O COMPORTAMENTO SUICIDA DA FINANÇA, por Paul Jorion. Dedicatória a José Almeida Serra

Selecção, tradução, e introdução/dedicatória  por Júlio Marques Mota

Introdução

Ao meu amigo José Almeida Serra

Dedico esta peça um pouco trágica ao meu amigo José Almeida Serra e ao seu sentido da História. Vejo-o como a François Morin no Banco de França, vejo-o como Frank Partnoy aquando trabalhava no banco Morgan Stanley e assistiram, com plena consciência do que se estava a desencadear e sem nada objectivamente poderem contrariar, a uma verdadeira cavalgada wagneriana organizada pelos mercados financeiros com os seus títulos de valor nulo transformados por magia em títulos AAA e pelo mundo depois espalhados; vejo-o com uma consciência aguda do final de toda essa correria, a queda no abismo económico e social de um país, Portugal, de um continente, a Europa; vejo-o profundamente desiludido, como eu próprio, com a maldade, a ignorância e ou com a avidez dos nossos dirigentes nacionais e europeus e sobretudo com a incapacidade destes em serem incapazes de verem para além da ponta do seu próprio nariz; vejo-o a debater-se com uma consciência aguda contra a  estrutura global deste sistema que até pelas regras contabilísticas impostas pela International Accounting Standards Board, IASB, uma sociedade privada registada no Delaware  financiada pelas  4 grandes empresas de auditoria e por algumas das maiores multinacionais, aos Estados soberanos que soberanamente se têm demitido de tudo o que são as suas funções, deixa quase todas as instituições indefesas perante as oscilações provocadas intencionalmente nos mercados financeiros; vejo-o a sentir-se incomodado por esta regra tirânica do market to market e pelas imparidades provocadas e que asfixiam as nossas instituições financeiras que assim deixam de poder irrigar com os seus créditos a economia real e as levam também a elas próprias a práticas deflacionistas que mais afundam a economia e satisfazem ainda mais a ganância dos grandes especuladores, os verdadeiros soberanos desta tragédia em curso.

E meu caro amigo José Almeida Serra, aqui lhe deixo como síntese do que se pode estar a passar, a afirmação de Arnold Tonbyee, “as civilizações não morrem assassinadas, elas suicidam-se.”

Esperemos que ainda vamos todos em conjunto a tempo de evitar esse suicídio colectivo que, por maldade de uns, por ignorância de outros e pela inconsciência de muitos mais, se pode estar a preparar.

Júlio Marques Mota

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O comportamento suicida da finança, por  Paul Jorion

Paul Jorion, economista e antropólogo, Le Monde

A Finança dispõe de meios capazes de neutralizar todas as tentativas que se façam para reduzir a nocividade das suas práticas. | REUTERS/BRENDAN MCDERMID

Sábado, 29 de Setembro, um tribunal em Washington  invalidou  algumas medidas  tomadas pela Commodity Futures Trading Commission (CFTC, o  regulador do mercado de derivados dos  Estados Unidos), destinadas a limitar o volume de posições que um jogador pode ter no mercado de futuros de commodities, para que ele não possa, por si só,  destabilizar o próprio mercado. Os profissionais do sector opunham-se  a essas medidas, afogando o CFTC  com uma enxurrada de pareceres  negativos, garantindo então – graças ao partido republicano – que o orçamento previsto do organismo  de controle  não fosse  votado e, por fim,  levando a  CFTC aos tribunais.

Alguns dias antes, em 24 de Setembro, o l’International Organisation of Securities Commissions  (Organização Mundial que reúne os reguladores nacionais no mercado de matérias-primas), a quem o G-20  tinha confiado o cuidado de regular o mercado do petróleo atirava a esponja.  Aquando da reunião que se iria ter, a Agência Internacional de energia, a organização dos  países exportadores de petróleo  e as empresas Total e Shell tinham feito uma frente comum de recusa.  As companhias de petróleo disseram que, no caso de  haver regulamentação do sector, elas  deixariam  de  comunicar aos seus órgãos de fiscalização os dados  relativos aos  preços praticados.

Em 22 de Agosto, a Securities and Exchange Commission (regulador de mercados de acções dos Estados Unidos), que  tinham  desenvolvido um conjunto de medidas destinadas a prevenir a recorrência de um colapso do mercado de capitais de curto prazo, não conseguiu a aprovação pelo seu Comité de direcção, um dos seus membros – muito ligada ao sector financeiro – tinha-se  recusado a dar o seu aval.

A lógica destas três manobras de obstrução bem sucedidas  é fácil de entender:  a finança beneficia de um acesso fácil ao dinheiro e usa o de que dispõe para impedir que não sejam regulados, mesmo se as medidas previstas são destinadas, como nos casos mencionados, para impedir a reprodução de eventos que podem levar ao seu colapso total… Os reguladores foram capazes de impor multas substanciais aos bancos responsáveis por abusos, tais como a multa de  550 milhões  de dólares  cobrados ao  Goldman Sachs por ter organizado  apostas  sobre produtos concebidos expressamente para se depreciarem, ou a multa de  453 milhões que teve de pagar o Barclays pela  manipulação de dados das taxas interbancárias da Libor. Mas um banco tem maneiras de evitar as consequências económicas dos  seus crimes: pode reduzir os dividendos pagos  aos accionistas; pode passar os seus custos na totalidade e/ou em  parte para os seus clientes mediante o encarecimento dos seus serviços prestados.  Enfim, se for considerado “sistémico”, isto é demasiado grande  ao  ponto em que a sua queda  arrastaria todo  o sistema financeiro, a banca será , como foi  observado desde há  cinco anos, automaticamente salva  pelo contribuinte em caso de insolvência e em nome do interesse geral.

Quando, no Outono de 2008, a existência destas instituições financeiras sistémicas se  tornou  evidente por ocasião da falência do Lehman Brothers, a acção foi:  era necessário desmantelá-lo em unidades mais pequenas   e em  que a possível falência poderia ser absorvida pelos mercados. Mas, já, o  lobby (financiado em parte por fundos fornecidos pelos contribuintes…) permitiu que  rapidamente  não se continuasse  com   estas medidas. .

A Finança  tem, portanto, os meios para neutralizar qualquer tentativa  que se faça para  reduzir a nocividade das suas práticas. Ela é imune contra os esforços da Comunidade para  se proteger de um novo colapso – os esforços  motivado, é certo  pela preocupação de  se proteger contra as  consequências económicas e sociais de um tal desastre.

Uma vez que toda e qualquer medida preventiva de uma nova catástrofe  está a ser  sistematicamente neutralizada, esta catástrofe tornar-se-á  inevitável…

Se os mecanismos pelos quais o mundo financeiro está a desencadear  este comportamento suicida não são nenhum mistério, a sua motivação essa é, no entanto, muito  problemática.

No seu livro intitulado  Effondrement  (Gallimard, 2005), o biólogo Jared Diamond menciona que, entre as razões pelas quais morreram   as  civilizações antigas, está a incapacidade das suas elites  e dos  seus governos de serem capazes  de representar claramente o processo de colapso em curso ou, se dele tomarem conhecimento, deve-se então  à  sua  incapacidade para o impedir devido à presença de uma  atitude de defesa  assente  numa visão de muito curto prazo   dos  seus privilégios. Os comportamentos suicidas não estão ausentes do mundo natural: podemos encontrá-los, por exemplo, na fisiologia da célula. Este é o fenómeno de “apoptose” ou “de morte celular programada “, que se dá quando a célula começa a sua autodestruição, porque esta  recebe mensagens químicas, indicando a morte inevitável do órgão ao qual ela pertence. Arnold J. Toynbee, ilustre filósofo da história  bem nos avisou: “as civilizações não morrem assassinadas, elas suicidam-se.”

Desejo simplesmente que não  seja isso a que estamos agora a assistir .

Paul Jorion,  Le comportement suicidaire de la finance, Le Monde, 8.10.2012
Paul Jorion é economista e antropólogo

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