Não conheci no meu pai qualquer gosto especial pela poesia, a não ser a minha, que ele dizia adorar, mas lembro-me de o ouvir dizer que a avó Teresa, minha bisavó que com ele viveu até aos treze anos e que ele venerava indelevelmente, escrevia, dizia e era profundamente apaixonada pela poesia.
No entanto, sempre que ouço o nome de Camilo Pessanha é do meu pai que me lembro, e há uma razão para isso. Um dos maiores amigos do meu pai foi um primo, jornalista no Jornal de Notícias e profundamente ligado ao Teatro, que era muito dedicado à poesia, e a muitas outras expressões da literatura e da cultura. Esse primo vivia muito perto da loja comercial de que o meu pai era proprietário, e amiúde passava por lá, ficando longos momentos a conversar. Eu, que desde 1975 trabalhava com o meu pai, assisti inúmeras vezes a essas visitas, lembrando-me muito bem do primo Emílio Loubet.
Há uma razão, que durante anos não entendi, para que eu associe Pessanha ao meu pai. É que, o nosso primo, nunca falhava o dia de anos do meu pai, 28 de Fevereiro, e o meu pai nunca deixou de trabalhar nesse dia. O primo entrava, dirigia-se ao meu pai que estava sempre presente, e dizia: – “Parabéns José, hoje é o teu dia … (esperava um pouco, e acrescentava) … e amanhã faz anos que o Pessanha morreu!” E ambos se riam. Nunca percebi porquê, nunca perguntei, e agora já não vou a tempo de tentar entender de onde vinha aquela piada interna, tão explicitamente cúmplice.
Cem anos depois da sua morte, Camilo Pessanha continua a ser um nome dito em voz baixa. Não por esquecimento, mas por respeito. A sua poesia nunca pediu palco; pediu atenção.
Nascido em Coimbra, em 1867, passou grande parte da vida em Macau, longe de Portugal e, de certo modo, longe de tudo. Essa distância não se traduz em exotismo nem em nostalgia explícita. Está antes na forma como os poemas parecem sempre escritos a partir de um intervalo, como se o poeta falasse já do lado de lá.
Pessanha escreveu pouco. Clepsidra cabe inteira num gesto breve, mas esse gesto não se esgota. Há livros extensos que envelhecem depressa; há livros mínimos que resistem porque não tentam preencher nada. Os poemas de Pessanha não se afirmam, ficam. Não se impõem, insistem, devagar.
Quem o lê percebe rapidamente que ali não há confissão nem retórica. As palavras surgem como restos, ecos, fragmentos de uma música que nunca se ouve por completo. Tudo é instável; a imagem, o ritmo, o próprio sujeito que escreve. Nada se fixa. Talvez seja por isso que a leitura nunca se fecha.
Macau não é um cenário, é uma condição. A espera, o afastamento, o tempo suspenso, a convivência com outra ideia de silêncio, atravessam a sua escrita sem necessidade de serem nomeados. Mesmo as traduções da poesia chinesa parecem menos um exercício literário do que um reconhecimento. Ali havia algo que lhe era próximo.
Ao longo do século XX, muitos poetas passaram por Pessanha como quem passa por um ponto discreto do mapa, mas decisivo. Não deixou escola, nem programa. Deixou um modo. O da contenção extrema, da musicalidade quase invisível, e o da recusa do excesso.
Hoje, quando tudo se explica, se afirma e se projecta, Pessanha continua a fazer-nos outra coisa. Ao lê-lo vemos que a sua escrita é como a de quem se retira. Mostra que a poesia também pode ser isso; um lugar onde a linguagem quase desaparece para que algo mais, por instantes, se revele.
Cem anos depois, Clepsidra continua a medir o tempo de outra maneira. Não o tempo histórico, nem o biográfico, mas esse tempo mais frágil e mais raro em que a leitura se transforma em vigília.