HOMENAGEM A JOÃO CRAVINHO PELOS SEUS OITENTA ANOS – DE UMA CRISE A OUTRA, DA CRISE DOS ANOS DE 1930 NA ALEMANHA À CRISE DOS ANOS DA TROIKA — A EQUIVALÊNCIA NOS DISCURSOS POLÍTICOS, A EQUIVALÊNCIAS NAS POLÍTICAS ECONÓMICAS APLICADAS – X

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Selecção, tradução e montagem por Júlio Marques Mota

Sobre o texto de Michael Pettis[1]

 

A análise de Michael Pettis está nas antípodas do que defende a Troika, do que defendem os neoliberais, uma análise solidamente apoiada no que de mais profundo se tem produzido em teoria económica. Se repararmos bem, estamos a falar da dinamização da economia através do crédito, do dinheiro nascido do nada e que serve assim para dinamizar a economia, ou não, tudo depende, para onde é que ele vai quando criado, se para os mercados financeiros, aumentando a massa de capitais disponíveis para a especulação, ou se alternativamente quando criado é injetado na economia real, na procura de bens e serviços sejam de consumo, sejam de investimento, mas sobretudo de investimento. Desde que haja folga na economia, desde que a economia esteja abaixo do seu potencial produtivo máximo, e isso é exatamente o caso europeu, caracterizado por desemprego em massa. Relembremo-lo para assim se entender que este texto de Michael Pettis é, do ponto de vista científico, uma profunda crítica às políticas que desde 2010 têm sido seguidas na Europa e defendidas por governos à esquerda e à direita, porque o importante para todos eles é salvar a Europa pela austeridade, porque não há outra saída que não seja esta. Desmentido brutal que aqui é dado neste último texto de Michael Pettis.

Este texto bem como todos os outros que tem recentemente publicado apresentam ainda uma outra característica que muito nos sensibilizou. Por eles, e em pinceladas magistrais, passam autores como Ricardo e Marx versus Malthus, passam os defensores da Moderna Teoria Monetária, onde assumem especial relevo autores como Randall Wray e Bill Mitchell, da mesma forma que passam por este texto outros autores cujos trabalhos foram relevantes nos grandes debates económicos dos anos de 1970, como Kaldor, Domar, Harrod, Kalecky, para além dos sempre presentes Minsky e Keynes. Passam pelos seus trabalhos algumas das grandes questões que todos estes autores levantaram e que com a vaga do neoliberalismo deixaram de ser preocupações dos economistas e deixaram de ser relevantes no ensino nas Universidades.

De Wilheim Lautenbach e de Michael Pettis, dois homens cujas ideias estão em total confronto com a política de destruição que tem estado a ser seguida por imposição da Troika e pelos nossos Brünings de agora e com total desprezo pelos ensinamentos da História, são pois os textos de fundo aqui apresentados. Que se aprendam as lições da História, que se reflita, a partir dos textos de Lautenbach e de Michael Pettis que aqui apresentamos, sobre o crédito produtivo, sobre o crescimento, sobre as escolhas de futuro contra as escolhas do passado como se têm praticado nestes últimos seis anos na zona euro, em vez de se andar a criar, como o faz o Banco Central Europeu, dinheiro a partir do nada mas que do ponto de vista produtivo não serve para nada, ou seja, que não cria valor. São assim centenas de milhares de milhões que não são introduzidos no sistema produtivo. Mais uma vez Wilheim Lautenbach e Michael Pettis contra o Banco Central Europeu. Com as populações a verem os seus padrões de vida descerem brutalmente, uma verdade é segura e está escrita nos dois textos citados: só criando é que se pode vir a pagar. Custa a entender isto? Relembremos ainda Lautenbach, face à hecatombe dos anos 30 e face ao desastre da crise da dívida soberana de agora, uma crise claramente aprofundada pelas políticas suicidas da Troika, que naquela conferência de 1931 em Berlim, afirmou:

o erro da economia pública, no passado, consistia principalmente no seguinte: em termos apostado muito e na hora errada na economia pública. É economicamente razoável restringir obras públicas em tempos de boa conjuntura económica e em tempos de conjuntura económica desfavorável intensificar a intervenção pública. Se alguém se excedeu em tempos de uma conjuntura favorável, será acrescentar ao primeiro erro um outro ainda maior se quando estivermos numa situação da mais profunda depressão desistirmos da realização de obras públicas razoáveis.

Será que custa a entender esta posição? Não conseguimos entender onde está a dificuldade, a menos que se trate de uma opção política, a menos que se trate de uma pura posição ideológica.

E esta lição, a da recusa em entender, do ponto de vista político e económico a posição de Lautenbach e de todos aqueles que defendem posições semelhantes, tem sido bem ilustrada pela história desde 1931. Saibamos nós então ouvir a História.

Júlio Marques Mota

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[1] Para uma leitura integral deste texto, ver o anexo 2.

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