INTERROGAÇÕES INCONVENIENTES – Por José Fernando Magalhães (4)

 

 

À CONVERSA COM A VIDA 4

 

Há uma física própria na forma como esta cidade nos molda.

O Porto não é apenas o cenário onde existimos; é a lente escura e límpida através da qual olho o mundo. Um testemunho de quem não quer, de modo algum, regressar ao passado, mas que se recusa categoricamente a entrar no futuro de olhos fechados. Alguém que reconhece o prodígio da técnica sem abdicar do mistério do humano. E isto, num tempo de entusiasmos ingénuos e de catastrofismos fáceis.

Vieram, nos últimos tempos, as grandes inquietações. O desaparecimento do verdadeiro som dos sinos, as palavras cercadas, a perda da utilidade, as centelhas de energia de que sou feito, e as da máquina, as mutações do trabalho, a ficção do dinheiro. Por fim, como num curso de água inevitável, tudo desembocou no Porto. E talvez não pudesse ter sido de outra forma.

Somos feitos do granito desta terra e das brumas matinais que cobrem a cidade e o rio, para nos recordar que tudo é transitório. Perante a Inteligência Artificial, que promete a imortalidade dos dados e a velocidade da luz, eu oponho a paciência dos penedos do Complexo Metamórfico da Foz do Douro que abraça algumas das rochas mais antigas de Portugal. Mil milhões de anos de matéria esmagada pelo tempo, estendida entre o Castelo do Queijo e o Molhe de Felgueiras. Que poderá saber um algoritmo, processado numa fracção de segundo num servidor transatlântico, sobre a densidade de mil milhões de anos de Inverno?

A cidade acelera, sim, mas há guardiões que não mudam de frequência. Olho os Metrosideros, ex-líbris botânicos de Nevogilde e da Foz, agarrados à beira-mar, resistindo à nortada e ao salitre com as suas copas densas. Lembro-me do Aquário da Avenida Montevideu, esse reduto de espanto que alimentou os sonhos de tantos de nós, crianças dos anos cinquenta e sessenta.

Tudo tinha um som, uma assinatura física. Antigamente, quando o nevoeiro cerrava a barra, ouvia-se longe, muito longe, a ronca do Farol de Leça, desactivada nos anos oitenta, mas gravada no peito de quem a escutava nos dias de nevoeiro, ou à noite, na cama. Hoje, o Farolim de Felgueiras ainda mantém a sua ronca em funcionamento, teimosa, gerida à distância a partir de Leça, apesar de a sua luz ter sido apagada em 2009. É a metáfora perfeita do homem moderno. A luz pode já não guiar os navios, mas o aviso sonoro continua lá, a gritar contra a escuridão.

As máquinas estão a mudar mais depressa do que nós aprendemos a compreendê-las e a aceitá-las. A IA avança sem atrito, asséptica. Mas a vida humana precisa de atrito para fazer faísca.

O Porto que trago em mim é feito de solavancos. O Parque da Cidade a entregar-se ao mar junto ao Castelo do Queijo; a luz única da Foz; o Gilreu, esse penedo mítico, qual ilha que invoca viagens de sonho e partidas com gloriosas chegadas; a praia do Molhe e o seu cais de pedra granítica, de onde os rapazes mais corajosos mergulhavam em belas e arriscadas acrobacias.

Há uma magia antiga na Cantareira, com os barcos de pesca a entrarem barra dentro, cansados do mar, cruzando-se hoje com os barcos de turismo que sobem e descem o Douro. É o nosso sotaque, que aos de fora parece brusco e afinal não passa de pudor; os nossos impropérios, que não têm malícia, funcionando apenas como pontuação das frases. As insolentes gaivotas que disputam o céu com os satélites e o chão com as pessoas. O som ronceiro e metálico dos eléctricos que persistem na memória e na saudade.

Tudo isto constitui esse velho e nobre hábito portuense: de desconfiar profundamente das modas sem, contudo, recusar o progresso.

O grande desafio que este século nos coloca é simples de enunciar, mas hercúleo de resolver. Como conservar uma âncora sem recusar o mar?

A minha âncora é o Porto, e o meu porto de abrigo, a Foz. É a memória viva, a amizade sólida, os eléctricos a chiar nos carris, a frontalidade da pedra, as conversas demoradas à mesa do café, onde os olhos se cruzam sem ecrãs pelo meio. O mar é a mudança inevitável. É a tecnologia, a IA agêntica, a vertigem do turismo, o século que acelera sem pedir licença.

Avancemos, pois, directos ao mar alto do futuro. Não há outro remédio. Mas avancemos sem perder o ferro fundido que nos segura ao fundo, aquilo que nos permite, ao olhar para o espelho, reconhecer exactamente quem somos.

Perante a efemeridade do silício, eu escolho a eternidade da nossa pedra. E isso, no fundo, parece-me ser algo profundamente portuense.

 

 

 

 

 

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