Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade — Posfácio.  Por Júlio Marques Mota

 

Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade — Posfácio

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 9 de junho de 2025

 

O texto Autópsia de uma morte de há muito tempo anunciada, a da Universidade foi previamente enviado a um conjunto de docentes da FEUC acompanhado da seguinte nota que passo a transcrever:

Caros Colegas de outrora

Aqui vos deixo por um lado, um texto pequeno que liga os resultados eleitorais à situação de crise na Universidade, e, por outro, uma longa reflexão que, dada a sua extensão, será publicada por partes no blog A Viagem dos Argonautas. Este último é um longo texto dedicado à morte da Universidade, uma morte lenta que ninguém quer reconhecer, por ignorância, por comodidade ou mesmo por maldade. Neste segundo texto, a análise toma como ponto de referência a FEUC, mas o que se diz dela é extensível a todas as outras, ou o sistema de ensino não fosse ele o mesmo, embora não me custe a admitir que haja pequenos nichos de exceção em mestrados muito específicos, mas fora disso, é tudo equivalente. Trata-se de um texto escrito em março, um texto longo, muito longo, e deixado em poisio para depois o reler e eventualmente modificar.

Depois de meses em poisio, acabei por considerar que não vale a pena mexer-lhe, que é melhor deixá-lo com está, e assim manter o seu ar de escrita não sofisticada, não elaborada, manter o ar de uma escrita sentida, sentida com o coração de quem viveu a Universidade durante quase quarenta anos e a vê hoje, erradamente ou não, em situação de morte lenta, à espera da emissão da sua certidão de óbito, e esta será emitida a partir do ataque desencadeado pelo mais perigoso vírus informático criado pelo Homem, a Inteligência Artificial, e que vai atacar a Universidade no seu principal objetivo: a criação de inteligência humana . Nesta morte lenta, há a angústia das amizades que se perderam, mas esta angústia é a contrapartida de viver na comodidade de ser incómodo. Mas é tempo de revisitar as questões levantadas pelo computador HAL 9000 de Stanley Kubrick em “2001: Odisseia no Espaço”.

Há poucos dias respondi a uma entrevista feita por uma aluna de Mestrado de uma Universidade de Lisboa. Reproduzo aqui um excerto dessa entrevista.

1. Na sua opinião que questões éticas emergem da interação humana com sistemas como o ChatGPT, sobretudo quando utilizados em contextos educativos ou culturais?

Resposta: Fora da formação e da criação, ou seja, como ferramenta de informação pode ser muito útil da mesma forma que ler um livro é útil mas há uma diferença enorme: o livro dá a informação e exige ou pressupõe a elaboração intelectual e a IA substitui-a.

 2. Vê potencial para o ChatGPT contribuir para o desenvolvimento do pensamento crítico? Justifique.

Resposta: Nem pensar. Não contribui para o pensamento crítico, substitui-o, até porque, sublinhemo-lo, o pensamento crítico de cada um é obra de muita coisa que está na cabeça e no sentir de cada um de nós [e não na WEB].

 3. Haverá risco de dependência de sistemas de IA, como o ChatGPT ?

Resposta: É evidente que há e não vejo no contexto presente que se seja capaz, em termos de competências, de responder positivamente ao problema levantado. Veja-se o que se passa com o ensino digital ou com o telemóvel nas escolas. Toda a gente sabia o que é o ensino digital, toda a gente sabia desde há milénios o que é aprender e como se aprende. Toda a gente sabia, mas avançou-se nisso e não há frontalidade para dizer BASTA! Com os telemóveis, sabe-se, por exemplo, que um miúdo com um telemóvel no bolso, mesmo desligado, faz com que ele desça no seu grau de concentração. Mas toda a gente sabe, mas ignora!!!

Com a utilização massiva da IA iremos produzir autómatos que não são máquinas, que são humanos e que enquanto tal, serão piores que os autómatos máquinas e em tudo.” Fim de citação

 

Dei o meu texto sobre a morte da Universidade a ler a uma professora universitária de Lisboa e esta disse-me:

“ Bom, não me parece que os professores se sintam pressionados a passar os alunos. Aliás a má avaliação de um professor pelos alunos, em Portugal, não tem efeito na sua carreira. Ele deve ter cuidado nessas afirmações. Eu acho que a nível da licenciatura há realmente alunos muito incapazes (e acho que em grande medida é culpa dos pais), mas por acaso este semestre estou muito contente com [os alunos] de mestrado. A universidade não está morta. Não podemos pensar assim. É ainda um lugar privilegiado de desenvolvimento de pensamento e de difusão do saber. Mas que há muitos que nem querem saber, isso é verdade“. Fim de citação

É uma opinião que respeito, mas se a lerem com cuidado verificarão que há nela muito de comum com a crítica que faço ao longo de dezenas de páginas.

Não toco no texto escrito em março, mas deixem-me fazer duas a três perguntas e pensem nelas:

  1. Quando se escreve cada vez menos, quando se sabe cada vez menos articular duas a três frases de sequência, não há ninguém em Portugal que seja capaz de proibir as provas de exame de resposta múltipla?
  2. Ligada a esta questão haverá gente em Portugal professores capazes de estruturar provas de resposta múltipla com pontuação negativa?
  3. Porquê as provas de exame em sistema digital na Universidade e possivelmente muito em breve no secundário? Este é o sistema defendido por Álvaro Garrido, pelo reitor (com r minúsculo), pela Faculdade de Medicina. Curiosamente assim. Porquê? Será por considerarem que os alunos não sabem escrever um texto de modo coerente, será porque têm uma caligrafia difícil, ou será por ambas as coisas em conjunto? Será por se considerar que o professor tem muita coisa que fazer para além de dar aulas, como disse Tiago Sequeira na Assembleia da República? Será porquê?

Hoje a maioria deles não saberá escrever decentemente, à margem o não saberem sequer pegar de forma ergonómica numa caneta, e porquê? Porque nascem menos capazes que as gerações anteriores? Não, não sabem escrever decentemente porque não são ensinados a fazê-lo, porque os dispensamos de o aprender. E claramente, a culpa não é dos pais, muitos deles já formatados igualmente pelo mesmo sistema, a culpa é sobretudo de quem ensina, seja na escola primário, seja no ciclo, seja no secundário, seja na Universidade. Isto é o resultado de todo um sistema virado para a atratividade, para o esforço mínimo, para a carreira de cada um e onde os estudantes são o que há no sistema de menos relevante. E é pena que seja assim.

Anualmente no dia dos meus anos e sob o tema de As minhas circunstâncias de vida, a relembrar Marx e Ortega e Gasset, costumo publicar um texto de análise. Em princípio penso, pois, retomar este tema em fevereiro de 2026, mas como o peso dos anos é o que é, já pesam 82 anos, direi apenas que se cá estiver e tiver ainda garra e lucidez para o escrever, retomá-lo-ei e possivelmente ligado à misoginia que começa a alastrar pelas nossas Universidades. Disso há já sinais claros. Veremos, então….

A terminar esta nota sublinho que não há aqui nada de pessoal seja contra seja a favor de alguém. No segundo texto, específico sobre a morte da Universidade, faz-se apenas uma análise que se situa no plano lógico-abstrato, nada mais que isso. Se as pessoas citadas no texto pensarem o contrário, direi apenas: paciência, não estamos no mesmo comprimento de onda.

 

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