolar, entre os que têm e os que não têm matriz cultural de base, num destino que em cada criança é estipulado nos primeiros anos da sua escolaridade;
- O filtro económico entre quem pode ter a certeza de ir parir numa clínica privada quando necessário e quem tem assegurada a terrível angústia de que para poder parir poderá ter de percorrer centenas de quilómetros à deriva no asfalto quente deste verão nas estradas de Portugal.
E isto é feito em nome das contas certas, contas certas de Passos Coelho que em conjunto com António Borges, constituíram o par que vendeu as joias da coroa do nosso país ao estrangeiro, de Victor Gaspar, o homem que ganhou o FMI, de Álvaro Santos Pereira, o homem que ganhou a OCDE, de Mário Centeno, o homem que ganhou o Banco de Portugal, de António Costa, o primeiro-ministro que se demite e ganha a Presidência do Conselho Europeu e de Fernando Medina, que espera a sua vez pela compensação do dever cumprido na linha da austeridade praticada.
Mas o meu amigo Almeida Serra diz-me como foi o seu parto, igual ao que terá sido o meu, nascidos nos tempos duros do fascismo. Morria-se de parto, aprendia-se com essas mortes. Esta era a forma dominante da aprendizagem das parteiras: pela morte. Estranha aprendizagem esta que, logicamente, ninguém quer voltar a ter, nem esta forma de aprendizagem nem o sistema que a permitia [1].
Diz-me:
“O meu nascimento – tardio porque me sentia bem – foi num quarto que dava sobre o pátio, com uma mulher (qualquer servia) a ajudar ao dito; por isso o primeiro bebé morria sempre e eu não deveria ter sido o mais velho”
Se a aprendizagem pela morte é algo que ninguém pode admitir, o problema que a seguir se coloca é que possivelmente, todas aquelas que aprenderam a salvar a vida de quem nasce, as parteiras, foram profissionalmente eliminadas pelo sistema, pelo avanço da medicina: desapareceram, foram substituídas pelos obstetras e ginecologistas, que depois se fizeram rarear em nome não sei de que interesses e justificáveis, talvez, pelas contas financeiramente certas e económica e socialmente erradas. Assim, acabámos por ficar sem parteiras e quase sem obstetras ou ginecologistas no setor público! Diz-nos o ditado popular que não há bem que sempre dure nem mal que sempre se ature.
O bem que sempre dure, este já desapareceu do nosso radar. Atestam-nos as grávidas deste nosso país. Quanto ao mal que nem sempre dure, aqui representado pela falta de obstetras e ginecologistas criada pelo sistema, a roda do progresso fará com que o povo ganhe consciência da forma como tem sido servido e que venha a saber ao serviço de que interesses é que tem estado a nossa classe política ao gerar as situações assinaladas no meu texto e no seu, igualmente. Seguramente, haverá um longo trabalho político a ser feito, de que ninguém conscientemente se pode demitir e tanto mais quanto vivemos atolados numa vaga de neoliberalismo, pintado tanto com as cores da direita como da esquerda do arco do poder.
Quanto ao ensino deixemos de lado a questão das reguadas, por ser uma questão que nos poderia levar muito tempo. Concordo com o que diz e podemos mesmo afirmar que as reguadas quando bem dadas, isto é, quando aplicadas (com a devida boa inteligência) nas situações apropriadas, serão sempre bem bem-vindas. Mas hoje, com a formação dada hoje aos professores da primária e com a maturidade de muitos dos pais dos miúdos que andam na primária, creio que nem uns serão capazes de dar as reguadas nas situações apropriadas nem os pais seriam capazes de as aceitar. Isto geraria infinitas situações de conflito. É preciso outro tipo de soluções mas que não passem nunca pela via do facilitismo que satisfaz o sistema e os pais ignorantes.
O meu amigo Almeida Serra questiona-se sobre os “ “direitos” adquiridos de sovar um professor competente e exigente sem consequências, mas se este der um tabefe num aluno é um criminoso em vias de ser expulso”.
Aqui, estamos completamente de acordo. Curiosamente o filme que fui ver com a minha neta (“Os excluídos“ de Alexander Payne) versava sobre uma situação equivalente. O professor Paul Hunham, (representado por Paul Giamatti) é um professor extremamente exigente que se recusa a dar notas de acordo com o peso social e financeiro da família do aluno e não hesita em defender os alunos de agressões sociais e/ou familiares a que estes estejam sujeitos. Mas Paul Hunham não pode fazer nem uma coisa nem outra e, por isso mesmo, é despedido. Hoje, seria o que também aconteceria à sua professora. Não tenha dúvidas. O meu amigo não foi despedido, despediu-se no início dos anos 70. Eu, em 1975, sigo o seu exemplo: não estive disponível para ATRBUIR notas de mão no ar dadas pela turma. Ambos saímos da mesma Faculdade por opção, e ambos não teríamos hoje direito a entrada se quiséssemos entrar, mas também não quereríamos entrar.
Hoje os tempos são o que são, são o que bem expressa a digitalização do ensino a nível do ciclo ou a nível das Universidades e nem o meu amigo nem eu nos revemos nestas práticas. A dignidade profissional ainda não caiu na rua para muita gente. Felizmente, mesmo que o preço desse felizmente possa ser muito elevado, como o foi para Paul Hunham no filme de Alexander Payne.
Curiosamente, o filme seguinte que vi com a minha neta (Evil Does Not Exist), realizado por Ryûsuke Hamaguchi impunha-nos que revíssemos o título depois de ver o filme e a solução a que ambos chegámos, era de que a tradução do título seria o Diabo ou o Mal não existe, existem apenas homens, existem apenas estruturas sociais, existem circunstâncias, existem interesses públicos que muitos querem coletivamente servir, existem interesses privados de alguns se querem apenas servir. O problema da minha incómoda nota anterior passa por aqui, pela necessidade de dignificar o que é o interesse público, de subalternizar o que é exclusivamente o interesse privado e isto é valido tanto para a crítica do ensino que faz hoje como para o Sistema Nacional de Saúde atual.
Em conclusão, teria muito gosto em pegar na nota escrita que a minha neta redigiu sobre este segundo filme, esta foi-me apenas lida antes de partir para França. Porque teria algum interesse tanto em ver a sua curiosa evolução, de um filme a outro, como em perceber como se aprende a escrever, escrevendo, refletindo. Um caminho que o nosso sistema de ensino está lamentavelmente a excluir, como assinalei na minha nota anterior.
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Nota
[1] Sobre o sistema de saúde praticado na periferia dos grandes centros em tempos idos veja-se a exposição de Adão Cruz aqui. Veja-se igualmente o texto abaixo da autoria de Adão Cruz sobre o tema.
EM TEMPOS DE LUTA PELA SAÚDE
Por Adão Cruz
Este texto foi publicado em A Viagem dos Argonautas em 8 de Outubro de 2023 (ver aqui)
A dor esfarrapa o homem, lá dizia um velho professor meu. Por isso, o combate à dor e ao sofrimento tem de ser olhado como prioridade nacional. A crueldade inerente à divisão dos doentes em ricos e pobres, decorrente do ataque feroz ao SNS, é digna de um conceito arcaico-fascista.
A não ser os que padecem, ninguém imagina o que é ter um cancro e andar um ano a mijar sangue, sentindo que cada gota de urina é um centímetro de arame farpado a sair pela uretra, mil gotas de suor a escorrer a dor por todo o corpo. A não ser os que padecem, ninguém imagina o que é saber-se comido por dentro, por um cancro que há um ano teria sido operável. A não ser os que precisam, ninguém sabe o que é esperar um dia ou dois no corredor de um hospital para ser atendido, por vezes enviado para casa, ter de recorrer a um hospital privado e pagar milhares de euros por uma operação mal-sucedida. Ninguém imagina o que é a falta de ar de um coração entupido, pulmões encharcados, e a dor de cair numa clínica de vão de escada ou a felicidade de ser recebido num dos locais onde há meios, competência e humanidade. Só a abnegação de muitos médicos, enfermeiros e outro pessoal, que os há, permite ao Estado aguentar a pouca saúde que temos e lavar a cara. A saúde não tem preço, lá diz o ditado. Mas se o tiver, este preço não é de medir pelo preço do linguado, do descapotável ou da casa de praia. Este preço é o preço do alívio da dor, do sofrimento, do arreganhar de dentes que o Estado, como defensor da dignidade humana, deve pôr acima de todas as negociatas. Se a saúde não fosse comprável, sob a forma de dinheiro ou influências, todos os responsáveis, governantes ou desgovernantes, criariam prioritariamente leis e sistemas que os defendessem das insuficiências e das fraudes. São estas leis e sistemas defensivos que é necessário criar, partindo do princípio de que é um povo inteiro que precisa de ajuda e alívio, e não apenas os que, com um nome ou um cartão de crédito, compram médicos e hospitais.
Também o valor moral e ético da profissão médica não se restringe ao valor ético da saúde, ele atinge e ultrapassa o valor moral da própria vida. Mas a convulsão de mundos e princípios mina os próprios médicos, que acabam por assumir, por vezes, uma cultura de conformismo e indiferença que alimenta a desistência.
O nosso universo não tem começo nem meio nem fim. É um mundo complexo, com uma coreografia difícil de captar. Da nossa própria contingência tem de nascer a força da criatividade e do entendimento. Captar essa força, entender a educação, a saúde, a justiça e a paz, como a real riqueza da humanidade, constitui o verdadeiro atributo de um verdadeiro governo.
A edificação de uma política social e de saúde não se pode fazer com transitoriedades ministeriais e cosméticas mistificadoras, mas com sabedoria e real interesse humanitário, melhorando em todos os campos a qualidade de vida, eliminando prioritariamente o sofrimento, estabelecendo rigorosas salvaguardas que protejam as pessoas de uma produção avassaladora e de um consumo sociopático, geradores de desigualdades cruéis que inundam a terra de desvalidos, humilhados e ofendidos.

