A Morte Lenta da Universidade — Nota sobre comentários aos meus textos “Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade” e “Gritar ao vento que passa”. Por Júlio Marques Mota

 

 

 

20 min de leitura

Nota sobre comentários aos meus textos Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade e Gritar ao vento que passa

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, em 10 de Junho de 2025

 

Escrevi um 2 de junho um texto que intitulei: Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade

 e em 8 de junho publiquei um outro tematicamente ligado, intitulado Gritar ao vento que passa.

Não haveria nada de especial a assinalar quanto a estes dois textos, exceto que estes dois textos receberam três comentários dignos de nota. O texto Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade foi depois distribuído a alguns docentes da minha antiga faculdade, a FEUC; acompanhado de um outro texto, um texto muito grande sobre uma morte desde há muito anunciada: a da Universidade. E este texto começarei a editá-lo amanhã.

 

Vejamos então os comentários recebidos:

1. Sobre Uma reflexão em torno das eleições e de uma autópsia à Universidade

Um leitor atento manda-nos um link para um texto editado em Ladrões de Bicicletas. Trata-se de um texto bem curioso de Manuel M. Pinto como uma merecida critica a um texto da direita pura e dura, João Tovar Jalles, para quem a economia é — “uma ciência social baseada na análise de dados, no estudo de incentivos e na aceitação de trade-offs”, isto é, a economia não tem nada a ver com o mundo real, com as suas classes sociais, com os conflitos sociais que necessariamente emergem na luta entre estas classes, com os trade-offs, muitas vezes encontrados, que na lógica de Jalles serão introduzidos pela porta do cavalo, a que ele pomposamente chama depois ciência.

Considero o texto de João M. Pinto um bom texto, que peca apenas por ser um texto muito curto para o que nele está em jogo.

No texto de Manuel M. Pinto pode-se ler:

“No fundo, Jalles disfarça mal a vontade de imitar Trump nas universidades portuguesas. E isto num contexto, a economia, onde há décadas que está em curso no nosso país uma purga de tudo o que coloque os estudantes de licenciatura a pensar criticamente sobre o mundo que os rodeia, com a progressiva exclusão de todas as ricas áreas, métodos ou correntes que desafiem um neoliberalismo gerador de tantos custos sociais” (…)

Os resultados estão à vista em tantas licenciaturas, autênticos viveiros de individualismo possessivo, de liberais até dizer chega, com vieses ideológicos notáveis e estudados. Felizmente, há quem insista no pluralismo, quem seja fiel a uma certa ideia de universidade e de economia política, na linha de José Teixeira Ribeiro (história partilhada por António Avelãs Nunes): um estudante disse um dia ao velho Mestre que todos sabiam que ele era de esquerda, porque era o único professor que não fazia política na sala de aulas”. Fim de citação.

O que Manuel Pinto defende é um ensino de qualidade, fortemente crítico, que abra cada estudante decentemente para a profissão e para a sociedade e este é um ponto de vista bem presente no nosso texto.

 

2. Sobre Gritar ao vento que passa.

Uma professora da educação especial escreve:

Acabei de ler o texto e estou entre o chocada, o esmagada e o comovida – comovida porque não consegui deixar de me lembrar de tantos problemas que tive este ano na escola, exatamente por defender uma abordagem em que antes de tudo se aprende a conviver e a confiar nos outros (crianças e adultos) e onde quis organizar uma sala onde havia espaço para brincar e onde os professores poderiam brincar com os miúdos (e atenção que estou a falar de miúdos com enormes problemas de desenvolvimento com um profundo impacto na capacidade de aprendizagem e socialização…) e promover atividades que levariam a que algumas aprendizagens pudessem ocorrer naturalmente (nomeadamente conceitos matemáticos tais como mais/menos, maior/menor, igual/diferente e a noção de quantidade, que surgem naturalmente no decorrer de qualquer brincadeira – o teu carrinho é maior, dá-me uma peça de lego igual a esta, quero mais duas maçãs, etc, etc) e simplesmente fui mandada estar sentada com os alunos numa sala de aula a dizer-lhes para fazerem linhas e linhas de vogais em letra manuscrita, para os pais ficarem contentes porque assim se provava que estavam a trabalhar muito… e um professor da Faculdade de Economia percebe isso, mas um diretor de agrupamento de escolas não. E isso deixou-me esmagada (e irritada, também).

O Chega vai crescer, sim, e em grande parte por culpa do mau (péssimo!) ensino que está a ser feito nas escolas públicas, onde péssimos professores de 1º ciclo (os principais culpados, porque os que têm um papel determinante) ensinam um péssimo programa. E a tendência vai ser piorar cada vez mais, sem apelo nem agravo – e também sem sentido crítico de uma enorme maioria da população. 

Eu faço o que posso – como disse Maria Montessori, “mudar o mundo, uma criança de cada vez”. Infelizmente é manifestamente insuficiente.” Fim de citação

O texto é extraordinariamente rico e dispensa qualquer comentário

O Expresso publica hoje um curioso artigo de um dos responsáveis pela má qualidade do ensino que temos atualmente, o ex-ministro do PS João Costa, onde se lê:

Um professor que está a classificar as provas de aferição do 6.º ano confidenciou-me a sua preocupação com algumas respostas que está a encontrar nos textos de alguns alunos. Corrigidos os erros ortográficos e pontuação, eis dois exemplos de excertos de resposta a um item que convidava as crianças a fazerem um texto em que relatassem o que fariam se encontrassem uma cria de um animal. Um apelo à elaboração de um texto narrativo e à criatividade dos alunos.

Primeiro exemplo:

“Encontrei um gato preto, nojento. Peguei nele e atirei-o para o rio.

A seguir, apareceu o André Ventura e disse-me:

– És o homem com mais espírito do Chega que eu já vi!

Eu fiquei logo todo contente.”

Segundo exemplo:

“Em um mundo em que todos têm afinidade com os animais, quem não tem afinidade é tratado igual a lixo. Mas não me importo. Os animais são coisas que nos fazem ganhar dinheiro no circo e nas touradas. Querem acabar com isto. Mas vamos limpar Portugal. Viva o André Ventura.”

Quem escreve isto são crianças de 11 anos, que encontram esta insensibilidade e violência legitimada pelo discurso de André Ventura e do seu partido. Parece mentira, mas não é. O mesmo professor relata-me que estes são apenas dois exemplos, que ilustram também o que tem sido o seu trabalho, em sala de aula, a desmontar as mentiras e ódio com que estas crianças têm sido bombardeadas nos últimos tempos.”

(…)

E o ex-ministro acrescenta uma tomada de posição que me parece muito importante:

Este caso é um alerta para os restantes partidos, sobretudo para o PSD e o PS, que, pela sua expressão maior, devem preservar-se como guardiões da democracia. Que não caiam na tentação de, para ir buscar eleitorado perdido, trocarem valores por votos, pisando as maiores conquistas do nosso país. É que o original é sempre melhor dos que as cópias.”

Os dois casos acima, a serem verdade e não tenho problemas em acreditar que o sejam, o que me dói muito, são verdadeiramente monstruosos, mas isso mostra o clima em que a juventude tem estado a ser criada, e disso são responsáveis os governos dos últimos anos, problema que o ex-ministro João Costa passa por cima por considerá-lo apenas como um fenómeno de há anos.

Mas neste último excerto do texto de João Costa diz-se, e repito-me, o seu texto diz:

[Os partidos] que não caiam na tentação de, para ir buscar eleitorado perdido, trocarem valores por votos, pisando as maiores conquistas do nosso país. É que o original é sempre melhor do que as cópias.

 

E aqui coloca-se-me uma pergunta: porque é que o original é sempre melhor do que que as cópias?

A razão é simples: porque na viragem à direita são as bases populares de esquerda que se esfumam – vide o caso americano -, enquanto pela direita são os recalcamentos contra a esquerda que persistem e porque a direita quererá sempre mais e para além dos limites a que a esquerda será capaz de ir.

Mas ao ler o texto de João Costa não sei se este se incomodaria se se ilegalizasse o Chega. Isto pode parecer absurdo, mas é uma ideia que os sociais-democratas começam a levantar, é uma ideia que Macron tem na cabeça, é uma ideia que não incomodaria Keith Starmer na Inglaterra se se fosse para a ilegalização de The Reform, o partido de Farage. Será que João Costa tem isso em mente, que se proíba o Chega ?

Repare-se que ele joga numa coligação PS/AD. Aqui levanta-se um problema: um governo PS/AD não pode, por definição, gerar um Governo, uma Administração Pública à esquerda e, portanto, será incapaz de executar uma política económica e social capaz de servir os reais interesses do povo português. Políticas efetivamente populares é coisa que o PS ao longo de várias legislaturas não soube fazer de forma decente, políticas populares é coisa que assusta a AD. Assim, não agradará nem de longe nem de perto à esquerda e muito menos satisfará as pessoas mais à direita: esta coligação ficará confinada ao centro, a um centro politicamente reduzido e perderá a favor do …. Chega, a menos que este deixe de existir, a menos que seja ilegalizado.

Para dar um exemplo da incapacidade esperada de uma coligação destas, uma coisa que incomodou, e muito, no texto de João Costa, foi o enorme peso dado à questão LGBT como se isto seja uma causa maior no que afeta as condições de vida da maior parte da população portuguesa.

Mas os casos apontados por João Costa são graves, gravíssimos: temos uma população jovem facilmente cativa dos incendiários políticos deste país e isto significa que estamos perante uma sociedade disfuncional, perante um sistema de ensino disfuncional e do qual, LAMENTO DIZÊ-LO, João Costa é um dos grandes responsáveis, pelo menos nos últimos anos.

Estou cansado de falar dos efeitos desestruturantes da gestão do COVID para aqueles que estavam na altura na primária, os miúdos de 11-12 de anos, os do exemplo apontado agora por João Costa: Mais grave que isso: esses estudantes já maioritariamente deficitários em aquisição de aprendizagem, os estudantes de 11-12 anos, são agora encaminhados para o ensino digital, para o ensino sem livros materiais, o que é um insulto à inteligência de todos nós. Alias recentemente foi reconhecido. num relatório oficial:

Adoção de manuais digitais

 De acordo com a informação obtida e com base nas experiências feitas nos projetos-piloto e as práticas internacionais, o uso de manuais digitais na sua generalidade não será feito. Uma das razões fundamentais é de que a prática da escrita é importante para o raciocínio mental, bem como existirem matérias que não devem ser feitas só no digital. Para já a decisão foi tomada para os 1º e 2º ciclo, onde não é mesmo considerado adequado, sendo que nos restantes anos é preciso continuar a avaliação.

Esta avaliação não impede, no entanto, a preparação de recursos educativos digitais, para melhorar a diversidade de recursos disponíveis e capacitar digitalmente professores e alunos. (original aqui)

Será que João Costa, o ministro, não sabia que era assim? Ou será que sabia e que terá preferido seguir outros interesses. Comprar um milhão de computadores não é uma despesa a brincar, pagar às editoras a digitalização também não é uma despesa a brincar, sendo certo que as editoras iriam manter grande parte da venda de livros, como antes! Simplesmente, isso eu não sei, mas há uma coisa que eu sei, que os jovens de 11-12 anos, os jovens da idade referida por João Costa, continuarão a ser vítimas do ensino digital por ele introduzido e pelo ministro atual da AD mantido. Este é o caso de uma neta minha.

Com efeito, recebe-se em casa o seguinte email dirigido ao encarregado/a de educação, enviado pela Direção da Escola, onde se pratica o ensino digital:

Ex.mas/os Senhoras/res Encarregadas/os de Educação:

Na sequência de um estudo que está a ser realizado pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto sobre os Manuais Digitais, os alunos envolvidos no projeto responderão a um questionário da responsabilidade da Investigadora do Projeto. Caso entenda que a/o sua/seu Educanda/o não deve participar, solicitamos que informe o/a Diretor/a de Turma até às 10:00 do próximo dia 11 de junho.

 

O questionário não é feito aos encarregados de educação, mas às crianças e em plena aula de ensino digital, logo à disposição do sistema educativo. Dá a entender que mesmo para crianças desta idade o desejo da criança-consumidora-rainha está acima de tudo e as opções da Escola terão a ver com esses desejos e não com a vontade dos pais. Esta foi a linha de ensino de João Costa e a consequência será então termos crianças autómatos ao sabor das emoções que os mercados políticos lhes vão criando, transformando-lhes a massa cinzenta das suas cabecinhas em material altamente infamável para gáudio da extrema-direita em Portugal, conferindo aos Venturas de hoje e de amanhã, a capacidade de pensar por eles, e depois também por nós.  Talvez seja aqui oportuno, citar um dos malditos deste país, Boaventura Sousa Santos, quando nos diz:

[…] deixarmos de pensar, equivale a sermos expulsos de casa e a vaguear sem abrigo nem sentido num mundo caótico e distópico de monstros engravatados que nos governarão em palácios de luxo e converterão em lixo tudo o que se interpuser no trânsito das suas viaturas híper-blindadas contra a busca da verdade.

O perigo iminente é que deixemos de ser seres pensantes (res cogitans de Descartes) para passarmos a ser seres pensados (res cogitata). Ser pensado é ter deixado de pensar, quer por não ser necessário pensar para viver tranquilamente nesta sociedade, quer por ser tão perigoso pensar que equivale ao risco iminente de ser morto ou, em alternativa, de se suicidar. Eis os perigos mais imediatos.

O perigo de pensar que os certificados da mediocridade não são válidos

Se os sistemas de educação e as universidades continuarem na senda da ignorância programada para os estudantes esquecerem tudo o que não interessa aos donos dos algoritmos e do poder, serão, em breve, lares para idosos de tenra idade onde aprendem o que já sabem há muito graças à magnanimidade das redes sociais, e onde o conforto e o isolamento do mundo real são fundamentais para os preparar para uma morte serena, isto é, para viverem nas bolhas onde toda a gente vive morta sem saber.

 

3. Sobre os dois textos, uma nota de um grande amigo meu:

 

Júlio

Deixe de sofrer.

Eu tive a mesma dose:

    1. Tive de me demitir do ISCEF por bandalheira;
    2. Tirei o Fomento da lama e pu-lo logo a seguir aos grupos bancários mais importantes (CGD e outros três), mas fui o único a que o sr. ministro João Salgueiro não renovou o mandato;
    3. Fui diretor geral da Comissão, mas mandado embora por não fazer os fretes que uma vaca italiana queria (mais tarde e a partir de um depoimento meu [feito a] toda a Comissão teve de pedir a demissão, o que até hoje só aconteceu naquela vez);
    4. Fui para o Montepio para ajudar o sr. Lopes, que era cego e não via nada e me foi encostando na parede até eu decidir começar a afrontá-lo publicamente. Aí demitiu-se;
    5. Sou o único em funções a quem foi atribuído não idoneidade pelo bando de Portugal (todos os outros cometeram crimes reconhecidos em tribunal; eu movi uma acção que dorme num tribunal há 8,5 anos).

Desculpe, mas é tempo de se estar nas tintas para a FEUC

Um abraço a sério

 

A minha resposta:

Meu caro

Tem razão do que diz, mas…

O relato do que lhe aconteceu é fabuloso.

Quanto ao mas… a FEUC hoje representa o país em miniatura. está lá tudo. O abuso do poder, o poder dos ignorantes, a misoginia feroz, o silêncio das mulheres, a estrutura piramidal do poder artificialmente conquistado, corrijo, falo de mando e não de poder, a falta de critérios nos júris dos concursos, estes variam com a onda, está o desprezo pelos estudantes e como estes devem ser vistos pelo futuro que serão, há aqui um desprezo pela noção de futuro e um peso extremo do presentismo das carreiras pessoais.

Ora tudo isto é geral hoje em Portugal, logo, do que eu falo é do meu e do seu país, de um país torturado, de um país a ser desfeito pelos gangues de incompetentes que nos desgovernam. Fim de citação

Posto isto iniciarei proximamente a publicação de Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade, um texto que será publicado em 8 partes.

Aqui vos deixo por hoje a introdução a esta pequena série e que foi já enviada aos meus antigos colegas da FEUC:

 

Introdução

A propósito de uma dedicatória, de uma nota sobre o ensino superior

Esta é uma dedicatória curiosa. Na base da preparação do presente texto esteve a recensão escrita por Branko Milanovic ao livro Le Monde Confisqué de Arnaud Orain [1],. Ora, o trabalho de tradução para português desta recensão dedico-o a um antigo aluno meu, meu aluno de licenciatura, meu aluno de mestrado e meu orientando de tese, Rui Ximenes Calvinho. E faço-o pelo tema que ele aceitou trabalhar e desenvolver, o que fez com muito empenho e qualidade. Uma tese sobre transporte marítimo, uma muito boa tese, uma muito boa defesa de tese, uma muito boa arguição de Álvaro Garrido e esta de Álvaro Garrido, diria eu, hoje ficaria a meio caminho entre uma tese de mestrado e uma de doutoramento. O seu a seu dono.

Curiosamente, pelo que nos diz a recensão de Milanovic, o livro é uma obra merecedora de vir a ser comprada e lida atentamente, o que espero fazer em breve, e em que alguns dos pontos aflorados na tese de mestrado de Rui Calvinho, por mim proposta e por mim orientada, são temas desenvolvidos neste livro, Le Monde Confisqué, o que não deixa de ser curioso. Estamos a cerca de 15 anos de distância, tempo decorrido entre a elaboração da tese de mestrado referida e a publicação do livro de Arnaud Orain. Penso que este paralelismo temático só terá sido possível pela existência de muita coisa lida em comum e a fazer parte do acervo cultural e científico de Arnaud Orain e de mim próprio. De forma mais simples, serei levado a pensar que o que há aqui de comum entre nós os dois é na base uma formação de polímata, o que atualmente é uma raridade nas Universidades dado o modelo neoliberal em que o ensino superior assenta. Hoje, coletivamente os polimatas são uma espécie em extinção

Com efeito, hoje, no quadro do modelo neoliberal de ensino, assente também no exacerbar da concorrência dos docentes entre si, neste modelo que curiosamente os seus intervenientes não contestam, e se o fazem prejudicam-se na sua progressão na carreira, pretende-se formar a toda a pressa catedráticos, nem que sejam de aviário e assim elevar o ranking das Faculdades, sejam elas quais forem, uma vez que o ranking é determinado não pelo elevado nível de conhecimentos acumulados nos seus docentes e aos alunos ensinados, isso é hoje completamente irrelevante, mas sim pelo número de catedráticos de aviário que se tenha em funções. Daqui emerge uma outra realidade. Cria-se uma pirâmide de competências estabelecida não pelo nível de conhecimentos adquiridos, mas pelos graus universitários atingidos.

No quadro desta pirâmide, deixo-vos aqui um exemplo que aconteceu recentemente na NOVA FEUC criada por Tiago Sequeira, Álvaro Garrido, Pedro Godinho, Luis Peres Lopes e outros: é aprovado como catedrático em Economia, o licenciado Pedro Godinho, engenheiro informático de formação e com um mestrado em Economia Financeira, e doutorado em Gestão – Ciência Aplicada à Decisão. Posso estar enganado no que estou a dizer, mas se estiver enganado, peço desculpa pelo facto, mas o certo é que estou perante um Conselho Científico que para um dado concurso para catedrático selecionou na sua primeira sessão os candidatos que eram elegíveis para o dito concurso por cumprirem as regras de admissão exigidas e numa reunião seguinte elimina um dos candidatos anteriormente selecionados por não cumprir as ditas regras! Ora, este último candidato que é agora rejeitado, tinha sido aprovado na FEUC num concurso internacional anterior a este para o posto de professor associado em que ficou em primeiro lugar, a seguir é também aceite em concurso para professor catedrático e fica em terceiro lugar e depois, num concurso seguinte também para professor catedrático, é primeiramente aceite, mas rejeitado depois na sessão seguinte do júri, e isto por não cumprir os ditos requisitos! Isto é, no mínimo, muito estranho, ou talvez não seja, e o problema talvez seja então meu, talvez eu seja um tipo de compreensão tão, tão lenta que não seja capaz de compreender o que é a nova racionalidade da FEUC. Talvez seja isso!

Dada a importância da questão, vale a pena ver com algum detalhe o historial destes concursos. Em 2018 o José Fuinhas [2] concorre para a FEUC e para o lugar de professor associado em concurso internacional. Vejamos parte da lista já ordenada pelo júri dos candidatos a este concurso:

Um ano depois, em 2019, abre-se concurso para um lugar de catedrático na Faculdade de Economia. Concorrem e são aceites a concurso os seguintes professores candidatos ao lugar:

1 – Admitir o(s) seguinte(s) candidato(s) por reunir(em) os requisitos exigidos:

– Adelino Manuel Guimarães Fortunato

– Carlos Manuel Gonçalves Carreira

– José Alberto Serra Ferreira Rodrigues Fuinhas

– José Alberto Soares da Fonseca

– Luís Francisco Gomes Dias de Aguiar Conraria

 – Luís Miguel Guilherme da Cruz

– Natália Maria Carvalho Barbosa

– Tiago Miguel Guterres Neves Sequeira

 

E o resultado do concurso foi o seguinte:

Ficou aprovado o Luís Aguiar Conraria que viria mais tarde a declinar o lugar. Aqui direi que não percebo porque é que se concorre para um lugar com esta importância para depois não o aceitar. É estar a brincar às Instituições. As coisas são como são, as pessoas são o que são. A lista está ordenada e o lugar vem a ser ocupado pelo candidato Tiago Neves Sequeira que passa assim do Núcleo de Matemática para os quadros do núcleo de Economia da FEUC e no lugar de catedrático. Sublinho que o José Fuinhas ficou em terceiro lugar[3] neste concurso.

Em junho de 2024 estamos perante novo concurso agora para dois lugares de professor catedrático e num concurso internacional para a área de Economia. Abre-se igualmente concurso para a área de matemática.

Vejamos os resultados da primeira reunião do júri para o cargo de professor catedrático em Economia no concurso de 2024 e aqui temos a lista dos candidatos elegíveis para o cargo, onde se diz explicitamente que estes candidatos reúnem as condições para serem admitidos a concurso.

Citemos extensivamente:

“Aberta a sessão e verificada a existência de quórum legal, de acordo com estipulado no n.º 2 do artigo 11.º do Regulamento de Recrutamento e Contratação de Pessoal Docente da UC (doravante RRCPDUC), o Senhor Presidente do Júri, informou os Senhores Vogais que a reunião tem por objetivo a verificação dos requisitos objetivos de admissão ao concurso e, subsequentemente, a deliberação sobre a admissão/exclusão dos/as candidatos/as, bem como a deliberação sobre a realização de audições públicas, mais informando que a presente reunião tem natureza preparatória da decisão final.

De seguida, o júri procedeu à verificação dos requisitos objetivos de admissão ao concurso, de acordo com o disposto no n.º 3 artigo 23.º do RRCPDUC e nos termos publicitados por intermédio do edital já referido, tendo deliberado, de forma unânime, pela admissão dos candidatos a seguir identificados:

– Carlos Manuel Gonçalves Carreira

– José Alberto Serra Ferreira Rodrigues Fuinhas

– Luis Miguel Guilherme da Cruz

– Miguel Nuno Vieira de Carvalho d´Abreu Varela

– Pedro André Ribeiro Madeira da Cunha Cerqueira

– Pedro Manuel Cortesão Godinho

O Júri entendeu, portanto, que os candidatos acima listados cumpriram os requisitos formais de admissão ao concurso, que podem ser aferidos através da documentação apresentada pelos mesmos, sendo também possível efetuar a avaliação das candidaturas nos termos previstos pelo edital de abertura.

Seguidamente, de acordo com o disposto no n.º 2 artigo 27.º do RRCPDUC, o júri deliberou, por unanimidade, pela não realização da Audição Pública, por entender que a avaliação pelo método de avaliação curricular não suscita qualquer dúvida quanto ao mérito (absoluto e relativo) dos candidatos.

Por fim, a nova reunião de júri ficou agendada para o dia dezoito de junho de dois mil e vinte e quatro, pelas catorze horas e trinta minutos.” Fim de citação.

A ata da reunião do dia 18 de junho diz-nos o seguinte:

Membros do júri

J1 – Joaquim José dos Santos Ramalho

J2 – Aurora Amélia Castro Teixeira

J3 – Maria Joana Dantas Vaz Pais Ribeiro

J4 – Luís Francisco Gomes Dias de Aguiar Conraria

J5 – Ana Maria Matias Santos Balcão Reis Peão da Costa

J6 – Paulino Maria de Freitas Teixeira

J7 – Tiago Miguel Guterres Neves Sequeira

Os candidatos a concurso eram os seguintes:

A – Carlos Manuel Gonçalves Carreira

B – José Alberto Serra Ferreira Rodrigues Fuinhas

C – Luis Miguel Guilherme da Cruz

D – Miguel Nuno Vieira de Carvalho d´Abreu Varela

E – Pedro André Ribeiro Madeira da Cunha Cerqueira

F – Pedro Manuel Cortesão Godinho

“O Presidente do Júri deu, assim, a palavra a todos os restantes elementos para que se pronunciassem, tendo o júri deliberado, por unanimidade, pela não admissão em mérito absoluto do candidato Miguel Nuno Vieira de Carvalho de Abreu Varela e, por maioria, do candidato José Alberto Serra Ferreira Rodrigues Fuinhas, por considerarem que ambos os candidatos não cumprem os requisitos mínimos definidos no ponto IV.5 do Edital.” Fim de citação.

Eliminados os dois candidatos referidos, segue-se a descrição da votação e, a seguir, pode-se ler em ata:

“Da votação efetuada resultou a seguinte ordenação em sede de Avaliação Curricular:

1 – Carlos Manuel Gonçalves Carreira

2 – Pedro Manuel Cortesão Godinho

3 – Pedro André Ribeiro Madeira da Cunha Cerqueira

4 – Luis Miguel Guilherme da Cruz “

Fim de citação.

 

Comparem-se com os dados do concurso para professor associado e do concurso para professor catedrático anteriores a este concurso. Vejam-se os nomes nesses dois concursos com os nomes que são comuns com o concurso de agora, o de 2024, em que para o de professor associado o José Fuinhas ficou em primeiro lugar e no concurso seguinte para catedrático ficou em terceiro lugar. Veja-se que concorrentes a catedráticos no concurso anterior em que o Fuinhas ficou em terceiro lugar são agora membros do júri deste concurso, conforme se mostra na lista acima. Mais ainda, relativamente ao concurso para associado de 2018 vejam-se também quais são os concorrentes para associado que ficaram classificados abaixo do José Fuinhas. Dir-me-ão que a mudança nas posições relativas entre eles, se deve à grande evolução na parte científica dos curricula daqueles que subiram na escala e à estagnação dos que desceram nessa mesma escala, é uma explicação, mas uma explicação só é valida se passível de demonstração e essa demonstração não a vi feita por ninguém.

Mistério deste caso: o candidato José Fuinhas deixou de uma reunião para outra de cumprir os requisitos de admissibilidade a dado concurso para o lugar de catedrático e é excluído do mesmo. Espantosamente, que eu saiba, ninguém se manifestou, ninguém se questionou, muito menos o Reitor, perante uma tal anomalia. É candidato em concurso internacional para professor associado e fica em primeiro lugar, é depois candidato a professor catedrático e fica em terceiro lugar. Agora é excluído de outro concurso por não ter perfil global para o cargo!

Dizem em ata da reunião de junho:

“Em face da classificação final dos/as candidatos/as atribuída por cada Vogal, o Júri procedeu seguidamente à apreciação do mérito absoluto dos/as candidatos/as admitidos/as a esta fase do processo de seleção.

O Presidente do Júri deu, assim, a palavra a todos os restantes elementos para que se pronunciassem, tendo o Júri deliberado, por unanimidade, pela não admissão em mérito absoluto do candidato Miguel Nuno Vieira de Carvalho d´Abreu Varela e, por maioria, do candidato José Alberto Serra Ferreira Rodrigues Fuinhas, por considerarem que ambos os candidatos não cumprem os requisitos mínimos definidos no ponto IV.5 do Edital. Deliberou, ainda, por unanimidade, pela aprovação em mérito absoluto dos restantes candidatos”. Fim de citação.

Não havendo nenhuma informação sobre esta anomalia, sobre o que se passou nas duas aceitações anteriores a concurso e o que se passou na terceira vez, a exclusão, não havendo nenhuma tomada de posição das Instituições perante uma tal anomalia, somos levados a perguntar se será que impera agora a lei da rolha, a lei do medo, a banalização do nepotismo para não citar, mas relembrar aqui Hannah Arendt? Talvez não seja nada disso, acredito que não seja, sinceramente acredito que não seja, mas ao recusar estas hipóteses, deparo-me com uma explicação socialmente mais terrível ainda: a explicação para isto só pode vir da maior presença agora dos jovens turcos no júri, gente sem a tão importante espessura temporal para tomar decisões deste tipo, gente ainda sem memória, gente sem História, gente sem a espessura que a lentidão do tempo confere de consciência aos nossos atos, gente disposta a tudo sacrificar no altar da sua própria carreira. Um problema de ego, afinal. Este é o individualismo extremo que dá substância a muitos dos comportamentos a que assistimos hoje no plano político e a própria história da criação da NOVA FEUC passa exatamente pelo domínio destes jovens turcos. Mas estes jovens turcos nem sequer se apercebem de um detalhe muito importante, apesar de ser um detalhe, tal será, na minha análise, a sua ânsia de poder: ao excluir o José Fuinhos por falta de perfil global para o cargo, estão a desvalorizar a qualidade dos júris que o aceitaram nos concursos anteriores, mas estes júris são exatamente os mesmos que nomearam estes falcões para os referidos cargos de catedráticos e que lhes permite agora excluir o seu colega de concursos anteriores.

___________

Notas

[1] Veja-se o anexo 1.

[2] Agradeço ao José Fuinhas a disponibilidade dos documentos oficiais relativos aos concursos em que ele participou na FEUC, assim como alguns esclarecimentos complementares sobre os mesmos concursos.

[3] Sublinho que em tudo o que se segue não se trata da defesa de José Fuinhas, meu antigo aluno, pois poderia ser um outro qualquer professor e o texto seria exatamente o mesmo. Não se trata de discutir pessoas, mas sim lógicas e práticas institucionais.

 

Leave a Reply