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Crises de civilização e de ensino, num mundo em profunda policrise —- Parte I – Texto 11. O pensamento está a tornar-se um bem de luxo . Por Mary Harrington

Se no início não conseguir encontrar-me, não desanime

Se não me encontrar num lugar, procure noutro,

Eu pararei em algum lugar à sua espera

“Song of Myself” de Walt Whitman

Parte I – Morte da cultura e o regresso à barbárie e ao pensamento mágico

“Sem a palavra, sem a escrita dos livros, não há história, não há conceito de humanidade”

Hermen Hesse

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

5 min de leitura

Texto 11. O pensamento está a tornar-se um bem de luxo

 Por Mary Harrington

Publicado por  em 28 de Julho de 2025 (original aqui)

 

                   Crédito: MattFurie

 

Quando eu era criança, nos anos 1980, os meus pais mandaram-me para uma escola Waldorf [1] na Inglaterra. Na época, a escola desaconselhava os pais a permitirem que os seus filhos assistissem a demasiada televisão, dizendo-lhes para realçar a importância da leitura, a aprendizagem prática e as brincadeiras ao ar livre.

Eu revoltava-me contra essa restrição na época. Mas talvez eles tivessem percebido algo importante: hoje eu não vejo muita televisão e ainda leio bastante. Desde os meus tempos de escola, porém, uma forma de tecnologia muito mais insidiosa e sedutora ganhou raízes: a internet, especialmente por meio dos telemóveis. Atualmente, sei que preciso de colocar o meu telefone numa gaveta ou em outro lugar cómodo se precisar de me concentrar por mais de alguns minutos.

Desde que os chamados testes de inteligência foram inventados há cerca de um século, até recentemente, os valores  de QI internacionais subiram de forma constante num fenómeno conhecido como efeito Flynn. Mas há evidências de que a nossa capacidade de aplicar esse poder cerebral está agora a diminuir. De acordo com um relatório recente, os índices de literacia de adultos estagnaram e começaram a declinar na maioria dos países da OCDE na última década, com alguns dos declínios mais acentuados visíveis entre os mais pobres. As crianças também apresentam queda na literacia.

Escrevendo no Financial Times, John Burn-Murdoch associa isso ao surgimento de uma cultura pós-letrada, na qual consumimos a maior parte dos nossos meios de comunicação através dos telemóveis, trocando textos densos por imagens e vídeos curtos. Outras pesquisas associaram o uso de telemóveis a sintomas de TDAH (Transtorno do Défice de Atenção com Hiperatividade) em adolescentes, e um quarto dos adultos americanos entrevistados suspeita que pode ter TDAH — ou seja, suspeita e/ou acredita que talvez sofra desse transtorno, mesmo sem diagnóstico oficial. Professores do ensino básico/secundário e superior atribuem menos livros completos aos seus alunos, em parte porque eles são incapazes de terminá-los. Quase metade dos americanos não leu nenhum livro em 2023.

A ideia de que a tecnologia está a alterar a nossa capacidade não apenas de concentração, mas também de leitura e raciocínio, está a ganhar força. A conversa para a qual ninguém está preparado, porém, é como é que isso pode estar a criar mais uma forma de desigualdade.

Pense nisso em comparação com os padrões de consumo de chamada comida de plástico: à medida que os snacks ultraprocessados se tornaram mais acessíveis e cada vez mais viciantes, as sociedades desenvolvidas assistiram ao surgimento de um abismo entre aqueles com recursos sociais e económicos para manter um estilo de vida saudável e os mais vulneráveis à cultura alimentar obesogénica. Esta bifurcação é fortemente marcada pela classe social: em todo o Ocidente desenvolvido, a obesidade passou a estar fortemente correlacionada com a pobreza. Temo que o mesmo aconteça com a maré do pós-literacia.

A literacia de textos longos não é inata, mas aprendida — por vezes, com esforço. Como a investigadora de literacia Maryanne Wolf demonstrou, adquirir e aperfeiçoar a capacidade de “leitura especializada” de textos longos é literalmente  um processo de transformação da mente. Reconfigura o nosso cérebro, amplia o vocabulário, desloca a atividade cerebral para o hemisfério esquerdo analítico e aprofunda a nossa capacidade de concentração, de raciocínio linear e pensamento profundo. A presença generalizada destas características contribuiu para o aparecimento da liberdade de expressão, da ciência moderna e da democracia liberal, entre outras coisas.

Os hábitos de pensamento formados pela leitura digital são muito diferentes. Como Cal Newport, um especialista em produtividade, demonstra no  seu livro de 2016, Trabalho Profundo, o ambiente digital é otimizado para a distração, já que diversos sistemas competem pela nossa atenção com notificações e outras solicitações. As plataformas de redes sociais são projetadas para ser viciantes, e o enorme volume de material incentiva “mordidas” cognitivas intensas de discurso, calibradas para o máximo de compulsividade, em detrimento da nuance ou do raciocínio reflexivo. Os padrões resultantes de consumo de conteúdo moldam-nos neurologicamente para a leitura superficial, o reconhecimento de padrões e o salto distraído de texto em texto — quando usamos os nossos telefones para ler tudo.

Cada vez mais, o próprio ato de ler quase não parece necessário. Plataformas como TikTok e YouTube Shorts oferecem um suprimento inesgotável de vídeos curtos e cativantes. Estes combinam-se com memes visuais, notícias falsas, notícias verdadeiras, caça-cliques, desinformação por vezes hostil e, crescentemente, uma enxurrada de conteúdo de baixíssima qualidade gerado por inteligência artificial. O resultado é um ambiente mediático que parece o equivalente cognitivo do corredor de comida de plástico (fast-food /junk food) — e é tão difícil de resistir quanto aquelas embalagens, coloridas e pouco saudáveis, são atrativas.

Um liberal clássico poderia retorquir: “Claro, mas assim como acontece com a comida industrializada, cabe ao indivíduo fazer escolhas saudáveis”. O que isso não leva em conta, porém, é que, tal como os impactos negativos do consumo excessivo de comida de péssima qualidade na saúde, os prejuízos cognitivos dos meios digitais serão mais acentuados na base da escala socioeconómica.

Já vemos sinais disso. Como aponta a Dra. Wolf, literacia e pobreza estão correlacionadas há muito tempo. Hoje, as crianças pobres passam mais tempo diante de ecrãs por dia do que as ricas — num estudo de 2019, cerca de mais de duas horas por dia para adolescentes e pré-adolescentes americanos cujas famílias ganhavam menos de 35.000 dólares por ano, em comparação com congéneres cujo rendimento familiar ultrapassava os 100.000 dólares. As investigações indicam que crianças expostas a mais de duas horas diárias de tempo de ecrã recreativo apresentam pior memória de trabalho, velocidade de processamento, níveis de atenção, competências linguísticas e função executiva do que as que não estão.

Francamente: Fazer escolhas cognitivas saudáveis é difícil. Numa cultura saturada de formas de entretenimento cada vez mais acessíveis e envolventes, a literacia de longa duração pode em breve tornar-se domínio de subculturas de elite.

Já hoje, as elites, os grupos religiosos e os conservadores estão a adotar limites autoimpostos no uso da tecnologia. Entre 2019 e 2023, mais de 250 novas escolas clássicas — muitas delas cristãs — abriram nos Estados Unidos, com uma filosofia centrada na literacia de “grandes obras” em formato longo. Abundam guias e iniciativas provenientes deste meio, como o recente livro “The Tech Exit: A Practical Guide to Freeing Kids and Teens From Smartphones” (“A Saída da Tecnologia: Um Guia Prático para Libertar Crianças e Adolescentes dos Telemóveis”), da autoria de Clare Morell, investigadora num grupo de reflexão conservador.

Não são apenas os conservadores. Figuras notáveis da tecnologia, como Bill Gates e Evan Spiegel, falaram publicamente sobre limitar o uso de ecrãs pelos seus filhos. Outros contratam amas que são obrigadas a assinar contratos de “proibição de telemóvel”, ou inscrevem os filhos em escolas Waldorf, onde esses dispositivos são proibidos ou fortemente restringidos. A diferença de classes aqui é afiada como o fio de uma navalha: a maioria das escolas de ensino clássico são instituições pagas. Proteger os seus filhos do uso excessivo de dispositivos na Escola Waldorf da Península custa 34.000 dólares por ano nas classes do ensino básico.

Muitos estados norte-americanos, incluindo a Califórnia, estão a restringir o uso de telemóveis pelos alunos, o que em teoria deveria nivelar o campo de jogo. Mas é otimista supor que tais regras serão aplicadas com a mesma determinação em escolas privadas com turmas pequenas e em escolas públicas de grande dimensão — e muito menos nas casas desses alunos.

Para além de Sillicon Valley, algumas pessoas estão a limitar a estimulação digital (como redes sociais ou videogames) por períodos determinados como parte da prática de autodesenvolvimento conhecida como dopamine fasting (jejum de dopamina).

A abordagem ascética para a aptidão cognitiva ainda é um nicho concentrado entre os mais ricos. Mas à medida que as novas gerações chegam à idade adulta, sem nunca ter vivido num mundo sem telemóveis, podemos esperar que a cultura se estratifique de forma cada vez mais acentuada. Por um lado, um grupo relativamente pequeno de pessoas irá preservar — e desenvolver intencionalmente — a capacidade de concentração e de raciocínio aprofundado. Por outro, uma população geral mais ampla será efetivamente pós-letrada, com todas as consequências que isso implica para a clareza cognitiva.

O que acontecerá se isto se concretizar plenamente? Um eleitorado que perdeu a capacidade de pensamento aprofundado será mais tribal, menos racional, amplamente desinteressado nos factos ou mesmo em questões do registo histórico, movido mais por sensações do que por argumentos coerentes, e recetivo a ideias fantásticas e a teorias da conspiração bizarras. Se isto soa familiar, pode ser um sinal de quão longe o Ocidente já percorreu este caminho.

Para operadores astutos, um tal público oferece novas oportunidades de corrupção. Os oligarcas que tentam moldar as políticas a seu favor beneficiarão do facto de poucos terem capacidade de atenção suficiente para acompanhar ou contestar políticas em áreas áridas e técnicas; o que a maioria quer agora, não é uma investigação meticulosa, mas um novo vídeo curto que “humilhe” a tribo adversária. Podemos esperar que a classe governante se adapte pragmaticamente ao declínio coletivo da capacidade racional do eleitorado — por exemplo, mantendo os rituais associados à democracia de massas enquanto, discretamente, desloca áreas políticas fundamentais para fora do alcance de uma cidadania caprichosa e facilmente manipulável. Não celebro isso, mas os nossos jovens nativos digitais parecem indiferentes: sondagens internacionais revelam um apoio cada vez menor à democracia entre a Geração Z [pessoas nascidas entre 1997 e 2012].

Para que não me entendam mal, não há razão para que a oportunidade de marginalizar o eleitorado — ou de explorar o fosso entre o ambiente emocional e as políticas concretas — favoreça especialmente o lado vermelho ou o lado azul. Este mundo pós-literato favorece os demagogos hábeis em alternar entre a linguagem elitista das políticas públicas e a linguagem populista do lixo composto de memes. Favorece os oligarcas com boa presença nas redes sociais e aqueles com mais arrogância do que integridade. Não favorece quem tem pouco dinheiro, pouco poder político e ninguém que fale por eles.

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[1] N.T. A educação Waldorf, também conhecida como educação Steiner, baseia-se na filosofia educacional de Rudolf Steiner, o fundador da Antroposofia. O seu estilo educacional é holístico, destinado a desenvolver as habilidades intelectuais, artísticas e práticas dos alunos, com foco na imaginação e na criatividade. Os professores individuais têm uma grande autonomia no conteúdo curricular, nos métodos de ensino e na governação. As avaliações qualitativas do trabalho dos alunos são integradas na vida quotidiana da sala de aula, com testes padronizados limitados ao necessário para entrar no ensino pós-secundário (fonte: wikipedia).

 


A autora: Mary Harrington é uma escritora baseada no Reino Unido, e editora contribuinte de UnHerd, onde escreve uma coluna semanal. Interessa-se (entre outras coisas) pelos efeitos secundários políticos e culturais da globalização, a substituição da política de classes por políticas de identidade, a alegria dos limites, e os direitos das mulheres na era da biotecnologia, que é o tema do seu livro Feminismo Contra o Progresso. Autora do próximo livro The King and the Swarm.

 

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