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INTERROGAÇÕES INCONVENIENTES – Por José Fernando Magalhães (3)

 

 

[Continuação dos nums 1 e 2]

 

À CONVERSA COM A VIDA 3

 

A IA Agêntica veio para tudo substituir. Ou, pelo menos, é isso que nos dizem os seus evangelistas, com o brilho nos olhos dos antigos pregadores do fim dos tempos. Desta vez, porém, o Apocalipse não vem montado a cavalo. Chega ligado à corrente eléctrica e alimentado por centros de dados.

Já nada poderemos fazer? Provavelmente não. Resta-nos apenas aceitar, aprender e adaptarmo-nos, como sempre fizeram os homens quando o mundo lhes mudou debaixo dos pés.

A ficção não estará à altura da vida, mas, as mais das vezes, a vida também não está à altura da ficção. A imaginação humana inventou máquinas inteligentes muito antes de elas existirem. O que não previu foi que as receberíamos com tanta indiferença.

O que nos vai acontecer?

A mim, já quase com uma provecta idade, pouco ou nada. Já atravessei revoluções suficientes para saber que nenhuma delas me pertence inteiramente.

Às pessoas em idade produtiva, porém, o futuro poderá apresentar-se sob a forma de uma pergunta incómoda: que lugar resta ao Homem quando a máquina pensa, decide e executa, sem intervenção humana?

Aos que agora começam a vida, a adaptação será talvez mais fácil. Também mais dolorosa. Crescerão num mundo que lhes parecerá natural e que aos mais velhos continua a soar a ficção científica.

Basta olhar em redor.

Armazéns quase inteiramente automatizados. Linhas de produção onde os braços mecânicos trabalham sem descanso. Fábricas onde os robôs constroem robôs. Sistemas capazes de produzir imagens, música, texto e voz com uma rapidez que transforma o talento humano numa actividade de paciência.

E ainda estamos a começar.

Olho para o mapa do mundo, e vejo que o futuro já se divide. Se há exemplo que merece atenção, é o do Império do Meio. Impressiona-me menos a tecnologia do que a visão. Enquanto milhões de jovens são preparados para criar com a Inteligência Artificial, grande parte da Europa continua entretida a discutir se a ferramenta é útil ou perigosa, como se ambas as coisas não pudessem ser verdade ao mesmo tempo.

Por cá, tendemos a tratar a tecnologia como um brinquedo. Os outros utilizam-na como uma alavanca.

Na China, encurtam-se decisões, aceitam-se mais riscos, e age-se. Enquanto isso, na Europa, instalou-se um sistema sofisticado de imobilidade, com mais validações, mais reuniões, mais camadas, mais protecção contra o erro e uma urgência cada vez menor em fazer. Afeiçoamo-nos à arte de explicar porque não podemos executar, em vez de querermos ser os melhores a provar que o podemos fazer.

Daqui a alguns anos, a diferença tornar-se-á evidente. Possivelmente quando já não houver muito a fazer. 

Há, contudo, um aspecto que me diverte.

Durante décadas prosperaram os lambe-botas, os especialistas da reverência, os profissionais da bajulação e os amorfos. Talvez as máquinas venham introduzir uma certa brutalidade meritocrática. Os algoritmos não se deixam impressionar por sorrisos servis nem por elogios oportunos.

Pelo menos por enquanto.

O lado menos optimista permanece inalterável.

A política continuará a ser política. Os interesses continuarão a ser interesses. As estruturas de poder apenas mudarão de vestuário. Ao longo dos séculos, os homens aperfeiçoaram as ferramentas; raramente aperfeiçoaram na mesma medida as intenções.

Continuaremos, provavelmente, a ser aquilo que sempre fomos: habitantes de um mundo governado por uma minoria suficientemente organizada para mandar e por uma maioria suficientemente distraída para obedecer.

Olho para o universo do trabalho e vejo, felizmente, honrosas excepções. Vejo também demasiada gente convencida de que o amanhã será uma réplica do presente. Cumpre-se o mínimo indispensável, protege-se a rotina, evita-se o esforço suplementar e espera-se que a realidade tenha a delicadeza de permanecer imóvel.

Mas a realidade nunca foi delicada.

A Inteligência Artificial não descansa. Não se aborrece. Não perde tempo em conflitos de personalidade. Executa, aprende, corrige e volta a executar.

O homem possui outras qualidades. O problema é que se tem esquecido delas.

E aqueles que ficarem para trás?

Haverá quem regresse à terra. Outros procurarão no trabalho manual aquilo que as máquinas não conseguem reproduzir inteiramente. É possível que surjam novas profissões que hoje nem sequer imaginamos. A história tem o péssimo hábito de surpreender tanto os optimistas como os pessimistas.

Mas uma coisa parece certa. Aproxima-se um tempo de abundância tecnológica e de escassez de sentido.

Os nossos dias correm o risco de ficarem cheios de nada.

Nunca produzimos tanto. Nunca comunicámos tanto. Nunca estivemos tão ocupados. E, no entanto, nunca socializámos tão pouco. Estamos cada vez menos sociais, emparedados num isolamento que nenhuma rede consegue disfarçar. Cresce a suspeita de que nos escapa qualquer coisa essencial.

A indústria já se encarrega de desenhar o remédio; companheiros digitais criados à nossa imagem e semelhança. Réplicas virtuais programadas para nos fazer companhia e ouvir os nossos desabafos. O Homem moderno corre o risco de acabar a conversar com o seu próprio eco, convencido de que encontrou um amigo.

Sabem que mais? Adoptem um cão. É muito mais saudável.

Caminhamos para um tempo onde é bem possível que venhamos a viver de créditos, subsídios ou rendimentos distribuídos por sistemas que hoje apenas entrevemos.

O futuro tem o mau hábito de chegar disfarçado.

Mas há uma pergunta que me acompanha.

Se as máquinas trabalharem por nós, pensarem por nós, criarem por nós e decidirem por nós, que faremos nós?

Suspeito que essa seja a única questão verdadeiramente importante.

E, curiosamente, é também aquela para a qual ainda ninguém parece ter resposta.

 

 

 

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