CARTA DE BRAGA – “de identidades e fronteiras” por António Oliveira

Tudo parece apontar para estarmos a viver hoje, uma crise diferente, a das identidades. É cada vez mais difícil aceitar uma relação com um qualquer grupo, independentemente das ideologias, por ser também cada vez mais presente a noção de poder falar com toda a gente em qualquer momento, mas sem ter a ideia do ‘outro’, do que nos é igual, independentemente do clube, do credo, da cor, do falar, da altura, da dimensão do cinto, do tipo de sapato ou do que usar para andar.

Se nos fixarmos em qualquer um destes pormenores, e o assumirmos como bandeira ou símbolo orientador, não tardaremos em cair num fundamentalismo doentio, mesmo ressentimento contra aquilo a que hoje se chama ‘ser woke’ e, generalizando, ‘wokismo’, termo maldito entre os bem instalados, e que odeiam tudo o que sejam reclamações, mesmo as destes tempos –a desigualdade, o género, a raça, o meio ambiente, a poluição, a casa, a educação, a saúde– todas aquelas coisas que marcam o ser e o estar no mundo.

Disse Fernando Broncano, doutor em Filosofia por Salamanca ao ‘El País’ de 10 de Março, ‘O wokismo não é mais do que a ideia do ‘acorda’. do ´dá conta do que se passa’, ou do ‘dá conta de que o mundo se está destruindo e do ‘dá-te conta da vida’’; mas Broncano tem, o cuidado acrescentar, ‘Temos de fazer saber aos que o usam como insulto, que também o usam daquela maneira, como os fenómenos Trump e MAGA nos EUA, um wokismo e um anti-wokismo, como um ‘acorda que vêm esses loucos que querem tirar o que temos’; é a isso que devemos chamar um conflito cultural’.

Para Joaquín Rábago, jornalista e corresponde que foi em Washington e outras capitais europeias, sobre os últimos acontecimentos na Europa e no mundo, ‘A democracia liberal está em perigo de extinção’, chamando a atenção para o livro de Francis Fukuyama, ‘O Fim da História e o Último Homem’, para afirmar, ‘A democracia liberal acabará estendendo-se a todo o planeta, com os países a ela rendidos, convencidos da sua superioridade sobre qualquer sistema do passado’.

Mas a série de transformações e mudanças por que tem passado o mundo, desde a queda do comunismo em 1989, a marcar também o visível final das utopias do século XX, deu origem àquilo que o historiador italiano Enzo Traverso, veio a chamar ‘A melancolia da esquerda’, ou um presente carregado de memórias aparentemente incapazes de se projectarem no futuro, até pelo poder e atracção das novas tecnologias entre a população mais jovem, aquela que determinará tal futuro daqui a muito pouco tempo, (ou já lá estamos?).

Aliás, ainda para Fernando Broncano, ‘Nem se entenderia o rancor reaccionário, se não pudéssemos ver também, a imensa capacidade de transformação que se tem verificado nas últimas décadas, em todos os campos da actividade humana’. E o rancor atrás assinalado pelo filósofo, ‘Quando o medo se espalha, torna-se num material maleável para quem tem poder e o pode dirigir contra as reacções espontâneas de violência, para quem está por baixo… Eu primeiro! A propagação do medo é um perigo e, às vezes, até nós colaboramos com ‘estão a chegar, já aqui estão’’.

Quem sofre com todas estas questões, são as diferentes identidades que as mutações civilizacionais e outras impuseram à maioria dos povos, a em que as pesadas são a desigualdade e a sobrevivência, fazendo de todo o planeta um lugar de fronteiras, onde, como em todas as outras, existe sempre uma descontinuidade, uma ruptura e um corte entre espaços, físico, territorial, económico, linguístico, cultural e mesmo religioso.

Ao fim e ao cabo, qualquer que ela seja, a fronteira ganha uma dimensão maior, por se transmitir do espaço físico para o cultural e, como a cultura é a base das nossas crenças, só através dela, entendemos a realidade da vida, a que nos comunica e traz. E essa é a identidade que contém os dados essenciais da estrutura de qualquer comunidade ou grupo social, ou seja, a causa humanizante fundamental.

Não me parece que todos trumpas, muszkas e afins, deste lado ou do outro, por muito ouro ou poder que ostentem, tenham capacidade de entender isto, só por aquele ‘Eu primeiro!’

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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