Recebi o texto de João Guató através de Gustavo Horta (http://gustavohorta.wordpress.com/), com autorização de publicação no nosso blogue.
Não tem o blogue dedicado a merecida atenção aos povos indígenas do Brasil como gostariam os seus responsáveis, dado ser matéria que nenhum de nós domina. O Gustavo teve a gentileza de me enviar este texto e eu logo lhe solicitei que me dissesse se poderia editá-lo, caso o autor a isso não se opusesse, o que de imediato me confirmou. Ao texto juntamos os comentários de que tivemos conhecimento.
Este é um texto actualíssimo e demonstrativo de que os povos indígenas do Brasil estão tão empenhados na construção de um Brasil progressista e democrático como qualquer outro brasileiro, sentindo-me eu muito grato pela possibilidade que foi dada pelo chefe e professor indígena João Guató de publicar o seu texto n’ aviagemdosargonautas.net, no que sou acompanhado pelos meus companheiros do blogue.
António Gomes Marques
João Guató
A PRIMEIRA PRISÃO DE BOLSONARO
*Por João Guató
Foi neste 18 de julho, um dia comum no calendário das nações, que o Brasil discretamente marcou sua história com a cerimônia silenciosa de uma tornozeleira eletrônica. O ex-presidente Jair Messias Bolsonaro, o homem do grito sem verbo, da pátria sem livro, do governo sem ternura, acordou com o pé marcado — pela primeira vez, preso.
Não houve camburão. Não houve algema. Mas houve o que importa: a ferida no tornozelo da impunidade.
O gesto não é simbólico, é histórico. A tornozeleira, para além de metal e rastreamento, é a confissão pública de que até os intocáveis podem ser tocados. Pela primeira vez desde que deixou o Planalto — e talvez desde que entrou na vida pública — Bolsonaro foi oficialmente detido. Não com estardalhaço, mas com a discrição dos fatos irrevogáveis.
Durante anos, o país assistiu a um presidente que zombou da dor, que gargalhou de caixões, que flertou com o vírus e fez da morte política uma forma de gestão pública. Um homem que governou por negação: negou a ciência, negou a democracia, negou a história e, por fim, negou até o próprio passado, como quem tenta apagar pegadas no barro molhado da memória nacional.
Não foi apenas um presidente — foi um estado de espírito. Um mal-estar em carne viva. E por isso sua primeira prisão é também a nossa primeira respiração em muito tempo.
Dizem que a democracia é o regime das instituições. Mas ela também é o regime dos gestos. E o gesto de hoje é um sussurro que grita: o tempo da irresponsabilidade talvez esteja no fim.
Não é pouco. Há algo de reparador — e quase poético — em ver o homem que quis trancar o Brasil dentro de um delírio agora confinado em horários e zonas geográficas. Um toque de recolher imposto ao apóstolo da desordem.
A tornozeleira em Bolsonaro não é um adorno jurídico. É a primeira prisão — ainda que o corpo esteja solto, o símbolo está capturado.
Porque o que se prende, neste gesto, é o mito. É o artifício de um homem que se vendeu como “salvador”, enquanto salvava apenas os próprios filhos, aliados e fantasmas.
Bolsonaro não foi um erro isolado. Foi a febre que revelou a infecção. E hoje, ao vestir o sinal de que está sob vigilância, o Brasil sussurra para si mesmo que talvez, só talvez, comece a sarar.
Claro, há quem ache que tornozeleiras são mimos, que sem cela não há punição. Mas esse raciocínio esquece que o autoritarismo se alimenta do mito da invulnerabilidade. E quando o mito é tangido por ordens judiciais, monitorado por GPS, obrigado a estar onde não quer — o mito racha.
Hoje, Bolsonaro foi preso. Não como desejariam seus adversários mais febris. Mas do modo que mais o fere: em silêncio, sem manchete, sem glória. Apenas com a crueza burocrática dos autos.
A elite brasileira que pariu Bolsonaro não o fez por engano, mas por cálculo. Bancos, agronegócio, construtoras, corporações de fachada liberal — todos colheram os frutos amargos plantados com sementes públicas: isenções, desonerações, perdões fiscais, crédito subsidiado e blindagem institucional.
O discurso era o do Estado mínimo, mas o saque foi máximo. Sob o falso manto do “livre mercado”, multiplicaram-se lucros enquanto se estiolavam as políticas sociais, o SUS era vilipendiado, a ciência desidratada e a educação entregue aos falsos profetas do empreendedorismo de palco. A elite lucrou, sim, mas com a alma penhorada — se é que ainda a possui.
*João Guató é líder e educador indígena
POVOS INDÍGENAS DO BRASIL: “Os Guató, considerados o povo do Pantanal por excelência, ocupavam praticamente toda a região sudoeste do Mato Grosso, abarcando terras que hoje pertencem àquele estado, ao estado de Mato Grosso do Sul e à Bolívia. Podiam ser encontrados nas ilhas e ao longo das margens do rio Paraguai, desde as proximidades de Cáceres até a região do Caracará, passando pelas lagoas Gaíba e Uberaba e, na direção leste, às margens do rio São Lourenço. No interior deste vasto território sua presença foi registrada desde o século XVI por viajantes e cronistas.
Foi entre 1940 e 1950 que se iniciou de modo mais intenso a expulsão dos Guató de seus territórios tradicionais. O gado dos fazendeiros invadia as roças dos índios e os comerciantes de peles dificultavam a permanência dos Guató na ilha Ínsua e arredores. Acuados, migraram para outros pontos do Pantanal ou se dirigiram para as periferias de cidades, como Corumbá, Ladário, Aquidauana, Poconé e Cáceres etc. Foram poucas as famílias que permaneceram na ilha Ínsua. A partir da década de 50, os Guató foram considerados extintos pelo órgão indigenista oficial e assim, foram excluídos de quaisquer políticas de assistência. Foi somente em 1976 que missionários identificaram índios Guató vivendo na periferia de Corumbá. Aos poucos o grupo começou a se reorganizar e a lutar pelo seu reconhecimento étnico. Hoje, são os últimos canoeiros de todos os povos indígenas que ocuparam as terras baixas do Pantanal.”
We are massively complaining about our president and government in the US, but it seems there are other countries, such as Brazil, that aren’t happy with theirs, as well.
Responder
Nossa nação está dividida e a sociedade polarizada depois que o genocida Bolsonaro governou o país por 4 anos. Na verdade ele não governou e ele somente desgovernou e destruiu.
Voltamos a ter um governo controlado, em parte, pelos progressistas e da esquerda. Este grupo, comandado pelo partido dos trabalhadores, já esteve no poder durante 16 anos a partir de 2002 e voltou ao poder executivo em 2022, nas eleições de 2022. Porém não tem no Congresso em maioria para apoiá-lo, ao contrário está em minoria.
A maioria do povo brasileiro aprova o atual governo e isto deverá ser corroborado nas eleições de 2026.
Não há comparação alguma entre o que nossa sociedade vive atualmente com o que o presidente estadunidense vem fazendo desde que chegou à Casa Branca.
Ao contrário do que você disse, estamos, na maioria, felizes sim.
O povo mais pobre já saiu, mais uma vez, como já acontecera nos governos anteriores (entre 2002 e 2014) das precárias condições no que tange às suas necessidades básicas – alimentação, saúde, moradia, transporte e saneamento básico. E está continuando a melhorar.
As ditas elites, classe média medíocre e a burguesia de milionários tenta, a todo custo, sabotar, com o apoio e manipulação de sempre das super economias internacionais, tendo à frente a Casa Branca, seja com Republicanos ou Democratas.