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Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise (1/3). Por Júlio Marques Mota

 

Este texto surge como reação ao email de um amigo meu, Carlos Nuno Batista, em que me dava a sua leitura dos resultados eleitorais e é a ele que dedico o presente trabalho.

 

Nota explicativa prévia

Distribuí este texto, ainda não na sua versão definitiva, na minha lista de endereços eletrónicos. À volta deste texto uns quantos detalhes:

1. Um leitor, um catedrático de Lisboa, diz-me o seguinte ao ler a versão rascunho:

“Relativamente às considerações que fazes, estou de acordo. Talvez até peques por contenção.

A minha visão do estado atual do ensino universitário, quer em Portugal, quer na Europa – e talvez no Resto do Mundo – é a pior possível. É explicado muito do que está acontecendo no Mundo, em todos os níveis.

Não tenho complicações de ser velho! Digo o que acho que devo dizer, com consciência da afirmação de Keynes, de que “o difícil, não é aderir às novas ideias, o difícil é escapar das antigas”. Os sistemas de referências não são eternos e devemos ter a capacidade de compreender o que está a acontecer, com referências novas e velhas (não desatualizadas).

Mas devemos ter sempre o cuidado de não nos comportarmos como “Marias que vão com as outras”.

2. Um catedrático de letras pede-me autorização para o distribuir por pessoas amigas, entre as quais estão figuras relevantes da cultura portuguesa.

3. Um amigo de linga data manda-me uma mensagem, que vi apenas mais tarde, de que deveria ver a reportagem do canal 3 sobre o tema tratado também no meu texto.

4. O meu editor chateia-me basicamente por pedir frases mais alongadas, mais desenvolvidas, e eliminar algumas zonas menos claras no texto.

5. Um catedrático de Coimbra meu amigo e leitor da versão rascunho diz-me que eu o ”espanto com a capacidade analítica e observacional. Olhas para o mais pequeno detalhe do quotidiano como se fosse a ilustração de alguma teoria. E, depois remata: nada a objetar.”

6. Por fim um amigo professor do secundário, foi professor da minha filha e sobre isto já lá vão 30 anos, manda-me um artigo ligado ao tema intitulado:  “Para quando um teste de Turing para a grande oral do fim do secundário?”

 

Com tanta gente a falar do tema, retomei o texto inicial num ponto ou outro e disso não estou arrependido. Goste-se ou não, aí o têm refeito. A explicar os tempos do fascismo utilizei excerto do relato da vida de um primo meu. Mandei-lhe o texto e a confirmar o que escrevi, respondeu-me:

“Obrigado

Sobre ignorância

Estive num colóquio na escola Humberto Delgado em Loures com alunos de história do sexto, sétimo e oitavo ano. Perguntei: sabem quem foi Humberto Delgado??

Depois de muita hesitação, um disse baixinho e envergonhado:

É O NOME DESTA ESCOLA.

Claro. Expliquei quem era e porque e por quem foi assassinado”

 

Eis pois um exemplo do estado lamentável em que culturalmente se encontra a nossa juventude e também as nossas instituições de ensino.

 

JMota


Nota de editor: em virtude da extensão do presente texto. o mesmo será publicado em três partes, hoje a primeira.

7 min de leitura

Tempos de confusão política, tempos de refluxo social, tempos de crise (1/3)

 Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 19 de Junho de 2025

 

 

Hoje, vivemos tempos muito difíceis, tempos de mentes ofuscadas por aquilo que não querem compreender e por má intenção ou por interesse de classe, que não conseguem compreender por enviesamentos de formação de base, ou que compreendem, mas na vaga de ostracismos contra quem compreende, preferem estar calados, e há depois os outros. Faço parte deste último grupo, dos que compreendem ou querem incessantemente compreender e se manifestam contra aquilo que compreendem e de que discordam.

Vem isto a propósito do dia 10 de junho e do texto de um amigo meu que abaixo reproduzo.

 

A propósito do dia 10 de junho

Impressiona-me a vaga de rejeições do extraordinário discurso de Lídia Jorge. Os argumentos são muitos contra ele e não vou repeti-los todos, mas deixo aqui apenas dois deles porque são muito curiosos:

  1. O dia 10 de junho deveria ser comemorado a olhar para o futuro e não virado para o passado. Precisamos de ir em frente e não andar às arrecuas.

Aqui respondo que não há futuro sem passado ou como diz um ditado chinês, quem ignora o passado, está sujeito no futuro a repeti-lo E não é isso que se quer. E, de resto, se se quer mudar a trajetória que se tem vindo a seguir, é porque esta trajetória está errada e é preciso saber em quê, se não queremos ter um futuro como repetição dos erros do passado. Simples a minha resposta, de resto concordante com o que disse Lídia Jorge quando afirmou: “Confrontarmo-nos com os erros é uma forma de retomar novos caminhos”. Tudo isto para dizer que reafirmo a minha adesão aos pontos de vista do discurso de Lídia Jorge.

  1. Um outro amigo meu manifestou-se-me contra o discurso de Lídia Jorge porque foi um discurso sobre a diferença quando somos todos iguais. Foi um discurso que não tinha nenhuma razão para ser feito.

Pasmei! Somos todos iguais? Desde quando? Desde ontem ou desde amanhã, ironizei eu. E continuei: bom, o meu amigo dorme num T5 de grande qualidade, o emigrante que produz a comida que você vai comprar ao Pingo Doce dorme num barracão qualquer e sem quaisquer condições condignas, como aqueles que há no Patacão em Faro. E somos todos iguais, é verdade, mas com uma diferença, à Orwell ou à Anatalole France: somos todos iguais, mas uns mais do que os outros (Orwell). Somos todos iguais, mas uns têm o direito de dormir em palácios e outros têm o direito de dormir debaixo das pontes no Sena (Anatole France). Sim, somos todos iguais, isso é verdade, mas só à face de Deus, meu caro. Sorri-lhe e aproveitando o encontro com uma minha afilhada de casamento que ia a passar, mudou-se de conversa para passar a falar do fanatismo futebolístico e a seguir despedi-me.

 

Neste contexto temos ainda a registar o que aconteceu com o ator da Barraca, agredido por um jovem que, diz-se, estava apenas alcoolizado. Depois tivemos o insulto à autoridade religiosa muçulmana, porque esta estava onde não teria de estar! O problema de base seria então este, o imã estava onde não devia estar! Bizarro.

E o fanatismo alastra e alastra fortemente até ao desporto: um carro incendiado com pessoas lá dentro [Ver DN de 10 de Junho: Um carro ardeu esta terça-feira (10) no Lumiar, junto ao pavilhão João Rocha, em Lisboa, pelas 18h35. Segundo o Correio da Manhã quatro adeptos do FC Porto, alegadamente ligados à claque Super Dragões, ficaram feridos, um deles com gravidade, quando a viatura em que seguiam foi atacada com um engenho incendiário. Três suspeitos foram detidos. O ataque terá sido realizado com uma tocha ou um cocktail Molotov após o jogo de hóquei em patins entre o Sporting e o FC Porto, ao qual as vítimas tinham assistido]. Já alguém, proibiu as claques, já alguém as interditou de entrar nos estádios ? Não, e a resposta que uma vez me deram foi de que o desporto precisa do ruído da festa que eles fazem, e a festa dá nisto !

Depois há ainda a carta do Muralhas, muito bem escrita, uma verdadeira ode à pureza de sangue (isso o que é, senão racismo do mais violento que se possa imaginar ?!), um texto de raiva pura contra a Lídia Jorge, de alguém que quer esconder essa raiva de sangue puro num pretenso humanismo quando se reclama de ser pai e nos diz:

Fui expulso da África depois de 30 anos para abrir estradas, construir hospitais, pontes e escolas. Vim com a roupa do corpo e a dignidade nos ossos.

Nenhum governo me agradeceu. Nunca! Tudo que ali conquistei, com o meu suor, ali ficou. Mas vim sereno, sem raiva, e com um filho maravilhoso, sim negro, que me deu netinhos maravilhosos, que amo com todo o meu ser.”

E dessa hedionda carta refiro, por exemplo, o último parágrafo em que se diz:

As leis de trabalho, que este país desenvolveu ao longo dos últimos cinquenta anos, e muito bem, para que todos tenham uma vida digna, são hoje completamente ignoradas ao abrigo da diversidade e dos braços abertos para todos.”

As leis de trabalho são completamente ignoradas NÃO ao abrigo da diversidade e dos braços abertos para todos, mas SIM ao obrigo da exploração intensa a que os imigrantes estão sujeitos: humilhados no Martim Moniz, explorados nas fábricas e nos campos, explorados, roubados nas suas condições de existência e de reprodução, nos sítios onde comem e onde dormem. Paradoxalmente, face ao texto de Muralhas, a defesa das leis de trabalho exige exatamente que se protejam os imigrantes nas suas condições de trabalho e de remunerações e que se evite assim, por efeitos do mercado, e efeito de funil, o efeito da pressão à baixa salarial. Mais Estado (e não menos), mais dignidade e mais respeito pela parte das autoridades é o que se exige, o que Muralhas e o Chega, já agora, excluem.

Como última nota relativa a este clima de ódio ou de indiferença face ao país real que temos, leio hoje no Público que André Jorge Ritta Branco de Sampaio declara apoio a Marques Mendes, que vai integrar a comissão política da candidatura deste a Belém. “Protagonista certo para perceber e unir diferentes gerações”, é o argumento apresentado para esse apoio por Sampaio filho.

Espanto-me. Fui apoiante do pai, conheci-o mais ou menos bem e dele tenho boas recordações, de ordem pessoal e de ordem coletiva. Interessam-me aqui as primeiras razões. Foi nosso convidado para um colóquio na FEUC numa Iniciativa do Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC. Não pôde vir, mas à hora que seria a sua comunicação o texto estava a ser distribuído na sala. Uma seriedade de procedimento que nunca é demais assinalar, sobretudo, quando vindo de um Presidente da República. Depois convidámo-lo para prefaciar um livro de Joseph Stiglitz. Tratava-se de Os loucos anos 90- Uma Nova História da Década Mais Próspera do Mundo“, de Stiglitz, publicado pela Terramar em 2005. Recordo a precisão imposta pela sua secretária-principal, a Drª Helena, de que era necessário que o prefácio viesse com a data da sua entrega na editora. E assim se fez. Era uma precisão do Presidente face aos acontecimentos políticos dessa altura- a do governo de Santana Lopes.

O Presidente Sampaio prefaciava um dos livros mais importantes no combate contra o neoliberalismo onde se diz (cito de memória) que os neoliberais torcem a realidade até que ela se adeque ao seu modelo, à sua visão, e como isso é uma impossibilidade exigem que se vá cada vez mais com o prego ao fundo nas medidas austeritárias a preconizar. Isso acontece por todo o lado e Stiglitz, no livro prefaciado pelo pai de André Jorge Ritta Branco de Sampaio, gasta páginas e páginas a ilustrar isso.

No momento atual um bom exemplo dessa mesma triste realidade e desse vergonhoso comportamento vemo-lo com o recente comportamento do FMI no seu escandaloso apoio a Javier Milei, o homem de referência dos líderes da Iniciativa Liberal !

Curiosamente, hoje vemos o filho de Jorge Sampaio a alinhar exatamente com aqueles que foram direta ou indiretamente os adversários do seu pai. O argumento de que Marques Mendes é um “protagonista certo para perceber e unir diferentes gerações” é simplesmente ridículo.

Aliás isso viu-se, por exemplo, com o governo AD de Montenegro, com as isenções fiscais pretendidas para jovens até aos 35 anos e com rendimentos até 80.000 euros. Com efeito o governo pretendia uma redução de 2/3 nas taxas de IRS para jovens até aos 35 anos com uma taxa máxima de 15% e com uma abrangência até ao 8º escalão, ou seja, até os 80.000 euros, ou seja, aproximadamente 6000 euros brutos mensais ! A mesma lógica no apoio à compra de casa para gente jovem que ganhe até ao valor máximo de 80.000 euros de rendimento anual. Dados os preços atuais das casas e os rendimentos baixos para a maioria da população jovem, uma grande parte da população jovem ficaria fora do sistema porque a ganhar até 1.5 salário mínimo ninguém compra casa hoje. A lógica é, pois, simples: os pobres que mal ganham para viver num quarto ou parte de casa decente pagam para os ricos poderem comprar casa! E entretanto, ninguém, nem PS nem AD tocou a sério na lei do arrendamento da habitação, e esta lei, a lei Cristas e da Troika, o que garante é a instabilidade para quem casa não tem e precisa de a arrendar. E vem-me o filho de Sampaio falar de que alinhar com o líder político à direita é querer harmonizar os interesses de uns e de outros, harmonizar o interesse das gerações mais favorecidas com o interesse das gerações mais desfavorecidas. Não devo ter percebido bem.

Daqui tiro uma conclusão bem simples: ou o filho de Jorge Sampaio é burro ou está a fazer de nós burros ou não é nada disto e pode então ser visto apenas como um diplomado da Universidade Nova de Lisboa, o antro onde se fabricam os nossos líderes políticos, verdadeiros vendedores da banha da cobra, vendedores de ilusões, fabricantes de manipulações. Pode não o ser, mas em política o que parece é., e este é um comportamento típico dos neoliberais: estar na crista da onda quando se trata de atacar o Estado Providência ou o que ainda resta dele. Lembram-se do Passos Coelho para quem ao empobrecermos com as suas medidas de austeridade criávamos as condições para o enriquecimento posterior, lembram-se de ele querer ir mais longe e mais rápido que a Troika, lembram-se das suas privatizações ao estado chinês, e tudo isto em nome dos mercados? Nesta última hipótese, o filho de Jorge Sampaio nem é burro nem faz de nós burros, tem é as lentes com que vê o mundo muito embaciadas e totalmente desfocadas. E foi para este sinistro antro neoliberal que a burguesia política de Lisboa encaminhou durante décadas os seus filhos e netos. Muitos dos membros desta classe política preferiram o lustro da propaganda neoliberal da Universidade Nova do que a profundidade dos cursos do ISEG ou ISCTE que, apesar de não serem hoje bons, são, no entanto, bem melhores que o da Faculdade de Economia da Universidade Nova.

Nestas duas últimas instituições sairiam como licenciados de melhor qualidade, com menos lixo económico a comprimir-lhes a cabeça e com as ideias bem mais arejadas do que os alunos saídos da Universidade na Nova. Basta vê-los falar na Televisão ou a escreverem nos jornais. Pessoalmente, eu ainda não vi nenhum doutorado da Nova que para a mesma média de Licenciatura – esta ainda é a minha referência maior -, fosse de qualidade superior aos saídos das duas Instituições acima referidas.

Já no caso da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, a mediocridade da reforma dos planos de curso feitos sob a égide de um catedrático saído da Universidade Nova é também um extraordinário exemplo do que acabo de dizer. Mas as opções da burguesia são o que são, e expressam também a necessidade de uma diferenciação de classe que estar na Universidade Nova passou a representar.

O resultado está bem à vista; contam-se pelos dedos de uma das mãos os jovens políticos que vemos hoje como estando à altura de perceber a complexidade da realidade económica e social de Portugal e nenhum deles é o eurodeputado da AD Sebastião Bugalho. De certeza. Mas uma coisa quase todos eles sabem bem, embora também haverá quem saia de lá ignorante, e o que sabem fazer bem é debitar o discurso neoliberal, é papagueá-lo.

Isto levanta a mais séria das questões que temos de enfrentar e muito rapidamente e como uma questão de urgência nacional: a educação/formação dos nossos filhos e netos até agora orientadas por gangues do PS e da AD, dos quais sublinho o papel de Mariano Gago, de João Costa, ambos do PS e de Fernando Alexandre da AD, com este a ter sido três vezes meu aluno: licenciatura, mestrado e na orientação de tese de mestrado. Sobre esta questão, tenho escrito muito e muito recentemente, e em vários destes textos, tomei como base os resultados eleitorais das últimas eleições, e o atual enquadramento político português que das eleições resultou.

 

(continua)

 

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