WOKISMO DE PACOTILHA OU AS VIÚVAS DO ESQUERDISMO – por Jorge Castro Guedes
António Gomes Marques
WOKISMO DE PACOTILHA OU AS VIÚVAS DO ESQUERDISMO
por Jorge Castro Guedes
O movimento woke na sua origem nos Estados Unidos, em torno da defesa dos direitos e combate à discriminação da população negra, tem uma base sociológica que se explica por si nessa realidade. Mais do que compreender e aceitar, deve ser mesmo considerado um movimento justo, pesem os excessos que possa ter tido. A sua expansão a causas de libertação contra o sexismo, a homofobia, a xenofobia, todo o tipo de racismo e outras causas de idêntica natureza também deve ser enquadrada numa experiência social que se explica como um movimento de reacção a injustiças, exclusões, moralismos serôdios e hipócritas, perseguições.
O ulterior apoderamento da sua natureza inicial para extrapolações radicais, extremadas, e com retoques de absurdo, mais não é do que um neomoralismo laicamente beatífico, onde os esquerdismos pequeno-burgueses, daquilo a que Lenine (1) chamou a “doença infantil do comunismo”, se acolheram após a queda das sociedades comunistas, que esse mesmo esquerdismo contestava. Perdida a causa da “classe operária” a encher a boca de jovens mimados de família, decorado aqui e ali por algum lumpemproletariado de passagem, e finda a marca distintiva pelo anti-sovietismo, esse blasé ideológico verteu-se em causas ditas fracturantes, misturando boas questões com rematadas palermices. É o carpir das viúvas desse esquerdismo, rebaptizado em movimentos wokistas ou formações políticas ideologicamente incompreensíveis numa amálgama de maoístas, trotskistas e comunistas revisionistas do próprio “revisionismo” que combatiam. Mas o início desse «confusionismo» (2), sobretudo quando a China passou a confucionista, mergulha raízes mais primevas no Maio de 68, em que o “é proibido proibir” foi sendo apropriado pelo neoliberalismo de moto-serra, anti-estatal tout court, anti-keynesiano, anti-“Rerum Novarum”, anti-anti! Outrora foram aquilo a que se chamou a esquerda-caviar para hoje ser só mesmo sucedâneo de caviar vegan.
A famosa frase de Lenine de que “a revolução não é o chá das cinco”, se fosse hoje seria que “não é feita entre dois charros”.
Tudo isto seria de somenos e sem grande importância, não fosse o wokismo de pacotilha policial, que prende o vocabulário, define o que se pode e como se deve dizer, que torna um piropo em assédio, alimenta histerias heterofóbicas, rege a agenda do politicamente correcto, assume-se Inquisição de novo tipo e é alimento para o pretexto de novas homofobias, sexismos, racismos e moralismos de sinais contrários, que crescerem por natural reacção de quem tem de trabalhar para viver e filhos para sustentar. Movimentos com razões iniciais para se constituírem no tecido social de marginalizações inaceitáveis são hoje um folclore arrivista à mistura com a imbecilidade de autoconvencimento de grandes causas para justificar a ausência de verdadeiras causas. Espalham brasas e fumo nas fogueiras das neotrevas de Torquemadas libertários.
Estas viúvas do esquerdismo, wokistas de pacotilha, dominam os meios artísticos e os consequentes subsiodiozinhos e, em boa parte, também os académicos; colam-se a ecologismos superficiais sem base científica, adoram ser okupas de fachada, às vezes com casas de alojamento local a render; põem-se em bicos de pés nas frentes de lutas terceiras, inventam siglas com o alfabeto quase por inteiro, odeiam os que fizeram opções sexuais (homo ou hétero) que saem desse circo; ausentam-se do esforço do trabalho intelectual (e do braçal ainda mais), reduzindo as suas pseudograndes pseudodoutrinas a meia-dúzia de tiradas, vazias de pensamento crítico e reflexão analítica. Agregam-se pelos sinais de vestimenta, penteados e enfeites e, de vez em quando, enfiam uma burka alheia, que dá todo o jeito à extrema-direita. São pirosos na substância, tontinhos na forma.
Este wokismo de pacotilha nada tem a ver, na realidade, com o movimento woke original. Tomou-lhe palavras de ordem, tal como o esquerdismo da 2ª metade do Século XX tomara as de Marx, a mais das vezes vertidas em panfletos simplistas e com a indigência mental primária do Livro Vermelho de Mao à cabeceira. Estão para o verdadeiro movimento woke como Al Johnson para os musicais americanos.
Depois, como os filhos e netos do Maio de 58, à medida que crescem encaixam-se nas instituições do Estado, à boleia de uma outra esquerda moderada para se enfeitar para o baile de debutantes com 40 e 50 anos; ou, quando (raramente inteligentes e hábeis) vão parar às empresas dos ex-arqui-inimigos da véspera: onde antes viam o diabo e onde passam a habitar o Céu. Alguns fazem antes estágio em partidos, soi-disantà la gauche do establishment, melhor comportados, assim como uma passagem pelo Purgatório. Esfumam-se na idade adulta mais avançada, como o movimento hippie transformado em yuppie.
Nada disto é novo, salvo o facto de, sendo minorias minoritárias (passe o pleonasmo), terem mais amplificadores na comunicação social e serem muito combativos num combate onde não correm riscos, a não ser a triste figura que fazem.
Assim justificam o laxismo apelidando-o como alternativa, a irresponsabilidade como anti-sistema, a ignorância como manifestos radicais. Pelo caminho pisam o saber, servem aqueles de quem se declaram os inimigos mais ferozes, fazem piqueniques solidários e borram-se se virem um polícia de bastão à frente. São os heróis de puberdades retardadas. Podiam mesmo ser nada mais do que un divertissement moderne e meros pets amestrados da sociedade do espectáculo. Mas não são pelos danos que provocam na utilidade que têm para invejosos, medíocres, oportunistas e caluniadores, justamente na academia e nas artes, mas não só. E, sobretudo, são utilíssimos aos fascismos que espreitam, enquanto os seus “édipos” ideológicos babam-se com as suas próprias baboseiras.
Compre-se-lhes uma chupeta de contestações pueris e uma fralda para a merda que fazem e deixem a sua rebeldia assentar no bem-bom do dolce far niente. Verão como são mais burgueses do que qualquer outro burguês sem petulâncias de militâncias ocas. São mesmo o vazio ‘burroguês’ dos chamados idiotas úteis.
NOTAS
Nunca fui leninista. Mas que o Sr. Vladimir tem algumas bem-apanhadas, lá isso tem.