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A Morte Lenta da Universidade — “Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade”. Por Júlio Marques Mota

12 min de leitura

Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 1 de Junho de 2025

 

Em março passado escrevi um texto intitulado Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade [n.ed. a publicar oportunamente] uma morte anunciada desde a reforma de Bolonha e que agora se está a verificar e a materializar em vários disfuncionamentos sociais e económicos fortemente interligados. Estes disfuncionamentos da Universidade têm efeitos imediatos, ditos de curto prazo, e efeitos visíveis apenas a médio e longo prazo que são, de resto, os mais relevantes e que ajudam a explicar as complexas razões subjacentes aos resultados eleitorais de agora. Deixei o texto em espera para publicar um dia e não saberia bem quando. Até que o meu amigo Gomes Marques me enviou um vídeo com a intervenção de Rui Marcos (vídeo aqui ou aqui) e a perguntar-me como é possível ter-se chegado a isto. Visionei o vídeo e este deu-me a ideia da Universidade como um vazio total em termos de missão, em termos de dignidade académica. Deixou-me agoniado. Mas quem sou eu para dizer isto e fui ver: atingiu a posição de catedrático aos 50 anos e é nessa avenida que tem circulado. Mas a cerimónia era solene, não era um teatro de revista em representação, e a escolha era da Faculdade de Direito e do magnífico reitor (com r minúsculo). Mas a cena dá ideia do vazio intelectual que é a Universidade de hoje e numa cena concebida e representada pelos seus mais altos dignatários.

Tão agoniado fiquei ao ouvir os excertos transmitidos pela Rádio Renascença que duvidei da veracidade do que vi e questionei-me se não seria uma montagem feita pela Inteligência Artificial, Fui ao sítio da Universidade e ouvi o discurso na íntegra (ver aqui) e fiquei de tal forma pasmado que decidi começar a organizar o meu texto por capítulos e a sua leitura é como se se estivesse a ler o relatório de uma autópsia: a da Universidade, tomando como referência uma Faculdade, a de Economia da Universidade de Coimbra. Assinale-se, porém, que o digo não é especfico dela: basta ouvir o discurso de banha da cobra na entrevista dada na televisão a Vítor Alves por Daniel Traça da Faculdade de Economia da Universidade Nova de Lisboa, o cadinho da formação da maioria dos nossos políticos neoliberais puros e duros de hoje, para percebermos o vazio em que se traduz o ensino universitário. Mas na política da ignorância que tem vindo a ser feita, está tudo bem, está tudo certo, e quem diz o contrário, sou disso um exemplo, é acusado de conspiracionista como aconteceu comigo num protesto feito junto do Diretor da FEUC de então, Álvaro Garrido.

Nesta entrevista, Daniel Traça vende a banha da cobra em grande estilo: o que importa é que os estudantes trabalhem sobre projetos, projetos, projetos. E a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra pela mão de Tiago Sequeira, doutorado exatamente pela Universidade Nova, imitou-o, criando na FEUC uma disciplina dita Projeto Integrador que é a mais estranha disciplina que alguma vez vi concebida: é uma disciplina em que os estudantes têm a obrigação de integrar conhecimentos que não lhes foram ensinados e a disciplina vale no curriculum por duas disciplinas de carga horária máxima.

Num país como o nosso e num momento como o que atravessemos, estamos a assistir a uma certa inversão de valores onde o mérito reside agora não no nível de saber reconhecido, mas sim no nível de ignorância assumida, não na coragem de dizer não mas na cobardia de dizer sim. Esta disciplina dita de Projeto Integrador assume então o estatuto de nec plus ultra da qualidade da licenciatura da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, uma licenciatura que passou pelo crivo da Agência de Avaliação e Acreditação do Ensino Superior (A3ES).

A reforma do ensino universitário, dita de Bolonha, aplica-se a partir de 2010 e foi uma resposta tão errada a uma situação de crise que apenas alargou a crise existente. Tão errada era que no mercado de trabalho as empresas passaram a distinguir entre os licenciados antes de Bolonha e pós- Bolonha, assim como entre mestres de pós Bolonha e de antes de Bolonha. Multiplicaram-se a seguir os mestrados e cursos de doutoramento e os estudantes sem emprego andavam de formação em formação a gastar tempo e dinheiro. Tinha-se pressa de mandar para o desemprego ou de alimentar à baixa os salários existentes dos jovens licenciados, é o que pode dizer. Uma vergonha iniciada pela AD e finalizada pelo PS, com Mariano Gago.

Como se o desastre de Bolonha não chegasse veio depois a vaga de reestruturar as faculdades em termos de atratividade, de competitividade, de marketing, de cursos em inglês para quem não sabe sequer português com o mínimo de qualidade, quanto mais inglês, desestruturando-se o pouco que ainda restava de pós Bolonha, e passámos a emitir diplomas que ilustram sobretudo a ignorância de quem os possui. Estamos a falar de um arco de tempo que vai de meados desde anos 90 até agora, ou seja, temos cerca de 30 anos de desestruturação do ensino superior e onde os últimos 15 anos terão sido catastróficos.

Se falarmos genericamente em termos geracionais temos como alvo da nossa análise a formação de duas gerações, a geração Y e a geração Z e em que a dominante entre os políticos é a geração X. Por geração X, entende-se as pessoas nascidas entre 1965-1980, a geração dos políticos sem classe como se tem visto, por geração Y, entende-se as pessoas nascidas entre 1980 e meados da década de 90, e a geração Z, as pessoas nascidas entre meados de 90 e 2010, a geração que genericamente as empresas não querem empregar porque acham que eles não têm hábitos de trabalho. As “vítimas” da crise do ensino são pois as pessoas que, por mecanismo de facilidade de análise, estão agrupadas nas gerações Y e Z. É muita gente a sair das Faculdades como ignorantes e a serem depois arrasados no mercado de trabalho. São camadas e camadas de descontentes que se fabricam desta forma e vão votar no Chega ou na Iniciativa Liberal. Os resultados mostram-no, para quem tenha dúvidas.

Face ao contexto que levou às eleições e face aos resultados eleitorais considerámos que uma das razões que os explicam estão na formação cultural da maioria de um povo que devido à manipulação política das últimas décadas e à desestruturação do ensino se tornou maioritariamente incapaz de distinguir afirmações de argumentações, como assinala Bradford DeLong no seu artigo sobre a leitura de livros grandes e difíceis. Como assinala este autor, com esta incapacidade de distinguir entre uma coisa e outra, leva-se “a que o discurso público sai prejudicado. A política sai prejudicada. A democracia sai prejudicada. Porque o espaço em que pensamos juntos — através do tempo, da tradição e da perspetiva — é reduzido ao que corresponde a uma reação instantânea, eventualmente polémica, da realidade atual”. (o negro forte é nosso) Fim de citação

Do jornal Público e numa análise sobre os resultados eleitorais diz-se o seguinte e passamos a transcrever

Os socialistas perderam eleitorado em toda a linha, independentemente da idade, do género ou da escolarização, por comparação com 2022. E foram mesmo ultrapassados por outros partidos, inclusive mais pequenos em alguns segmentos: os socialistas ficaram em quarto lugar, atrás da IL, no apoio dos jovens, homens (entre os 16 e os 24 anos) e abaixo da AD e do Chega nos eleitores com o ensino secundário. Estão ainda a competir ombro a ombro com o Livre no voto jovem feminino (na mesma faixa etária dos 16-24 anos)

Olhando para a intersecção entre escolaridade, idade e género, os autores concluem que o “PS perdeu apoio entre homens e mulheres, e entre todos os grupos de escolaridade nos últimos 3 anos”

(…) Por outro lado, o Chega cresceu em todos os grupos sociais” mas é precisamente entre os eleitores mais velhos que tem “crescimento mais modesto” (abaixo dos 10%). De resto conseguiu alargar o seu voto “junto do eleitorado masculino” quando já dominava entre os homens com menos de 35 anos em 2024. E agora é o partido mais votado entre os homens até aos 55 anos”. Fim de citação

Em termos de gráficos repare-se e atente-se nas linhas a verde, geração Z, amarelo (geração Z e Y) e vermelho (geração X e Y). Elucidativas de gerações que cresceram a olhar para o seu umbigo, é o que podemos dizer tendo em conta os resultados aqui mostrados e o que, como homem de esquerda, posso pensar sobre os diferentes partidos.

 

E o que tivemos nestas eleições foi sobretudo uma eleição assente em polémica e por responsabilidade pura e simples de Luís Montenegro, o homem que exigia a demissão de António Costa, acusando-o de falta de transparência, enquanto reserva para si, agora, o direito à opacidade e isto uma verdadeira ilustração do que nos explicou Bradford DeLong em 2019! Aliás, a ida para eleições surge exatamente porque Luís Montenegro se recusou a demonstrações, preferindo as afirmações suas sobre o conflito de interesses de que poderia vir a ser acusado, afirmando que nada no seu comportamento estava fora da ética. Acabou mesmo por dizer que não tinha nada a explicar aos políticos. E o povo, pelos vistos, compreendeu e aceitou.

Isto foi antes das eleições. E a sua campanha eleitoral foi mais do mesmo e Montenegro ganhou. Mas não só ele. Ganhou também a Iniciativa Liberal e, sobretudo, ganhou estrondosamente o Chega. Quanto à Iniciativa Liberal, um partido mais polido que o Chega, é curioso como sobe e com quem sobe: trata-se de um partido que defende cada vez menos Estado, menos impostos, um simpatizante de Javier Milei. O seu agora ex-presidente, Rui Rocha, defende os pontos de vista de Milei de um neoliberalismo puro e duro com tanto afinco que poderia ser chamado “O Senhor Menos Imposto”, um discurso apelativo paras as gentes da classe média -alta e da alta burguesia.

Face a estes discursos, os ignorantes saídos das nossas Faculdades nem sequer se aperceberam que menos Estado, menos impostos, significa menos serviços públicos de qualidade, inclusive na saúde, menos efeitos redistributivos, menos apoios financeiros à juventude à procura do primeiro emprego, assim como menos apoios à juventude mais carenciada, etc., etc. E esta juventude que alimenta as votações da Iniciativa Liberal, e fazem-na na mira de menos impostos sobre rendimentos que não têm e fazem-no porque sonham que serão empreendedores e depois futuros empresários de prestígio. Sonhar é um direito, mas confundir o sonho com a realidade é uma falta de discernimento, o que se costuma fazer pagar muito caro.

Vimos com as linhas a verde, a amarelo e a vermelho como é que foi o comportamento eleitoral das gerações Z, Y e também uma parte da geração Y. Estas duas coortes, a Y e a Z foram curiosamente as grandes vítimas do ensino, não só pelo que lhes ensinaram, mas sobretudo pelo que não se lhes exigia e ao tornar o ensino cada vez menos exigente são menos capacidades intelectuais que se criam, são menos capacidades de resistência no trabalho, são menos capacidades de concentração que se estabelecem. É grave nas duas coortes mas sobretudo na geração Z.

No final da minha carreira (2012) dizia eu aos meus estudantes que eles faziam parte de uma geração que cresceu a ver enquanto a minha cresceu a ler. Hoje não diria assim: diria antes que eles fazem parte de uma geração que cresceu a ver e a esquecer, enquanto a minha foi uma geração que cresceu a ler e a reter o que leu. Diria ainda mais: faço parte de uma geração que cresceu com liberdade a menos e responsabilidades a mais, enquanto a geração de agora cresceu com liberdade a mais e responsabilidade a menos. Não se trata de uma questão de simples detalhe: faço parte do grupo enorme de gente que ajudou a construir abril, as gerações Y e Z, compõem o grupo de gente que lentamente o anda a destruir.

Ainda quanto a esta coorte de população, a sua incapacidade para o trabalho está a tornar-se uma evidência, com muitos jovens licenciados a não conseguirem integrar-se no mercado de trabalho e a sujeitarem-se aos condicionalismos dos empregos, fenómeno a que no Japão já se dá o nome de geração perdida. No Japão e para a mesma coorte da população há um outro grupo, que se apresenta com défices brutais de sociabilidade, a que neste país se dá o nome de Hikikomori, jovens que vivem maioritariamente em casa dos pais e pretendem viver à margem da sociedade. Este é um fenómeno que de forma ainda muito larvar já se começa a sentir nas grandes cidades em Portugal e atinge sobretudo os filhos da classe média e média-alta. No nosso caso, essa geração Z comporta ainda um outro grupo, talvez a ser ainda o maioritário dentro desta geração, grupo este com défices de cultura e de vivncia social que lhes dificulta a capacidade de reação aos aléas da vida, desde a adolescência. e saltam de emprego em emprego, de namorada(o) em namorada(o) e depois de separação em separação. A violência no namoro é um exemplo tipo dessa falta de sociabilidade. O défice de sociabilidade, representa a não aprendizagem de viver com os outros [1], que vem desde o não aprender a brincar quando criança [2], desde a ausência de desportos de grupos, etc.. E um outro exemplo dessa não sociabilidade encontramo-la nas brincadeiras desastrosas ou humilhantes das Queima das Fitas sejam elas no Porto, Coimbra, Lisboa, Faro ou noutros sítios.

As razões para o que acabo de descrever não estão também desligadas do funcionamento ou disfuncionamento do mercado de trabalho e de enquadramento social e diremos mesmo que as inter-relações entre mercados de trabalho, entre enquadramentos sociais e disfuncionais individuais não isolados são tão intensas que se torna difícil distinguir quem é que provoca o quê. A ser assim, isto diz-nos que as soluções a encontrar têm de ter um caracter global, o que nos remete de imediato para o plano político. E não creio que a coligação que agora chega ao poder olha para estes disfuncionamentos, para estas articulações.

Sublinhe-se que nestes disfuncionamentos entram questões que vão desde os processos de produção e das dinâmicas da sua transformação, à desregulação dos mercados de trabalho, inclusive ao desrespeito dos horários de trabalho, à fragmentação da família, e mesmo que a família não esteja fragmentada, esta está cada vez mais impossibilitada em exercer o seu papel na educação pela aleatoriedade da vida profissional cada vez mais sem horários e cada vez mais desgastante.

A este declínio da formação e socialização das crianças a sociedade responde com uma extraordinária falta de resposta, com uma brutal inércia: veja-se a ausência dos parques infantis, vejam-se os recreios das escolas, onde falta pessoal e o pouco pessoal que existe muitas das vezes está desajustado para as exigências impostas pelas formas atuais de estar das crianças, que intelectualmente são mais filhos dos Tik-Tok, de Instagram e de outras plataformas (a)sociais do que da vivência com os próprios pais. E veja-se o drama dos pais quando chegam as férias: não têm onde colocar os filhos. Há nisto uma situação curiosa, exponenciada pelo PS, pela ministra Maria de Lurdes Rodrigues: os meninos não podiam ter “feriado”, o furo da falta de algum professor: não, os meninos apenas têm que estudar, estudar, mesmo que seja com um professor de ginástica a cobrir o furo de um professor de filosofia! Mas isto diz-nos mais: a esperança de vida é cada vez mais elevada e o que se quer com o atual sistema de ensino é que os estudantes, a ficarem cada vez mais imaturos, saiam para o mercado de trabalho cada vez mais cedo, mesmo que lhes faltem empregos. Se isto não é crueldade, é o quê? É essa lógica produtivista que ainda é dominante hoje no nosso sistema.

Pessoalmente preferiria que mesmo para o programa da primária este fosse lecionado em 5 anos, nunca em ensino digital, e sublinho com a mesma matéria embora com necessárias reformulações de ordem pedagógica., pois há que reforçar as bases com que se chega ao ciclo. Depois, há que criar a via profissional e via dita real no secundário, à boa maneira antiga, o que os chineses estão a fazer. Depois, chega-se à Universidade ou aos Politécnicos, os antigos Institutos Industriais adaptados, mas nunca como versão degradada das Universidades, com uma outra espessura intelectual e em vez de encartados com diplomas em que se atesta a ignorância se façam cursos com exigência e profissionalismo, assente em dois eixos:

  1. A função das Universidades e dos Novos Politécnicos é levar os estudantes a ganharem capacidade de trabalho e aprenderem a aprender
  2. A função das empresas privadas e das Instituições públicas é ensinar os estudantes não a aprender a aprender, mas sim a aprender a fazer.

 

Nada disso se passa hoje. O que temos hoje é uma maioria de jovens incapazes de viver em sociedade, fixados sobretudo no seu umbigo, o que temos hoje são estruturas de ensino completamente desajustados tanto nas suas funções como nos programas de ensino, o que temos hoje é Instituições de Ensino que se assumem como fabricantes de ignorantes encartados, ignorantes diplomados, a que chamam a geração mais bem formada de sempre, o que em termos geracionais é simplesmente uma grande mentira. É a mais diplomada, isso é certo, mas não é a mais bem formada, longe disso [3].

O resultado de tudo isto é termos uma população de fraco nível cultural, de baixa capacidade de rigor analítico, incapaz muitas vezes em distinguir o que é afirmação do que é argumentação, realidade esta que Montenegro parece muito bem conhecer, daí a forma como a sua campanha foi conduzida. Em suma, um dos elementos chave na explicação para os resultados eleitorais, está na política absurda que as elites de Lisboa, PSD e PS têm praticado ao longo de décadas em termos de formação/aprendizagem. Mas, como é óbvio, isto por si-só, não chega para explicar os resultados eleitorais obtidos.

Encontramo-nos, penso eu, na situação portuguesa com algum paralelismo com a situação dos Estados Unidos que vou aqui expor apenas em termos de ideia. Os Estados Unidos, por efeito da globalização foram sujeitos a um processo de desindustrialização e isto foi uma evolução defendida tanto à direita como à esquerda. Se lerem textos antigos de Robert Reich, um dos mais importantes intelectuais americanos da era Clinton, e mesmo de agora, vê-se que ele defendia esse processo, com uma hipótese- a subida do nível de formação do povo americano e a deslocação dos trabalhadores para o setor serviços.

No caso português, não desindustrializámos, não tínhamos grandes indústrias, sendo certo que as clássicas que tínhamos perdemo-las, como foi o caso da Sorefame e da Bombardier, fizemos algo diferente: empurrámos sucessivas camadas de jovens para cursos e cursinhos, muitos deles na mira de serem empresários, daí a importância da Iniciativa Liberal, depois alimentámos o desenvolvimento do setor serviços. Mas com os diabos. Fizemo-lo de forma tão desajeitada que só aumentámos a precariedade dos jovens para essa via encaminhados e, entretanto, reduzimos drasticamente a sua importância na agricultura. Aqui seguimos a via da barbárie: pela via da emigração, na altura maioritariamente gente da zona leste, chutámos muitos camponeses portugueses para a via da agricultura de subsistência, e enchemos os campos com trabalho de imigrantes ao mais baixo custo possível. Mas como se tratava de minimizar custos, os imigrantes foram tratados como pura mercadoria e ao mais baixo preço possível: o resto, eram pessoas, não o esqueçamos, isso não era com ninguém. Os custos sociais começam a aparecer e quem ganhou com eles? Quem se aproveitou do mal-estar para o polarizar, não para o resolver porque, quanto a isso, não vimos nada no Chega, nem esperamos ver. Foi o Chega.

Tal como nos Estados Unidos isto ajudou e em muito a direita a chegar ao poder. No caso dos Estados Unidos a globalização ainda deu algum reforço à pequena e à média burguesia, classe dita de quadros altamente especializados porque o setor serviços dos americanos não tem paralelo com a pobreza do nosso, mas isso não chegou: os deploráveis de Hillary Clinton por protesto levaram Trump ao poder no primeiro mandato, aqui os zangados contra a política europeísta de António Costa deram um resultado equivalente: Montenegro chega ao poder e o PS é colocado em terceiro partido.

Nesta queda do PS, o que para mim muito me custa é que um dos mais representativos elementos da esquerda deste país, Pedro Nuno Santos, saia derrotado e desta maneira. Pedro Nuno Santos não caiu pela má campanha, não fez uma má campanha, mas sim pela má situação que a este PS foi deixada e pela perda de credibilidade do PS no imaginário público, dado o estrondoso falhanço de Costa com a sua governação de cerca de oito anos. O desaparecimento dessa imagem negativa levaria tempo a desaparecer e esse tempo não lhe foi dado. E o que iremos ter agora com José Luís Carneiro, apesar de ser um homem muito sério e isso é cada vez mais raro na política, será uma viragem do PS à direita, será uma espécie de Frente Nacional em Defesa da Democracia contra o Chega com o objetivo de funcionar também em defesa da Constituição. Neste contexto, teremos os negócios da classe política a correrem como de costume, e, se isto for assim mesmo, teremos o Chega em primeiro lugar nas próximas eleições.

 

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Notas

[1] Aqui dou um exemplo curioso. Podia dar muitos. Uma estudante que me é muito próxima estava no terceiro ano de Faculdade. Tinha apanhado os dois primeiros anos em confinamentos e em que os confinamentos foram respeitados a rigor até porque a sua mãe era asmática. O mesmo não se terá passados com amigos seus de outras faculdades. Perdeu-se assim o período de ouro para estabelecer amizades na sua faculdade. Tentou integrar-se a partir do terceiro ano e através de um grupo encarregado de organizar um carro da sua Faculdade para o cortejo da Queima das Fitas e nesse grupo até teria duas amigas, Um dia recebe uma mensagem, e aqui vamos ser muito rigorosos no que afirmamos, para estar no bar X das 3 às 5 da madrugada para servir bebidas pois as receitas reverteriam a favor do carro da Queima. Não viu a mensagem, e mesmo se a visse, não sei se a mãe a deixaria ir. Repare-se nas horas. Iria e viria sozinha para casa!. Não viu a mensagem mas no dia seguinte, de manhã cedo, depara-se com a mensagem logo seguida de uma outra dizendo mais ou menos o seguinte: faltaste aos deveres, és punida com a multa de 70 euros ou serás expulsa. A estudante com a ajuda da família optou por pagar os 70 euros e deixou a organização da Queima. Face aos outros, o assunto morreu ali, mas nela não. Deixou-lhe uma enorme mágoa. Hoje, que concluo esta nota, é dia de cortejo da Queima em Coimbra e ela foi ter com amigos que tem no Porto. Não é por acaso. Este exemplo mostra a incapacidade que esta geração tem de lidar uns com os outros e o problema, na minha opinião, não é desta estudante, o problema dela é um outro, é a incapacidade de lidar com o que é muito desagradável nos outros. A vida dar-lhe-á, espero eu, essa resistência que agora ainda não tem.

[2] A propósito, lembram-se de ver um pai ou mãe numa grande cidade a ensinar o seu filho ou filha a andar de bicicleta? Eu já não me lembro de ver uma tal coisa e não é por acaso, é porque cada vez mais os espaços de brincadeira para as nossas crianças são cada vez mais escassos e mais reduzidos: o betão primeiro, parece ser a palavra de ordem do sistema.

[3] Curiosamente, com este texto já escrito leio o artigo de Pacheco Pereira publicado no jornal Público de 24 de maio e intitulado A desesperança, a solidão e a ignorância que alimentam o Chega, onde se lê que estamos a criar “sociedades com novas formas de solidão, um individualismo triste, um psicologismo “mental”, acompanhado de uma incapacidade de acção colectiva, e mais ignorante, A ignorância das “gerações mais bem preparadas” é também nova face à antiga ignorância, que sabia que precisava de saber mais. A de hoje acha que meia dúzia de memes chega para conhecer tudo, opinar sobre tudo e que não é preciso ler livros.”

 

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